A poesia das coisas e as coisas da poesia

Breve reflexão sobre a obra reunida de Sérgio de Castro Pinto

A publicação do conjunto da obra de um poeta promove a oportunidade de revisitar sua trajetória e entender melhor o que o torna particular e único. Aqui nos referimos a Breves dias sem freio, de Sérgio de Castro Pinto. Integra aquela família do le parti pris des choses (para usar um título de Ponge, que é homenageado, aliás, num dos versos do seu livro). Também é dos que sabem donner à voir – para relembrar o título de outro francês: Paul Éluard.

No entanto, uma afirmação assim errará se for categórica ou superficial. Com alguma pressa poderíamos informar que, há exatos cem anos, o alemão Kurt Opper cunhou o termo Dinggedicht, que significa ‘poema das coisas’, e a ele associou um tipo de “descrição impessoal, épico-objetiva de um ser”. Seria simplificação enxergar uma impessoalidade e uma épico-objetividade em Sérgio de Castro Pinto. Nele subjetividade e visão pessoal adensam mais as coisas, e não o contrário. 

Também seriam insuficientes o antilirismo de um João Cabral de Melo Neto e o antipoeticismo de um Nicanor Parra para caracterizar uma poíesis tão cotidiana e própria. É verdade que os métodos e recursos de SCP e os desses e de outros autores convergem e, às vezes, com tanta nitidez, que parecem fazer parte da ‘mesma maçonaria’. Mas há muito mais do que isso nele.

Por um processo retrospectivo e inverso, dá-se a ver o percurso de Sérgio de Castro Pinto em Breves dias sem freio. Do livro mais recente – Brando fogo das palavras, que é de 2024, até chegarmos aos Gestos lúcidos, de 1967. Portanto, mais de meio século de composições reunidas em pouco mais de trezentas páginas. Trezentas páginas em que o humanismo crítico dá a nota, não a coisificação fria de pessoas e acontecimentos. Senão, vejamos.

Se o humor pode ser agregado como característica do Dinggedicht, há abundância efetiva disso nos poemas de SCP. Humor e cotidiano. Cotidiano e retratos humanos. Retratos humanos e simpatia pelos animais.

Outro aspecto flagrante nesses livros é o gosto pela desmistificação e desnudamento da realidade, até dos seus elementos mais comezinhos. Ou seja, o extremo oposto da solenidade. Como se todos os poemas fossem de circunstância. Algo essencial e definidor para a construção de sua linguagem são seus cortes, seus planos, seus ritmos.

Se, por analogia, quiséssemos aproximá-los da estética de certo tipo de Cinema, seria o dos primórdios. Se num paralelo com a Música, a dissonância. Em tudo, porém, está-se na estase que põe em marcha paradoxal uma purificação impura. Em quebras que apontam para síncopes, elipses. Versos curtos, cortados, cortantes. Disse Octavio paz, em Signos em rotação:

“O ritmo não só é o elemento mais antigo c permanente da linguagem, como ainda não é difícil que seja anterior a própria fala. Em certo sentido pode-se dizer que a linguagem nasce do ritmo ou, pelo menos, que todo ritmo implica ou prefigura uma linguagem. Assim, todas as expressões verbais são ritmo, sem exclusão das formas mais abstratas ou didáticas da prosa. Como distinguir, então, prosa e poema? Deste modo: o ritmo se dá espontaneamente em toda forma verbal, mas só no poema se manifesta plenamente. Sem ritmo, não há poema; só com o mesmo, não há prosa. O ritmo e condição do poema, enquanto que e inessencial para a prosa.”

Talvez haja um reducionismo demasiado esquemático na proposição do mexicano. Basta sabermos um pouco sobre a história da literatura árabe e persa para deixarmos de considerar a poesia e a prosa compartimentos estanques ou de todo distintos. Não nos esqueçamos do maqama e do saj'.

Não precisamos, no entanto, estender muito o assunto, para percebermos o parentesco da poesia de SCP não exatamente com a prosa, mas com a fala. Com poucas exceções, os seus poemas são curtos, incisivos, antirretóricos. Não tem importância a métrica. Embora na escansão dos seus versos aproxime-se das redondilhas populares e não de decassilábicos e alexandrinos cerimoniosos. Seu mundo não é somente o do “tempo presente, os homens presentes,/ a vida presente”, mas o dos seus aspectos mais singelos e prosaicos.

Ao usarmos o adjetivo ‘prosaico’ nos convém ir um pouco mais além, e ligarmos a poesia de SCP à prosa. Menos a prosa como oposta à poesia, e mais a prosa que a contém. Quase naquela acepção medieval tão presente em Gonzalo de Berceo, e do seu verso “Quiero fer una prosa”. Berceo, o poeta espanhol do século XII/XIII escolhido como epígrafe do poema O rio, de João Cabral de Melo Neto. Mas, antes do pernambucano, o português Fernando Pessoa já havia dito:

“Por mim, escrevo a prosa dos meus versos

E fico contente,

Porque sei que compreendo a Natureza por fora;

E não a compreendo por dentro

Porque a Natureza não tem dentro;

Senão não era a Natureza.”

Cabe deixar claro que a prosa dos versos de Pessoa – aí travestido no heterônimo Alberto Caeiro – tem uma origem clara: o verso quase bíblico de Walt Whitman. A filiação da ‘prosa’ de SCP está muito mais para gente como Oswald de Andrade e Cummings. Não que haja uma relação direta com esses autores – citados apenas pelas características externas.

Quanto à exteriorização máxima de Caeiro, o que se encontra em SCP termina por ser o resultado de um mergulho nas entranhas do que pretende exteriorizar, não de sua evitação. Um exemplo claro: a obra-prima “Camões/Lampião”. Ambos os personagens estão reduzidos à essência/existência de um olho e de uma falta, e tal redução serve de método de expansão. A tal ponto que expressa todo o seu ser e marcas internas e externas, modos de ação, pensamento, sentimento etc. Ademais, não nos esqueçamos de que quase a metade dos poucos poemas de Gestos lúcidos ocupa-se de “analisar” Lampião. E a outra metade descreve e desnuda, metodicamente, uma usina, uma zebra, um boi e suas frações, um paletó e, por fim, um pijama, definido como “rio-têxtil”:

o pijama

(textura sem dono)

sente frio

lavado o sono

nas águas do rio

 

o rio

(ato de preguiça)

viaja ao sol:

visões de camas.

gosto de lençol

 

Estamos em pleno território da poesia crítica, e do discurso em estado crítico. Da poesia composta como prosa – no sentido de Berceo, ou seja, como sinônimo de texto e de fala que se articula e grafa. Onde as palavras são sempre coisas; onde as coisas, às vezes, são palavras.

Poesia crítica significa poesia do pensamento. De um pensamento sensível – no sentido literal, não metafísico do termo. Talvez aí capturemos a escolha do vocábulo “freio” para constar no título dessa pequena bíblia de SCP – bíblia com o sentido literal de coleção de livros. Freio era, originalmente, o frenum, que se punha nos dentes dos cavalos. A raiz é a indo-europeia ghrendh, que significa algo como ranger. Gesto ou reação dos cavalos, se lhe são postos freios.

No título Breves dias sem freio o ‘corcel’ implícito é o tempo. Não o dos trabalhos e os dias, de Hesíodo. Sequer os dias e as noites, de Jarry.  Simplesmente os dias curtos, que correm, infrenes. O interessante é que breve – provindo do latim – não se separa também do grego: brakhion, isto é, braço.

Deste modo, com a ênfase na brevidade, em todos os sentidos, como autodefinição absoluta, essa poesia revela-se como expressão da medida. Física. Corporal. Tanto daquela ‘paixão medida’, que resultou num título em Carlos Drummond de Andrade, quanto da medida humana, que, segundo Cabral, não é a morte, mas a vida. Séculos antes dele, tem-se a famosa frase atribuída a Protágoras: o homem é a medida de todas as coisas. De todas as coisas medidas, acrescentemos. Uma boa expressão de coisas assim em poesia é o breviário às avessas de Sérgio de Castro Pinto. Sua antiliturgia, na busca obsessiva do simples e do essencial, especialmente nas coisas, pessoas e animais, sem freio, e em breves dias.