No mundo real e na ficção há dois tipos básicos de vilões: os loucos e os maus. No mundo real, guardamos distância deles. Na ficção, não raro ganham nossa simpatia; estranho fenômeno, tal vez mera afinidade por compartilharmos instintos primitivos, que, embora reprimidos pelo processo civilizatório, estão sempre operantes naqueles que atuam no “lado sombrio da Força”. Deve-se assinalar, contudo, que até mesmo quem empunha o sabre de luz verde está sujeito a breves insubmissões desses instintos; uma vez ou outra, escuta-se a fera rugir. Quem nunca estremeceu com pensamentos sórdidos, intrusivos e renitentes? Que ninguém se aflija por isso, o problema não é ter tais pensamentos, o problema é não conseguir contê-los:
Em torvo calabouço nos desvãos
do encéfalo, retêm-se subjugados
os pensamentos sórdidos, malsãos,
que nos assaltam por todos os lados.
Tal como os insurgentes que há nos guetos,
rebelando-se contra a diretriz
que a consciência recomenda ao ethos,
o enxame desses pensamentos vis
para se libertar forceja, insiste...
E, por vezes, a mente não suporta.
Finalmente, isso tudo me reporta
ao que ensinava um venerando antiste:
nos loucos, tal masmorra não existe;
nos maus, deixa-se aberta sua porta.1
Um “enxame de pensamentos vis” acossou Raskólnikov. A princípio foi contido; mas logo venceu as barreiras morais que o detinham, gerando o arrazoado mais contundente da obra de Dostoiévski (1821-1881): “Matá-la e pegar seu dinheiro, para com ele dedicar-se depois ao serviço de toda humanidade e ao bem comum. O que você acha? Milhares de boas ações não compensariam um crime insignificante? Por uma só vida, milhares de vidas salvas da podridão e da decadência. Uma morte por cem vidas... É pura aritmética! Além disso, quanto pesa na balança social a vida dessa velhota estúpida, tísica e maligna? Não mais que a vida de um piolho, de uma barata, e nem mesmo isso, pois a velha é uma criatura perversa.”
Em geral, para os médicos, a loucura é típica dos psicóticos e a “maldade absoluta” se vê nos psicopatas. Raskólnikov não se encaixa facilmente em nenhum dos grupos, nele há pensamento bem estruturado, empatia e arrependimento. Somos tentados a pensar em “maldade acidental”; por um momento, Deus e o Diabo disputaram em seu foro íntimo, e o Diabo argumentou melhor... Ao ler o livro, quem não nutriu alguma simpatia pelo jovem promissor que se deu mal na vida por ser pobre? Quem não execrou a velha usurária e imprestável? Quem, no lugar de Raskólnikov, não ficaria um pouquinho tentado a acatar as alegações diabólicas? Com toque de genialidade, Dostoiévski mostra quão frágil é o bloqueio ético que refreia nossos impulsos, e nos leva a temer que, pressionado por contingências adversas, qualquer um possa fazer o que seu personagem fez. Eis que se entrevê um vínculo: poderia ser um de nós ali...
Alguns vilões exibem uma “maldade relativa”. O Lobo Mau do conto de Perrault (1628-1703) é mau em relação aos humanos, porém não perante a alcateia, pois age conforme a natureza dos lobos, e isso fica patente em versos que, após o conto, proclamam a “moral da história”:
“Observa-se aqui que crianças,
Principalmente as garotinhas
belas, graciosas e meiguinhas,
erram ao ouvirem qualquer um em suas andanças
e, portanto, ninguém estranhe
que muitas o lobo abocanhe.”
Não é estranho que a menininha seja devorada pelo lobo como não é estranho que devoremos um galeto assado. Não existe crueldade no que o lobo faz, apenas está matando a fome. Assim também o Conde Drácula, ele é um vampiro e vampiros alimentam-se de sangue. Age para sobreviver, e isso é um atenuante; ademais, apesar de ser um personagem assustador, o charme de sua figura e a volúpia do beijo na jugular o tornam fascinante.
No romance de Bram Stoker (1847-1912), além de Drácula, há outro vilão envolvente: Renfield. Encontramo-lo internado em um manicômio onde, em breve momento de lucidez, narra seu caso: “Eu costumava imaginar que a vida era uma entidade positiva e perpétua, e que, ao consumir grande quantidade de seres vivos, não importando quão inferiores eles estivessem na escala da criação, seria possível prolongá-la indefinidamente. Houve época em que levei essa crença tão a sério que atentei contra a vida humana. O doutor aqui poderá confirmar que, em certa ocasião, tentei matá-lo para fortalecer meus poderes vitais, assimilando em meu próprio corpo a vida dele por meio de seu sangue. Inspirei-me, é claro, na passagem bíblica que diz: ‘Pois o sangue é a vida’.”
Renfield, que não era vampiro, acreditava ser normal buscar a imortalidade ingerindo moscas, aranhas e outros animais vivos. Trata-se de um delírio típico, ou seja, uma convicção errônea, uma falsa crença; e delírio é um dos principais indícios de psicose. Inicialmente usada para designar qualquer doença mental, a palavra psicose hoje em dia restringe-se a uma síndrome onde ressaltam desconexão da realidade, delírio, alucinações e pensamento desorganizado. Pode surgir no contexto de diferentes afecções cerebrais, como, por exemplo, encefalite e doença de Alzheimer, ou ocorrer sob a forma de doença psiquiátrica específica, neste caso a esquizofrenia é a causa mais comum.
Durante um surto psicótico, atitudes inapropriadas podem descair em agressividade e acessos de fúria. Embora isso não seja comum, acontece o tempo todo com Bertha Mason, a psicótica do romance Jane Eyre; eis como ela recebe o esposo: “A lunática pulou, agarrou-lhe a garganta com violência e cravou os dentes em seu rosto. Engalfinharam-se. Era uma mulher grande, quase tão alta quanto o marido e, além disso, corpulenta. Exibiu uma força viril na luta — mesmo ele tendo um porte atlético, mais de uma vez quase foi estrangulado. Poderia derrubá-la com um golpe bem dado, mas não queria bater, apenas detê-la. Finalmente, conteve seus braços. Grace Poole deu-lhe uma corda e ele os prendeu por trás das costas. Com mais corda que estava à mão, amarrou-a numa cadeira. A operação aconteceu em meio aos gritos mais ferozes e ímpetos mais convulsos.”
O psicótico atende às demandas de seu mundo irreal e não tem consciência da inadequação de seus atos. Não há mens rea, “mente culpada”, por isso ele é inimputável; perante a lei, não cabe castigá-lo, mas tratá-lo. Por não terem consciência do mal que causam, esses personagens, principalmente quando fazem algo de bom, muitas vezes cativam o leitor; foi o caso de Renfield, que se interpôs entre Drácula e uma de suas vítimas, pagando a afronta com a vida. Quando nada de bom emana da loucura, torce-se para que o lunático saia de cena, com uma camisa de força ou de outra forma. Assim aconteceu com Bertha; para garantir o final feliz, Charlotte Brontë (1816-1855) optou por seu suicídio.
Vamos considerar agora aqueles que acalentam o mal no coração, os psicopatas. Literalmente, da mesma forma que psicose, psicopatia quer dizer doença mental. As duas palavras derivam do grego psyche, com o significado de mente; o sufixo osis e o elemento de composição vocabular pathos são adicionados, ambos na acepção de doença. Com o tempo houve uma remodelação semântica e a palavra passou a designar uma síndrome que afeta a personalidade, com acentuada perda de empatia, frieza, emoções superficiais ou fingidas, pouca culpa ou remorso, impulsividade, egocentrismo e arrogância.
Os psicopatas são os vilões mais comuns na literatura. Quanto a isso, a arte imita a realidade: estima-se que constituam cerca de 1% da população mundial e 20% da população carcerária (quando se trata de assassinos em série, o percentual fica em torno de 86,5%). Eles estão ao redor de nós; felizmente, na maioria das vezes não são criminosos. Astutos e manipuladores, muitos obtêm sucesso e prestígio; num mundo onde as pessoas competem acirradamente por destaque, frieza emocional e falta de empatia podem ser vantajosas. Kevin Dutton, renomado pesquisador da Universidade de Oxford, elaborou uma lista dos dez profissionais com maior chance de serem psicopatas, apresentada em ordem decrescente de incidência; são eles: diretor-executivo (CEO), advogado, profissional de mídia (TV/rádio), vendedor, cirurgião, jornalista, policial, líder religioso, chefe de cozinha e burocrata. Observe-se que são profissões que envolvem poder e possibilidade de boa remuneração, exigindo habilidades de alto nível, destacada capacidade executiva e desenvoltura ao lidar com o estresse.
Ardiloso e inteligente, o professor James Moriarty é um desses “psicopatas bem-sucedidos” que despertam no leitor curiosa ambivalência onde coexistem repulsa e admiração; Arthur Conan Doyle (1859-1930) deu-lhe vida para que Sherlock Holmes tivesse um oponente à sua altura. E é assim que Holmes o descreve: “Ele é o Napoleão do crime, Watson. É o organizador de metade do que há de ruim e de quase tudo que passa despercebido nesta grande cidade. É um gênio, um filósofo, um pensador abstrato. Tem um cérebro privilegiado. Permanece sentado, imóvel feito uma aranha no centro da teia, mas essa teia tem milhares de fios, e ele conhece muito bem a vibração de cada um deles. Ele mesmo pouco faz. Só planeja. Porém seus agentes são numerosos e esplendidamente organizados.”
Todavia, do mesmo modo que no mundo real, a maior parte dos psicopatas fictícios não se destaca pela genialidade; são seres frustrados e invejosos, mestres da sub-repção e da sordidez. Assim se mostra Iago, ao urdir sua trama contra Otelo: “Detesto o mouro. E dizem por aí que ele já andou fazendo meu papel entre meus lençóis. Não sei se é verdade; mas, por via das dúvidas, agirei como quem tem certeza. Ele me tem grande consideração e assim fica mais fácil alcançar meu propósito. Cássio é a pessoa apropriada. Vejamos agora como fazer para tomar seu lugar e consumar minha vingança com astúcia dobrada – Como? Como? Vejamos... Durante algum tempo, encherei os ouvidos de Otelo insinuando que Cássio ficou muito íntimo de sua esposa.”
Em Otelo, Shakespeare (1564-1616) expôs dois cancros morais: inveja e cobiça. Foram eles que moveram Iago. Houve justificativas para sua maldade; ainda que torpes, não deixam de ser justificativas. Existem vilões piores, seres que agem de forma injustificada, deleitando-se na prática do mal, monstros como este do conto “O gato preto”, de Edgar Allan Poe (1809-1849): “Digo que esse espírito de perversidade levou à minha queda final. Foi esse incompreensível desejo da alma de atormentar-se, de violentar sua própria natureza, de fazer o mal apenas pelo mal, que me levou a continuar e, finalmente, consumar o suplício que infligi ao inofensivo bicho. Numa manhã, a sangue-frio, passei um laço em seu pescoço e o enforquei no galho de uma árvore.”
De onde vem tanta maldade? Em “Sobre o fundamento da moral”, Schopenhauer (1788-1860) diz: “O homem perverso nasce com sua maldade da mesma forma que a serpente nasce com suas presas e glândulas venenosas; e, como a serpente, ele não pode mudar”. Estudos do encéfalo de psicopatas respaldam a opinião do filósofo; ao que tudo indica, o homem perverso não pode mudar porque seu cérebro não funciona em conformidade com o que é bom para a sociedade, e parece haver a influência de um fator genético: gêmeos monozigóticos, que têm os mesmos genes, são muito mais semelhantes quanto à propensão para o crime e agressividade do que gêmeos dizigóticos, que compartilham, em média, 50% da carga genética (como seria se não fossem gêmeos). Os modernos exames que permitem avaliar a estrutura e o funcionamento do encéfalo mostram alterações típicas no cérebro dos psicopatas, notadamente nas regiões frontais e temporolímbicas, áreas envolvidas na tomada de decisões morais, processamento emocional e aprendizagem. Porém, a maldade certamente não resulta apenas de um transtorno do funcionamento cerebral, as diretrizes morais da sociedade e o temor da punição são decisivos para coibi-la.
A Arte é fruto do processo civilizatório; portanto, não surpreende que os artistas estejam na lista dos dez profissionais com menor chance de serem psicopatas (também elaborada por Kevin Dutton). Entende-se, pois, que na arte literária os vilões geralmente se deem mal. Quanto aos vilões reais, o enredo é outro, basta correr os olhos pelo noticiário para admitir que os psicopatas deitam e rolam; eles estão governando nações com poder de devastar o planeta... E o desalento aumenta quando vemos que, em filmes e séries televisivas, os vilões fictícios têm cedido lugar a vilões reais, vivos, alcançáveis e cheios de fãs. Quanto a um vilão fictício, podemos dizer, sem peso na consciência, “odioso ma non troppo”. E desses vilões reais? Pode-se dizer o mesmo? Que repercussão terá no conturbado ethos dos encéfalos imaturos a exibição glamorosa de parricidas, filicidas e outros demônios, criminosos que ganham fama graças ao mal imenso que causaram? Não estamos diante de um incentivo? Dar-lhes audiência não seria uma afronta a suas vítimas? Pode parecer alarmismo infundado, mas todo cuidado é pouco frente à ameaça daquilo que, de olhos postos no julgamento do carrasco nazista Adolf Eichmann, Hannah Arendt (1906-1975) descreveu como “banalidade do mal”. Mantenho a fé na humanidade; porém, quando vejo esses adeptos do “lado sombrio” arregimentando uma infinidade de seguidores nas redes sociais, temo que a hora de entornar as sete taças do Apocalipse esteja próxima e invoco Joseph Conrad (1857-1924), repetindo entredentes as últimas palavras de Kurtz: “O horror! O horror!”
1- Sobre a loucura e a maldade (Luiz Coutinho)
CONTEÚDO NA ÍNTEGRA NA EDIÇÃO IMPRESSA
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