Memória e pertencimento em O outono dos ipês-rosas

O termo alemão Bildung é imprescindível para compreender O outono dos ipês-rosas (Cepe Editora), novo romance de Luis S. Krausz. Em uma nota de rodapé, na página 409, o narrador nos diz que a “identificação dos judeus de língua alemã com a Europa de língua alemã baseava-se no pressuposto de que a pessoa cria sua própria cultura, e de que a cultura cria a própria pessoa”.

Assim, a “ideia oitocentista de Bildung, de uma formação humana abrangente, individual e autônoma, pressupõe a autodeterminação (...). A Bildung é um caminho que se baseia na liberdade e que deve conduzir à liberdade”. O protagonista do livro é um judeu paulistano chamado Martin Stieglitz, “cidadão brasileiro, filho de imigrantes”, morador de uma casa no Jardim Europa (herança dos pais) e alguém que “aprecia muito a memória e detesta o esquecimento como a morte”.

Stieglitz é, também, um Spaziegänger, um “caminhante”, pois aprecia flanar pela cidade e observar o que permanece (pouco) e o que foi alterado (muito). Educado na Suíça, frequenta concertos na Sala São Paulo, adora Vivaldi e despreza quase todos os compositores posteriores a Mahler. Veste-se bem, mantém um escritório na Faria Lima (no mesmo prédio do consulado alemão), onde cuida de seus investimentos e procura preservar o que herdou. Stieglitz sustenta uma ligação fortíssima com certa Europa que “existiu, segundo dizem, antes que a Europa tivesse deixado de ser a Europa”: a Europa dos Habsburgo.

O narrador nos informa que ele “herdou de seus antepassados um sonho: pertencer ao mundo alemão”. Tal pertencimento está ligado à Bildung, pois, na época do Império Habsburgo, “parecia que ‘pertencer ao mundo alemão’ era algo que estava ao alcance de quem quisesse fazê-lo já que, segundo se acreditava, ser austríaco não era entendido como uma condição de nascimento, de origem biológica”, mas cultural: conhecer “a língua alemã e (...) a literatura alemã significava ‘pertencer ao mundo alemão’”. O Império Habsburgo ruiu. Com a ascensão do nazismo, milhões de judeus foram exterminados e outros tantos se exilaram – uma diáspora dentro da diáspora.

Esses temas vêm sendo abordados por Krausz em toda a sua carreira como ficcionista. Mas, enquanto os excelentes Desterro, Deserto, Bazar Paraná, Outro lugar e Opulência abraçam uma forma narrativa que alguns chamam (hediondamente) de “autoficção”, mas que talvez fosse melhor chamar de “heteroficção”, pois centrada na miríade de experiências alheias marcadas pelo exílio (o narrador quase sempre olha para fora, não para dentro), O outono dos ipês-rosas coloca mais dois filtros entre as vivências abordadas e o leitor: o narrador em terceira pessoa e Stieglitz, que, obviamente, não é Krausz (o qual, aliás, é citado em uma nota na página 78, incrementando o distanciamento).

O romance é dividido em duas partes: “A cidade invisível” e “A cidade visível”. Na primeira, acompanhamos as deambulações de Stieglitz sobretudo pelo Jardim Europa. Na segunda, Stieglitz vai a um jantar no apartamento de uma riquíssima família de conhecidos, os Fuchs; lá, reencontra pessoas com quem conviveu e, a certa altura (diante de um samovar “que brilha como um espelho”), relembra outro evento social – um almoço ocorrido anos antes no sítio (em São Roque) de outra família, os Stern. Assim, seja nesses encontros, seja em seus passeios, a maior parte do que acontece na narrativa passa pelas lembranças de Stieglitz, são recordações ligadas às pessoas que conhece ou conheceu e às circunstâncias em que elas (ou seus antepassados) aportaram no Brasil.

No decorrer do romance, Krausz aborda várias diásporas, muitas delas interligadas, como, por exemplo, dos judeus da Península Ibérica que, expulsos em fins do século XV, foram parar na Polônia, de onde seriam expulsos no século XIX pelo czar Alexandre III. E, mesmo em se tratando de gentios, o trânsito (forçado ou não) de indivíduos é reafirmado a todo instante (vide a sueca naturalizada brasileira Maud Tork-Fisk), bem como os conflitos que surgem entre pessoas de procedências distintas (como no caso da filha do cônsul britânico e o “oriental”) ou mesmo entre aqueles que, advindos de ambientes culturais relativamente comuns, têm outros motivos para se estranhar.

Há, por exemplo, o contraste entre as castas financeiras de Stieglitz e dos Fuchs. A fortuna do primeiro é relativamente grande, mas não obscena, ao passo que os Fuchs vivem em um apartamento que vale dezenas de milhões de reais (mas bebem um uísque medíocre, Pinwinnie, que só é vendido a peso de ouro para incautos e otários). E, em se tratando do convidado e dos anfitriões, há também um contraste cultural, sublinhado na discussão literária entre Stieglitz e Martin Fuchs. “Um romance pode mostrar ao leitor outros mundos”, diz ele ao ricaço, “realidades diferentes das que ele conhece, que são capazes de colocar o mundo tal e qual a pessoa o vê em nova perspectiva. Nós não somos capazes de enxergar o mundo como ele é. Fazemos isso de acordo com o que somos. Ao retratar um mundo, o escritor mostra, também, a si mesmo: uma pessoa diferente do leitor. E, com isso, o leitor pode se perguntar se as coisas realmente têm que ser como são, se são o que precisam ser e se são o que parecem ser”.

Stieglitz é, portanto (e de diversas formas), membro de uma espécie em extinção. Seu apego à palavra, à música e à memória traz em si a consciência de que nele também sobrevivem “pedacinhos da sua terra” ancestral, aquela Europa que desapareceu. Mas também há o pressentimento de que muitas dessas coisas morrerão com ele, de uma forma ou de outra. Não por acaso, o outono é a estação favorita de Stieglitz: “No outono paira no ar a sensação de que algo está sumindo”. Mas, enquanto essas coisas não desaparecem, o melhor que podemos fazer é frequentá-las e fixá-las de algum modo. A literatura de Luis. S. Krausz parece empenhada em um esforço dessa natureza.

André de Leones é autor do romance Vento de queimada (Record), entre outros.