Há poetas cuja obra se impõe pela exuberância, pela força do excesso, pelo verbo inflado. E há Orides Fontela. Nascida em 1940, em São João da Boa Vista, ela parece escrever como quem esculpe um cristal: um gesto preciso, uma retirada paciente, uma recusa firme ao ruído. Seus poemas, curtos como lâminas, longos como perguntas essenciais, atravessam décadas como se tivessem sido escritos ontem — ou amanhã.
Em 2026, sua importância recebe novo e decisivo reconhecimento quando a poeta é escolhida como autora homenageada da 24ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). O evento, realizado entre 22 e 26 de julho, celebra sua contribuição singular à poesia brasileira contemporânea, reafirmando-a como figura incontornável. A curadora literária da edição, Rita Palmeira, destaca a precisão e a força de sua escrita, afirmando que a obra de Orides permanece atual, instigante e luminosa. A homenagem vem acompanhada do relançamento integral de sua obra pela Editora Hedra, que publica novas edições de seus livros e prepara um box comemorativo com materiais adicionais — movimento que consolida a poeta no centro da tradição literária brasileira.
Durante a Flip, mesas, debates e leituras ressaltam a singularidade de sua trajetória e o caráter visionário de sua poesia, que antecipa discussões contemporâneas sobre a relação entre natureza e linguagem, o lugar do silêncio e a ética da concisão. O evento reaproxima novos leitores de sua obra e reforça seu impacto na literatura nacional, evidenciando como seus poemas continuam a provocar, iluminar e inquietar
A infância humilde, a vida marcada por privações, a obstinação que a leva até a USP para estudar Filosofia: tudo nela aponta para essa tensão entre dureza e claridade, entre rigor e lampejo. Orides nunca quis ser celebridade literária. Parecia interessada apenas em uma tarefa quase monástica — firme, disciplinada e austera: depurar a linguagem até ouvir, no fundo de cada palavra, o som exato da existência.
A poeta publica livros fundamentais, como Transposição (1969), Helianto (1973), Alba (1983), Rosácea (1986) e Teia (1996). Em todos eles, nota-se o gesto recorrente de uma escrita que se quer essencial, fiel a uma economia verbal radical e a um tipo particular de luminosidade: aquela que revela e, ao mesmo tempo, fere; que ilumina e silencia. Seus poemas, geralmente curtos, apresentam-se como pequenas lâminas conceituais. Não há neles espaço para o supérfluo. Há, sim, a busca por uma palavra que capte a centelha do instante, o núcleo duro das coisas, o enigma de existir.
Críticos importantes reconhecem cedo a singularidade a obra de Orides. Benedito Nunes aponta o “misticismo laico” presente em seus versos — uma relação com o absoluto que não se funda em transcendência religiosa, mas na própria construção do poema. Luiz Costa Lima observa sua “desconfiada limpidez”, destacando que a aparente transparência dos versos esconde densidades filosóficas profundas: a clareza, em Orides, nunca é simples. A poeta trabalha com a linguagem como quem manuseia matéria mineral — lapidando, retirando excessos, aproximando-se do essencial.
Entre os temas mais marcantes de sua obra estão a luz e os elementos naturais. A luz, em particular, surge como força ontológica: não apenas fenômeno físico, mas princípio. Seus poemas mostram a luz como ferida, purificação, revelação ou retraimento. Da mesma forma, elementos como pedra, pássaro, água, flor e fogo aparecem não como motivos descritivos, mas como chaves para pensar o ser. A pedra indica o núcleo firme da existência; a água, a passagem; a flor, a abertura. Nada é alegoria — tudo é tentativa de captura do real em sua forma mais pura.
Ainda que receba prêmios como o Jabuti por Teia, Orides vive à margem das grandes rodas literárias. Sua vida é difícil, frequentemente solitária. Mas sua obra, pequena em extensão e vasta em profundidade, encontra leitores fiéis e, com o tempo, torna-se cada vez mais estudada, comentada e reeditada. Nas últimas décadas, Orides ocupa um lugar central no debate literário brasileiro e passa a ser considerada uma das vozes mais originais e potentes do século XX.
A obra de Orides Fontela permanece como convite — e desafio. Seus versos nos chamam a olhar o mundo com rigor, a perceber a luz que se esconde no mínimo, a ouvir o silêncio das coisas. É uma poesia que não busca agradar, mas desvelar. Uma poesia que se recusa ao ornamento e nos conduz a um centro mais profundo: o da própria experiência de existir. Em cada poema, há uma tensão entre clareza e mistério, entre o contorno e o indizível.
Orides morre em 1998, mas sua poesia, rigorosa e intensa, continua viva. Mais do que isso: continua necessária. No fim, talvez ela tenha sempre sabido que a poesia não é ornamento, mas ferramenta. Não é enfeite, mas lâmina. E, sobretudo, não é fuga — é encontro. Com a pedra, com a flor, com a água. Com a pergunta silenciosa que cada coisa carrega dentro de si. Com o núcleo incandescente de existir.
E é por isso que, tantos anos depois, sua obra segue brilhando — firme, necessária, irredutível.
Silêncio
I
A madrugada.
Seu coração de silêncio.
II
O silêncio cheio
de peixes
de irisados peixes
úmidos.
III
Grandes árvores
ânforas
transbordantes de silêncio.
IV
Galos
no alto silêncio
impressos
seda
translúcida do silêncio.
Odes
I
O verbo?
Embebê-lo de denso vinho.
A vida?
Dissolvê-la no intenso júbilo.
II
Sonho vivido desde sempre
̶ real buscado até o sangue.
III
O Sol cai até o solo
a árvore dói até o cerne
a vida pulsa até o centro
… o arco se verga
até o extremo limite.
IV
Lavro a figura
não em pedra: em silêncio.
Lavro a figura
não na pedra (inda plástica) mas no
inumano vazio
do silêncio.
V
A flor abriu-se.
A flor mostrou-se em sua inteireza:
̶ Tragamos, ouro, incenso, mirra!
̻Desafio
Contra as flores que vivo
contra os limites
contra a aparência a atenção pura
constrói um campo sem mais jardim
que a essência.
Kant (relido)
Duas coisas admiro: a dura lei
cobrindo-me
e o estrelado céu
dentro de mim.
Fala
Tudo
será difícil de dizer:
a palavra real
nunca é suave.
Tudo será duro:
luz impiedosa
excessiva vivência
consciência demais do ser.
Tudo será
capaz de ferir. Será
agressivamente real.
Tão real que nos despedaça.
Não há piedade nos signos
e nem o amor: o ser
é excessivamente lúcido
e a palavra é densa e nos fere.
(Toda palavra é crueldade.)
Fala (II)
Falo de agrestes
pássaros de sóis
que não se apagam
de inamovíveis
pedras
de sangue
vivo de estrelas
que não cessam.
Falo do que impede
o sono.