Drummond revisitado

Reunião de 55 poemas do escritor mineiro, o livro A rosa do povo tem novo estudo literário

“e para além dos brasis, nas regiões inventadas, países a que aspiramos, fantásticos, mas certos, inelutáveis, terra de João invencível, a rosa do povo aberta…

A rosa do povo despetala-se,
ou ainda conserva o pudor da alva?
É um anúncio, um chamado, uma esperança embora
(frágil, pranto infantil no berço?
Talvez apenas um ai de seresta, quem sabe.
Mas há um ouvido mais fino que escuta, um peito de artista que incha,
e uma rosa se abre, um segredo comunica-se, o poeta anunciou,
o poeta, nas trevas, anunciou”.
(Mário de Andrade desce aos infernos)

No início de 2025, enquanto o país se preparava para celebrar o octogésimo aniversário de A rosa do povo, surgiu em Pernambuco um novo olhar crítico sobre essa obra marcante do poeta. O livro, bastante representativo da consolidação de nosso modernismo literário, compõe-se de 55 poemas, escritos entre 1943 e 1945. É considerado um momento crucial na evolução da poesia de Drummond, então situando-se no centro dos acontecimentos históricos de seu tempo, marcado pelas utopias e a opressão humana. Ao mesmo tempo, ele desdobra o seu engajamento social em respostas simbólicas, visando à reconstrução do mundo e à superação possível de dilemas interiores.

Em O pensamento simbólico em Drummond, Eduardo Bezerra Cavalcanti concilia a abordagem simbólica e a metafísica para reinterpretar a obra do poeta mineiro. De um lado, ele reconstitui núcleos simbólicos marcantes da obra. Paralelamente, analisa situações de impasse e conflito do indivíduo diante da dialética existencial e da conjuntura de seu tempo.

A abordagem é multidisciplinar. Apoiada em psicologia e filosofia, revela o alcance mais subjetivo, imaginário e existencial da lírica drummondiana, no período de maior engajamento social e histórico do poeta. À luz de referências da cultura moderna, o estudo propõe uma reflexão sobre a linguagem de Drummond: seu mistério, a dimensão metalinguística, a teia de imagens arquetípicas e o teor poético-metafísico dos versos. Tudo como um meio de elaboração do sofrimento, da memória e da condição humana.

O pesquisador iniciou seu estudo literário em meados da década de 1990, chegando o livro ao público somente três décadas depois. Maturado no ambiente universitário da PUC-RJ, que marcou sua formação intelectual, o ensaio ainda reflete a influência exercida pelo poeta sobre Eduardo nos últimos decênios da atuação de Drummond também como jornalista.

Em parecer escrito em 1998, Affonso Romano de Sant’Anna assinala que o autor amplia a visão da obra do poeta, afirmando-se como “um ensaísta maduro que domina o assunto que escolheu para a sua pesquisa”.

A edição é primorosa. Em sua entrevista/depoimento, Eduardo evidencia a força de sua minuciosa investigação.

Como se estabelece o embasamento teórico do livro?

Há uma dupla discussão teórica que se desenvolve ao longo do texto, como duas linhas de abordagem que correm paralelas com suas respectivas linguagens, alcances e formulações. Por vezes, as duas correntes (a filosófica e a psicológica) se tocam e se reforçam mutuamente. Sobretudo o capítulo 3, revive a questão do logos e o sentido originário da metafísica, tal se situa nas formulações “primitivas” na origem do pensamento. Por exemplo, como eles entendiam a relação entre ser e pensar, e outras formulações que ficaram lá trás e de que a filosofia foi se afastando, perdendo de vista ao longo dos séculos. Nesse âmbito, e com um recorte próprio de alguns textos filosóficos, o trabalho atual retoma a abordagem existenciária de Martin Heidegger, que fora adotada de forma pioneira por Affonso Romano de Sant’Anna, já na segunda metade dos anos de 1960, em sua consistente tese sobre a poesia de Drummond. Vem a ser a partir e através dessa tese do crítico mineiro e de sua efetiva retomada, que se dá a leitura filosófica no trabalho realizado sobre A rosa do povo. Por sua vez, o título O pensamento simbólico em Drummond se justifica pela leitura que o livro procura elaborar da linguagem simbólica na obra em foco de Carlos Drummond. Pouco antes de sua publicação, no final de 1945, morre Mário de Andrade, “a rosa do povo despetala-se”, motivo do penúltimo poema de A rosa do povo, referindo-se Drummond a seu amigo e correspondente. Entram em cena, então, com seus métodos e subsídios próprios, as visões de Carl G. Jung e Gastón Bachelard para fundamentar e ampliar a leitura do imaginário dentro da linguagem poética, tornada simbólica no referido livro de Drummond.

O que mais caracteriza o pensamento simbólico segundo a leitura proposta de A rosa do povo?

O mundo das imagens é prolífero em Drummond; pode-se localizar enumerações, imagens continuadas e metamorfoses em seus versos. Imagens de fluxo e destruição acompanham a descoberta, consciência e conquista do tempo conforme foi bem- analisado por Affonso Romano de Sant’Anna, que assinala a recorrência de imagens marinhas e aquáticas, como mar, rio, peixe, cascata, chuva, oceano, articuladas a verbos como roer, dissolver, esvair, fluir e outros. Olhando o imaginário do poeta, no seio de seu pensamento poético, que é por essência dialético e relativista, supõe-se que, em contrapartida, uma das respostas do poeta ao problema da destruição e fragmentação do indivíduo coincide, dentro de sua lírica, com imagens de totalidade e unidade, uma unidade psíquica, tal bem a expressam as configurações circulares. Abriria um parêntese para frisar que o tema da destruição nessa obra poética percorre os níveis individual, social, histórico e metafísico. Por sua vez, o conjunto de imagens, que foram consideradas simbólicas, como símbolos naturais e instintivos exprimem, em Drummond, a totalidade que cada vida humana a seu modo realiza. Trata-se de um processo de diferenciação e fortalecimento gradual da personalidade a que Carl Jung chamou de processo de individuação. A pesquisa percorre algumas obras de Jung em busca de descrever o processo de individuação, assim como para compreender a formação de imagens como analogias de complexos psíquicos inconscientes que se transformam e chegam à consciência sob a forma de símbolos. Iniciada a elaboração do texto, cedo foi percebido que era preciso ir fundo nessa pesquisa e assumir a leitura teórica que já se impunha ao lado dos comentários que iam sendo tecidos diretos a partir dos poemas.

Em que pontos o enfoque filosófico e o enfoque psicológico podem se encontrar em uma só interpretação do livro de Drummond?

Aprendemos com os mestres antigos que a poesia, o logos, o ser e o pensar encerram uma “unidade de reunião”, quer dizer, a poesia enquanto logos religa e reintegra múltiplos conteúdos que tendem a se contrapor. Isto descreve Heidegger detalhadamente em suas conferências tardias, reunidas em Introdução à metafísica. Por outro lado, a individuação descrita por Jung consiste na integração consciente-inconsciente, que corresponde à gradual e efetiva expansão da consciência. Não por acaso, o livro de Drummond tido como o mais engajado, amplamente falando, é aquele livro que denuncia e cristaliza a expansão do poeta ao social e ao metafísico. A rosa do povo, portanto, como livro transcendente, e onde o poeta cresce em sua lírica, na subjetivação da temática, realizando um inventário de si mesmo e de suas origens no tempo, mergulhando no imaginário, acolhendo imagens instintivas, fantasias, símbolos enfim arquetípicos. Por isso, foram enfatizadas as definições junguianas de arquétipo, inconsciente coletivo, individuação e outros tópicos de sua teoria e experiência psicanalíticas. São noções importantes que todos devem assimilar para melhor compreenderem a extensão da psique humana. Também nessa perspectiva, o trabalho talvez possa despertar no leitor caminhos para futuras pesquisas, mais completas e aperfeiçoadas, ainda sobre a poesia de Drummond.