Cia das Letras traz de navio os livros para o pioneiro Centro de Distribuição no Nordeste

“Navegar é preciso”, já dizia o poeta português Fernando Pessoa. Ler também é preciso. E é navegando pelo mar, por cabotagem, cruzando 2.332 quilômetros de costa brasileira, que desembarca a primeira remessa de 1,5 milhão de livros marcando a chegada do primeiro Centro de Distribuição da Companhia das Letras fora de São Paulo. A carga chega de navio pelo Porto de Suape para ser armazenado numa área de 2 mil m², em Jaboatão dos Guararapes, para atender oito estados: Alagoas, Ceará, Maranhão, Paraíba, Piauí, Rio Grande do Norte e Sergipe, além de Pernambuco. Para celebrar a inauguração do CD, a editora paulista promoveu um encontro com os leitores de dois autores nordestinos da casa – os cearenses Socorro Acioli e Stênio Gardel – e um encontro com distribuidores e livreiros, na Livraria Jaqueira, do Paço Alfândega. Os autores nordestinos correspondem entre 12% e 15% dos autores brasileiros da editora.

A ideia de montar o Centro de Distribuição surgiu ainda durante a pandemia e foi retomada no ano passado e levou mais de um ano desde sua criação ao desenvolvimento e inauguração, que envolveu todos os setores da Cia das Letras. “Com um Centro de Distribuição no Nordeste, vamos ganhar em agilidade nas entregas e grande redução nos custos do frete. Com isso, prevemos um aumento de 20% no faturamento em 2 anos”, afirmou Luciana Borges, Diretora Comercial da Companhia das Letras, ontem, em coletiva de imprensa no Recife. A Companhia das Letras, por questão estratégica, não revela o investimento no CD.

O planejamento da logística envolvendo o transporte dos livros é complexa. A maior parte da carga que vem por navio em caixas será de reposição de títulos de estoque, uma vez que o tempo de transporte por via marítima é de até 20 dias, enquanto por via terrestre, em carreta, é de 7 a 15 dias. Mas alguns títulos de lançamento virão por navio, uma vez que a editora estipulou um prazo de 30 dias entre o final da produção e entrega do livro pronto no CD de São Paulo para que haja prazo suficiente para que chegue às livrarias na data estipulada.

Alguns indicadores foram importantes na decisão da Cia das Letras em inaugurar no Nordeste o seu primeiro CD. A região é a terceira no país em livrarias, com 334 de um total de 2.972 – em primeiro vem o Sudeste (1.814), seguido do Sul (561), de acordo com a Associação Nacional de Livrarias. Por questões de logística, a Bahia ficou de fora. O crescimento registrado no mercado nordestino foi estimado em 20% em dois anos. Outro fator que teve peso foi a consolidação do CD da Amazon em Pernambuco, maior player de e-commerce. A principal rede de livrarias atendida pela editora – a Leitura – também se expandiu na região e vai inaugurar mais uma loja na Região Metropolitana do Recife.

“Os nossos parceiros comerciais focam as aquisições e acervos nos livros mais vendidos e lançamentos. Com um custo mais ágil, vamos possibilitar um investimento maior nas obras do nosso catálogo e um aumento na disponibilidade de títulos”, afirma Luciana Braga. “Com uma maior oferta para o leitor, ter mais títulos expostos nas lojas e sites, e, consequentemente, incremento de vendas”.

A expectativa é de que haja uma maior presença da Cia das Letras e seus autores em encontros, feiras e bienais do livro com a chegada do CD do Nordeste. “Com o livro mais perto, resolve-se um problema antigo: o prazo de remessa dos títulos para esses eventos. Muitas vezes, quando o pedido dos promotores e produtores chegavam, não havia tempo suficiente de despachar as caixas”, explica Max Santos.

A operação e a logística fica com a Transpo Express, especializada em coletas e entregas no mercado editorial há mais de 30 anos. O investimento para a implantação é de R$ 1 milhão, com a geração inicial de 30 empregos diretos, devendo chegar a 100. A carga sai por via terrestre de São Paulo ao Porto de Santos (110 km), de onde parte por cabotagem até Suape e de lá, transcorre mais 50,4 km de caminhão até o novo depósito. Esse novo modal vai gerar uma economia de 76% nas emissões totais de CO², segundo a editora.

Fundada por Luiz Schwarcz e Lila Moritz Schwarcz, em 1986, nos fundos da gráfica do avô do editor, o Grupo Companhia das Letras tem atualmente 8.500 títulos espalhados em 21 selos, entre próprios e criados pelas editoras adquiridas – Objetiva, Zahar, Brink-Book e JBC. Desde 2011, 45% das ações da empresa foram adquiridas pela Penguin Random House, o maior grupo editorial do mundo.