Hoje completa-se o século exato de quando se reuniu o Congresso Regionalista, na Faculdade de Direito do Recife. É provável que a maioria não saiba disso. Inclusive os que nasceram em Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará, Alagoas, Bahia, Sergipe, Piauí e Maranhão.
Com tantas informações a gritar por atenção no presente, poucos se dispõem a remeter-se ao passado. O interessante é perceber que, apesar de tudo, aquelas ideias estão mais presentes do que, à primeira vista, parece. O passado está presente e, provavelmente, estará ainda no futuro. Não por algum tipo de essencialismo motivador de uma forma de pertencimento retórico. Mas porque termina por ser, culturalmente, inevitável, a despeito de todas as inovações e homogeinizações – espontâneas ou forçadas. Cada lugar tenta ou tende (a) manter o que é “mais” seu.
Sobrevive, ainda que de modo inconsciente, o regionalismo de 1926, o mesmo, tanto ou mais do que o modernismo de 1922. Embora tenha havido muito mais ruído, fúria e piada do grupo reunido no teatro municipal de São Paulo. Para entendê-los melhor, cuidemos de evitar as dicotomias rasas.
Um dos equívocos mais repetidos tem sido opor o modernismo ao regionalismo. Gilberto Freyre, que ganhou um protagonismo justo, por assumir, propor e promover o local, não foi, no entanto, o “chefe” do congresso regionalista. Entretanto, o Livro do Nordeste, que ele organizou e publicou no ano imediatamente anterior ao da realização do Congresso Regionalista, é uma das suas várias antecipações.
No entanto, basta ler as fontes primárias para ver que Freyre não liderou o movimento, foi parte dele. Obviamente, com grandeza intelectual e uma visão mais larga do que a maioria na época. Mas houve mais do que somente a voz do então futuro autor de Casa-grande & senzala. Quem, no entanto, hoje, sabe de Odilon Nestor, Amaury de Medeiros, Moraes Coutinho, Gouveia de Barros, Antonio Ignacio, Luiz Cedro? Provavelmente um ou outro estudioso muito específico. Mas nunca é tarde para aprender.
Algum avanço haveria se ao menos as escolas de Pernambuco pudessem ensinar sobre o Congresso Regionalista, seus autores e seus desdobramentos com a mesma ênfase que o fazem para o modernismo paulista e carioca. Diz-se “escolas de Pernambuco”, mas também pode-se dizer “escolas da Paraíba”, pois o presidente do Congresso Regionalista foi Odilon Nestor, um paraibano. Gilberto Freyre era o secretário-geral do Congresso.
À parte precisões e detalhamentos, Gilberto Freyre foi quem bem resumiu e expandiu o ideário do regionalismo ao modo nortista. Ou, como se diz hoje em dia, nordestino. Assim definido por ele: um movimento regionalista, tradicionalista e, ao seu modo, modernista. Até publicou em 1952 um manifesto que retroage a 1926, e afirma tê-lo lido durante o Congresso. A verdade é que em 1926, exatamente em 1926, o Regionalismo não teve um manifesto lido, foi o próprio manifesto, a manifestação de um orgulho local, intrínseco. De raiz. Que se reporta ao século 16. As “teses” lidas ali são “manifestos” em retalhos.
Se olharmos com mais de atenção para o primeiro modernismo e seus personagens principais notaremos que a frase-slogan de Freyre – movimento regionalista, tradicionalista e, ao seu modo, modernista – pode ser aplicada letra por letra a paulistas e cariocas. O modernismo foi também tradicionalista e, ao seu modo, regionalista. Por força da economia e da política, imbricadas, os paulistas e os cariocas costumam tomar, metonimicamente, a parte pelo todo. Ou seja, consideram ou fingem considerar que o Brasil brasileiro é o de ali – tudo o mais pode ser encarado como uma espécie de regionalismo exótico, por vezes fruto da imaginação ruralista de nordestinos. Embora Jeca Tatu seja uma invenção dos de “lá”.
Por falar em “lá”, os modernistas retomaram a chamada canção do “lá”, ou seja, a canção do exílio de Gonçalves Dias. Para torná-la menos do que a “minha terra” ampla do maranhense, e mais a terrinha particular do umbigo próximo do coração que “só quando cruza a Ipiranga a avenida São João”. Vejam-se as palavras do poeta paulista Oswald de Andrade:
“Não permita Deus que eu morra
Sem que volte pra São Paulo
Sem que veja a Rua 15
E o progresso de São Paulo.”
O título do poema é “Canção de regresso à pátria”. Claro, não de regresso a um bairro, a uma província, um estado, uma cidade, senão à pátria. A verdade, goste-se ou não, é que São Paulo tornou-se tão grande como um país, para o bem e para o mal, do país, e de São Paulo. Mas o que importa é a intenção regionalista disfarçada na ideia totalizante ou totalizadora.
Por trás das paródias há muito o que analisar. Inclusive a pauliceia desvairada de Mario de Andrade, que de São Paulo disse, num poema sintomaticamente intitulado “Inspiração”: “São Paulo! comoção de minha vida...”. “Inspiração” concluída de modo não menos sintomático e rico para essa equação complexa que é pensar as relações entre as culturas locais e alheias: “Galicismo a berrar nos desertos da América!”. Irônico pensar numa época em que o galicismo era o orgulho ou a inquietação, o incômodo, o lustre. Tão próximos e mais triunfadores seriam os anglicismos e norteamericanismos estadunidenses. Muitas vezes, por força de outro “ismo”, o imperial, não falta quem desvirtuando o sentido de civilização, considera correto que uma cultura não só se contraponha, se imponha e sobreponha seus valores a (os de) outras.
Temas como nacionalismo, regionalismo e modernismo têm muitas nuances e matizes. Como para uma biblioteca inteira. Tudo poderia ser resumido em um ismo mais complexo e de todo antropológico: etnocentrismo. Lévi-Strauss (o belga que seria menos culto e relevante se não houvesse conhecido os Bororo do Brasil) situou bem a questão quando sublinhou o quão necessário é o etnocentrismo. Isso contribui para que se fortaleçam as identidades locais, e, além disto, evite-se a homogeneização e se promova a diversidade.
A despeito disso, nunca será demais alertar para os perigos dos nacionalismos. Pensando nos seus extremos como ridículos, sempre cabe lembrar aqueles versos de Carlos Drummond de Andrade (dedicado a Manuel Bandeira):
“O poeta municipal
discute com o poeta estadual
qual deles é capaz de bater o poeta federal.
Enquanto isso o poeta federal
tira ouro do nariz.”
Se gostarmos de pensar e perseverar no “animal humano”, a generosa ideia de literatura mundial – tão presente no alemão Goethe – pode e deve ser adotada. Antípoda dos delírios nacionalistas. O orgulho local, pura e simplesmente, deve servir de resistência não só às tentativas de dominação. Pode ser um alerta para lembrar que as culturas que se iludem de inteiramente singulares são frutos da mistura de outras culturas; plurais, portanto.
Talvez devêssemos acrescentar que uma das melhores formas de valorizar a igualdade é respeitar a diferença. Ariano Suassuna e Chico Science têm, nas suas distinções, várias semelhanças. Ambos são “filhos” e “netos” do Regionalismo de 1926, do Modernismo de 1922, e de outros ismos e outras datas. Além das suas coisas, próprias, únicas, é claro.
Saudável é que cada um saiba e assuma quem é e de onde vem, e defenda o seu sotaque, o seu acento. Algo que tem um exemplo eloquente na canção “Cuba Isla Bella”. Sendo da autoria de diversos compositores, foi difundida pelo grupo de hip hop Orishas. Facilitamos a letra já traduzindo-a (exceto um verso, mantido tal como está, sem sacrificar-lhe a sutileza e o trocadilho, e uma saborosa expressão caribenha) e, em seguida, informamos o link onde o leitor pode aceder à canção:
“Terra, aqui nasceu meu canto, minha bandeira.
Sorrisos que passam pela porta da varanda
Nessa viagem que hoje me traz de volta.
Longe, não sabes quanta falta sinto de ti,
O ruído de meu povo e a carícia desse mar.
Quando não estou contigo, eu te invento.
Trago oxidado o coração,
Me faz falta corda,
Minha alta necessita transfusão,
Sangue de minha terra.
Regresso ao berço que me viu nascer,
Regresso a este bairro que me viu correr.
O que fui, o que sou e serei, por minha ilha bela.
Voltei ao refúgio que acalma a dor
E volto à saudade do primeiro amor.
O que fui, o que sou e serei, por minha ilha bela.
E me surpreendeu a necessidade de expandir a alma.
Fui aconselhado, pela razão de mamãe e de papai:
O Caribe convidou você, família, tudo respeitado.
Se isso chegou sem pretexto, songo sorongo, orishas do mar.
Lento.
As marcas vão contando-me que o tempo
É como um passageiro que sobe ao seu vagão
E anuncia que a vida é um momento.
Dizem,
Os velhos da esquina sempre dizem:
Não importa o que tenhas, se quando baixas na estação
Um regressa sempre às suas raízes.
Eu nunca perderei minha identidade,
No seguro tenho um presente de onde venho,
Talvez tu possas me comprender,
Porque, sendo sincero, meu tesouro está nas raízes
Que fluem sob minha pele,
São as que marcam sua textura,
E essas mesmas me fazem diferente até à sepultura.
Por isso eu, hoje venho, para
Deixar-te aqui o movimento lento de minha cintura.
Hoje eu te convido a caminhar os solares da Havana,
Para que tu mesmo vejas.
Cada qual nasce com o que é e para que está destinado,
El mío despacito, y de medio lado, de me dio lado.
Tu vás com calma e não te/me agites,
Que a noite é longa, e la rumba se ha formado.”