Um novo olhar sobre a história do Brasil holandês

“Pelo Lucro da Companhia” - Uma breve história do Brasil holandês em três atos (1630-1640) faz uma análise crítica da presença neerlandesa no Nordeste

Rômulo Nascimento é professor de História de Pernambuco na UFPE
Rômulo Nascimento é professor de História de Pernambuco na UFPE

Em 2004, o historiador Rômulo Luiz Xavier do Nascimento defendeu dissertação de mestrado na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), com foco nas questões político-administrativas antes e durante a administração de Maurício de Nassau no Nordeste brasileiro. Para fazer o trabalho, Rômulo Nascimento garimpou documentos até então consultados por poucos pesquisadores e que, segundo ele, são fundamentais para uma análise crítica dos oito anos do governo de Nassau, que se estendeu de 1637 a 1644, no século 17.

“No imaginário coletivo, fica parecendo que a presença holandesa é uma coisa mágica. Maurício de Nassau não criou a administração do zero. Já havia um princípio administrativo português no Recife e os holandeses deram continuidade ao modelo, eles não destruíram tudo o que tinha”, declara Rômulo Nascimento, atualmente professor no Departamento de História da UFPE. “Quando criaram as câmaras municipais, que eram os escabinos, eles se utilizaram da divisão territorial em freguesias, um sistema português”, observa o historiador.

A composição da Câmara dos Escabinos, equivalente à Câmara de Vereadores, incluía holandeses e portugueses que viviam no Recife. “Eles fizeram uma espécie de tentativa de conciliação para cooptar, mas sempre prevalecia a vontade dos holandeses. Não foi uma coisa democrática e o que me inquieta até hoje é que a gente ainda continua imaginando como a história poderia ter sido se os holandeses tivessem permanecido no Nordeste, eles vieram para explorar, mantiveram a monocultura e a escravidão”, diz Rômulo Nascimento, professor de História de Pernambuco.

Essa inquietação levou o docente, 20 anos depois da pesquisa, a transformar a dissertação em livro. “Pelo Lucro da Companhia” - Uma breve história do Brasil holandês em três atos (1630-1640), foi publicado no fim de 2025 (Editora Cancioneiro, 180 páginas, R$ 50). A principal fonte utilizada é a Coleção José Hygino - Nótulas Diárias e Cartas e Papéis do Brasil - copiados e trazidos dos arquivos da Companhia das Índias Ocidentais, empresa comercial que financiou a ocupação neerlandesa em terras brasileiras, de 1630 a 1654, para o Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano, no século 19.

Com a pesquisa, a Coleção José Hygino foi acessada pela  primeira vez, após um grande hiato no tempo, diz o professor. Rômulo Nascimento também fundamentou o trabalho em documentação do Laboratório de Pesquisa em Ciências e História da UFPE (Lapeh), coordenado por ele de 2016 a 2023. O Lapeh, instalado no prédio do Centro de Filosofia e Ciências Humanas, preserva cópias de manuscritos originais do Arquivo Histórico Ultramarino, de Portugal, sobre Pernambuco, trazidas para o Recife pelo historiador José Antônio Gonsalves de Mello (1916-2002).

De acordo com Rômulo Nascimento, antes da chegada de Nassau, havia um princípio de sociabilidade com os holandeses em locais luso-brasileiros, como as freguesias de Itamaracá, Goiana e Igarassu. “Os portugueses que não cooperaram com Matias de Albuquerque, aceitaram o passaporte e permaneceram no Recife”, observa. “E tem a questão dos pequenos lucros, um ponto central do trabalho, e que aparece mais forte na minha tese de doutorado.” Os pequenos lucros, explica o professor, se originam com a autorização de embarcações para navegar nos rios do Nordeste, abrindo espaço para um sistema de comunicação.

“Os holandeses pegaram embarcações pequenas, iatches e chalupas, que eles faziam e utilizavam no Mar do Norte, para comércio de grãos, e botaram nos rios daqui, subindo e descendo o rios Goiana, Capibaribe, Igarassu, Serinhaém, Formoso e Una”, relata. A comunicação fluvial sustentava a guerra, o abastecimento e transporte de víveres e a troca de correspondências entre comandantes e chefes militares. “Esse pequeno comércio era importante para se alimentar um começo de administração e foi muito festejado pelos holandeses antes da vida do Nassau.”

“A historiografia brasileira, depois da independência, para negar Portugal, ressaltou uma história que poderia ter sido. Nós não resolvemos nossos problemas ainda no presente, somos um caso psicanalítico. Nesse sentido, contraditoriamente, comemoramos a expulsão dos holandeses em Guararapes e a figura de Nassau, igualmente um invasor”, observa o pesquisador. Uma história que poderia ter sido melhor, acrescenta Rômulo Nascimento, é uma situação mais conveniente.

“Então é muito conveniente você fazer a história do Brasil holandês ou laudatória ou meramente descritiva, sem entrar nessas discussões que são discussões muito sensíveis. Então, essa coisa da história conveniente, para mim, é muito complicada, porque se é historiador, não tem de ser conveniente”, afirma. A obra, ressalta o autor, não louva a colonização portuguesa. “Mas destaca que eles impunham um modelo administrativo já consolidado antes da invasão holandesa.”

No livro, ele vai mostrando que, onde a historiografia aponta que só houve guerra, tinha administração. Onde a historiografia registra que era tudo maravilhoso, ele problematiza. “A gente ainda tem na cabeça aquela divisão temporal do Brasil holandês, que eu discordo, que é antes, durante e depois de Nassau. Para mim, os dois anos anteriores ao governo de Nassau guardam uma semelhança muito grande de administração mais regular. A Restauração, sim, tem um período mais homogêneo, devido à guerra de enfrentamento.”

Rômulo Nascimento acrescenta ainda que, nos anos iniciais da invasão, a presença holandesa estava ameaçada. “Na administração do primeiro governador nomeado pela Companhia das Índias Ocidentais no Brasil, o coronel Waerdenburch, e do Conselho Político, de 1630 a 1634, ocorreu uma adaptação natural dos corpos dos soldados ao clima tropical, do ponto de vista militar, isso foi importante.” Ao longo do livro, o historiador analisa aspectos do cotidiano da guerra, a manutenção das tropas e as relações entre os habitantes locais e os representantes da companhia.