A longa turnê de lançamento de 'A palavra que resta'

Quase três anos após ganhar as prateleiras, em abril de 2021, A palavra que resta (Companhia das Letras, 160 páginas, R$ 62,90), livro de estreia de Stênio Gardel, ainda tem status de novidade e ganha evento de lançamento no Recife, próximo dia 2 de abril, a partir das 18h, no auditório da Livraria Jaqueira, no Bairro do Recife.

Na verdade, o lançamento propriamente dito no evento é do livro Oração para desaparecer, mais recente trabalho de Socorro Acioli. Já A palavra que resta se integra à programação como um momento de celebração da obra. Afinal, há alguns meses o título foi o vencedor, na categoria tradução, do National Book Awards, um dos prêmios de literatura mais tradicionais dos EUA.

Com a nova visibilidade conquistada a partir de The words that remain, a premiada tradução para o inglês de Bruna Dantas Lobato, a edição original em português também acabou sendo redescoberta. Mas a realização de um evento reunindo os dois autores não se trata de uma junção despropositada. Além de conterrâneos do Ceará, ela de Fortaleza, ele de Limoeiro do Norte, Socorro teve papel fundamental na formação de Stênio como escritor.

Stênio, que desde a adolescência ensaiava alguns escritos, decidiu, em 2016, ingressar em um ateliê de narrativas coordenado por Socorro. Ao longo do curso, decidiu que iria parar de postergar esse desejo. Publicou alguns textos em coletâneas e também passou a organizar as ideias que tinham para seu primeiro livro.

Raimundo Gaudêncio, o personagem principal de A palavra que resta, um idoso analfabeto que guardou por 50 anos uma carta escrita por seu antigo amor, já existia pelo menos desde 2013, em anotações do autor. A inspiração para um protagonista que não sabe ler veio de situações vividas no trabalho como técnico judiciário no Tribunal Regional Eleitoral (TRE), em contato com algumas pessoas que sequer sabiam assinar o próprio nome.

“Eu pensava nessas pessoas que, em algum momento da vida, da infância ou da adolescência, não conseguiram ir para escola aprender a ler e a escrever. E isso acabou me marcando de alguma maneira e se juntando a outra imagem ficcional, de um homem que tem algo importante para ler e não consegue”, recorda Gardel.

Juntando essa situação observada no atendimento ao público no TRE ao personagem de Raimundo esboçado anos antes, o autor foi “trazendo algumas perguntas para essas imagens, e as respostas foram construindo uma história”. Em seguida, veio a ideia da carta, que foi transformada em produto de um relacionamento homoafetivo interrompido na juventude do protagonista.

A história de A palavra que resta ainda deve ir para a tela grande nos próximos anos. No mesmo ano de lançamento, a produtora Pródigo Filmes, a mesma responsável por uma série sobre Anderson Silva, Spider, da Paramount+, adquiriu os direitos para adaptação cinematográfica da obra. O projeto tem roteiro de Armando Praça e direção de Fernando Nogari.

Enquanto ainda circula na divulgação de seu romance de estreia, Stênio trabalha em dois projetos: um livro infantil em com ilustrações do artista Nelson Cruz, e um segundo romance, cujos detalhes ainda não revela, mas adianta já ter “uma boa quantidade de palavras escritas”.

E o ofício da escrita é conciliado com o trabalho no TRE, onde segue batendo ponto diariamente no TRE, dando continuidade a uma longa tradição de escritores do funcionalismo público, a exemplo de Machado de Assis, Graciliano Ramos e Lygia Fagundes Telles.

[Entrevista]


Você já estava com mais de 40 anos quando lançou seu primeiro livro. O interesse pela escrita veio mais recentemente ou era um interesse que você já alimentava anteriormente?
Eu tinha essa vontade de escrever, de publicar, desde muito cedo, da minha adolescência. Mas foi tudo ficando deixado para depois, como acontece com muitas coisas com muitas pessoas. Eu tive de sair de Limoeiro para vir para Fortaleza estudar, terminar o Ensino Médio, fazer faculdade, começar a trabalhar, ganhar dinheiro, ajudar a família. E durante um tempo deu certo, mas chegou no quarto ano da faculdade de Engenharia Civil, daqui do Ceará, eu abandonei e foi o tempo que estudei para concurso, fiz para o TRE, e é onde eu estou até hoje. E a vontade de escrever foi me acompanhando aí do lado, mas sempre deixada de lado. Até que em 2016 eu fiz o ateliê de narrativas com Socorro Aciolli, que iria durar um ano mais ou menos, e foi quando eu senti, ou percebi, que era o momento de finalmente tomar a decisão, se eu queria realmente começar a escrever, tornar aquilo realidade. Ou se ia ficar sempre essa vontade não realizada.

E como se deu esse impulso?
O momento era muito propício. Eu já tava trabalhando, isso me dava uma tranquilidade financeira, eu tava tendo aula com Socorro Aciolli, que já era conhecida, uma grande professora e escritora, já tinha ganhado o Jabuti, eu tava rodeado de pessoas que queriam a mesma coisa que eu compartilhavam sonhos. Tudo isso formou meio que uma conjunção e eu decidi realmente por a história no papel.

A premissa já existia ou surgiu ao longo do curso?
Eu tinha a história há bastante tempo, eu tinha algumas anotações do Raimundo desde 2013, capítulos iniciados, e aí foi quando, em 2016, eu fiz o primeiro planejamento do livro. Em 2017 eu tinha a primeira versão. Socorro leu a primeira versão, depois, o livro passou por uma leitura crítica. E aí teve o tempo de espera pela resposta da Companhia das Letras para publicar.

É comum, na imprensa, ver você sendo tratado como autor ‘nordestino’, uma categorização que dificilmente ocorre com nomes do Sudeste. Incomoda esse rótulo?
Não me incomoda, porque não me incomoda ser nordestino. O meu livro tem essa característica do lugar de onde eu venho, tem traços meus. Ressaltar o meu lugar de origem não é negativo. Pode haver uma leitura enviesada se a gente pensar, nesse regionalismo, que algo, por ser daqui, tem menos valor. Acho que o realce no contexto de hoje, da literatura de hoje, vai contra essa caracterização, essa estereotipação negativa.