Quem é Cristina Peri Rossi? Apesar de uruguaia de nascimento, vive em Barcelona desde 1972, quando se exilou de seu país natal por conta da ditadura militar; apesar de ser uma escritora ligada ao boom latino-americano (o célebre movimento literário dos anos 1960 e 1970), seus livros não circulam tanto quanto aqueles de Gabriel García Márquez, Mario Vargas Llosa ou Carlos Fuentes; apesar de reconhecida sobretudo por sua poesia, também exercitou o romance, o jornalismo e o ensaísmo; apesar de ser uma das escritoras mais importantes do mundo hispânico nas últimas décadas, espalhou sua obra e sua influência nas direções mais diversas: foi traduzida em mais de 20 línguas, tendo ela própria exercitado a tradução – traduziu Clarice Lispector e Graciliano Ramos ao espanhol, por exemplo.
A cena literária brasileira está, agora, preparada para conhecer melhor Cristina Peri Rossi, com o lançamento do livro Nossa vingança é o amor: antologia poética (1971-2024), uma edição bilíngue da editora 34, com seleção e tradução de Ayelén Medail e Cide Piquet. A antologia é abrangente, apresentando 150 poemas recolhidos dos 18 livros de poesia de Peri Rossi, desde o primeiro, Evoé, de 1971 (famoso por sua temática lésbica), até os mais recentes, como Playstation (2009) e As replicantes (2016). A edição conta ainda com o discurso que Cristina Peri Rossi fez quando recebeu o Prêmio Cervantes, o mais importante do mundo hispânico, em 2021. A antologia poética se une ao romance A insubmissa, originalmente lançado em 2020, e agora também disponível no Brasil. Lançado pela editora Bazar do Tempo, com tradução e posfácio de Anita Rivera Guerra, A insubmissa é uma narrativa autobiográfica na qual Peri Rossi revisita sua infância e juventude, buscando traçar as origens daquilo que a sociedade qualifica como suas estranhezas e idiossincrasias.
Filha de uma professora, Peri Rossi começou a escrever cedo; desde criança, amava os animais, ativismo que carrega por toda a vida; o exílio marcou não apenas sua vida, mas especialmente sua poesia, feita de imagens de deslocamento e ruptura. Um dos eixos sustentadores de sua poesia é o erotismo, especificamente aquele que diz respeito ao desejo, afeto e amor entre mulheres – essa transgressão inicial é determinante para o rumo de sua obra como um todo. Em paralelo à exaltação do desejo feminino, Peri Rossi também coloca essa questão diante de um horizonte mais amplo: o elogio da liberdade, tema que é alimentado pelo fato de sua obra ter sido proibida no Uruguai no início da ditadura militar. Exílio, sexualidade e liberdade, portanto, são elementos mesclados por Peri Rossi em sua poesia, formando uma espécie de acorde existencial que reverbera ao longo de toda sua produção – não apenas poética, mas também romanesca e ensaística.
“Uma língua é música”, escreve Peri Rossi em um ensaio dedicado à tradução publicado em 2018. Ela própria aprofunda a questão em um poema do livro Linguística geral, de 1979: “É bom lembrar – ante tanto esquecimento – / que a poesia nos separa das coisas / pela capacidade que tem a palavra / de ser música e evocação, / o que permite amar a palavra infeliz / e não o estado de infortúnio”. Nesse mesmo poema – colocando a tradução na prática da poesia –, Peri Rossi cita nominalmente João Cabral de Melo Neto, afirmando que foi ele quem ensinou que “a poesia nos separa das coisas”: “Tudo isto não precisaria ser dito outra vez / se o leitor recordasse um poema de João Cabral de Melo Neto: / flor é a palavra / flor, verso inscrito / no verso, / que li há anos, / esqueci depois / e hoje voltei a encontrar, / como você, leitor / leitora, / faz agora”. Essa música da língua, para Peri Rossi, é polifônica e heterogênea, composta pelos mais variados elementos – basta reparar nas epígrafes que ela escolhe para seus poemas: aparecem personagens como Jacques Lacan, Raymond Carver, Wallace Stevens, Safo, Virginia Woolf, entre outros.
De um livro de 1994, Outra vez Eros, vem um poema muito significativo, “Genealogia”: “Doces antepassadas minhas / afogadas no mar / ou suicidadas em jardins imaginários / trancadas em castelos de muros lilás / e arrogantes”. Peri Rossi elabora poeticamente seu pertencimento a uma linha de artistas do passado, “exemplares raros” expostos no “herbário” da tradição. Poucos anos depois, em 1997, no livro Imobilidade dos barcos, Peri Rossi retorna sutilmente à paisagem literária brasileira, agora resgatando um tema de Drummond, no poema “Segunda vez”: “No ato ingênuo / de tropeçar duas vezes / na mesma pedra / alguns percebem / teimosia / Eu me limito a comprovar / a persistência das pedras / o fato insólito / de que permaneçam no mesmo lugar / depois de ferir alguém”. São duas estratégias diversas, mas complementares, de definição da própria voz poética: de um lado, estabelecer a sua genealogia, a lista das antepassadas; de outro, manipular os temas e as imagens alheias, transformando-as pouco a pouco em algo de próprio (as pedras, a teimosia).
Esse jogo de revelação das origens ganha ressonância especial com o uso da figura da mãe, recorrente em todas as fases da trajetória de Peri Rossi. No último poema da antologia, por exemplo, “Simbiose”, ela escreve: “Sou minha própria mãe. / Eu pari a mim mesma / e me iluminei”. Pouco antes, em “Sua morte não será esquecida” (do livro A roda da vida, de 2023), registra: “Telefono para minha mãe / tem noventa e nove anos / e muita vontade de viver / está relativamente sã e contente / eu tenho trinta anos a menos que ela / de idade / e de vontade de viver”. Um salto de cinquenta anos leva até o poema “Carta de mamãe”, do início dos anos 1970: “Carta de mamãe: / ‘E se todos forem embora, minha filha, / o que vamos fazer, nós que ficamos?’”. Um novo salto, agora de trinta anos, leva até o livro de 2004, Estratégias do desejo, com o conciso e poderoso poema “Querida mamãe”: “Quando você vai morrer / para que eu possa me suicidar / sem sentimento de culpa?”.
A ideia da mãe, para Peri Rossi, é uma espécie de máquina do tempo portátil, carregada dentro dos poemas. Evocar a mãe é, simultaneamente, evocar a escritora quando criança e a escritora do futuro, aquela que ainda não existe de fato, mas que está – de certa forma – antecipada pela vida da própria mãe. Peri Rossi está permanentemente interessada nesses paradoxos temporais, na possibilidade de ler no passado traços da vida futura. É por isso que coloca em um mesmo livro da velhice – A roda da vida, 2023 – dois poemas aparentemente antitéticos: “Elogio da velhice” e “Preocupações infantis”. No primeiro, ela anota: “Posso não trabalhar / não me levantar da cama / e não abrir o computador nem o celular / porque já não trabalho”; no segundo: “o mundo continua tão confuso / e desordenado como sempre / mas não tenho a desculpa de ser criança / nem tampouco seu assombro”. Entre um extremo e outro da vida, Peri Rossi configura o trabalho da sua poesia: descobrir conexões entre coisas que, aparentemente, não se comunicam.