Itabirando com Drummond

Além das riquezas naturais, o centro histórico e um memorial convidam a uma visita num roteiro turístico incomum em Itabira, onde nasceu o mais famoso poeta mineiro

“Bem-vindos a Itabira, terra do poeta Carlos Drummond de Andrade”, é o que o pórtico de entrada anuncia. A cidade interiorana, a duas horas da capital Belo Horizonte, está bem presente na lírica drummondiana. O poeta, cronista, contista, tradutor e jornalista, considerado um dos mais influentes autores do século XX no Brasil, cantou a pedra da tragédia itabirana provocada pela exploração mineral.

Da casa onde passou a infância, o itabirano avistava o Pico do Cauê - uma serra de hematita com cerca de 1.600 metros de altura - que foi escavado pela mineração, até não mais existir. Em seu lugar restou uma gigantesca cratera. E uma montanha de rejeitos de mineração, acompanhada do mau cheiro proveniente do produto químico utilizado para lavar o minério brilhante. Para alguns autores, Itabira significa "pedra que brilha" ou "pedra brilhante". Para outros, como Teodoro Sampaio, no livro O tupi na geografia nacional, quer dizer "pedra levantada ou empinada".

“Esta manhã acordo e
não a encontro.
Britada em bilhões de lascas
deslizando em correia transportadora
entupindo 150 vagões

no trem-monstro de 5 locomotivas
— o trem maior do mundo, tomem nota —
foge minha serra, vai
deixando no meu corpo e na paisagem
mísero pó de ferro, e este não passa”

Trecho do poema “A montanha pulverizada” (1973)

O turista que sobe as ladeiras itabiranas para os pontos mais altos da cidade logo percebe: atrás dos altos morros cobertos pelo majestoso verde em mix de Mata Atlântica e Cerrado, dos parques que dão uma pausa na urbanização interiorana e das volumosas cachoeiras, percebe-se a calvície dos morros, achatados pela exploração do minério de ferro. Itabira, que era província, fez-se cidade no início do século XX. Primeiro pelas mãos dos ingleses, norte-americanos, franceses e depois, a partir de 1942, pela Companhia Vale do Rio Doce. Naquele ano o Brasil entrava na Segunda Guerra Mundial, e o minério de ferro se fazia necessário para produzir material bélico.

Itabira não faz parte dos roteiros mais comuns dos turistas. Mas já foi o centro do mundo. As tragédias recentes em Brumadinho e Mariana comprovam os efeitos calamitosos exploração de minério. “Poucas vezes a mitologia pessoal mais íntima de um poeta foi submetida a um confronto tão direto com o real da história econômica”, escreveu José Miguel Wisnik no livro Maquinação do mundo: Drummond e a mineração (2018). A obra faz menção àquele que é considerado uma das obras-primas drummondianas, “A Máquina do Mundo”, do livro Claro Enigma (1951):

“E como eu palmilhasse vagamente
uma estrada de Minas, pedregosa,
e no fecho da tarde um sino rouco
se misturasse ao som de meus sapatos
que era pausado e seco; e aves pairassem
no céu de chumbo, e suas formas pretas
lentamente se fossem diluindo
na escuridão maior, vinda dos montes
e de meu próprio ser desenganado,
a máquina do mundo se entreabriu
para quem de a romper já se esquivava
e só de o ter pensado se carpia (...)
(...) A treva mais estrita já pousara
sobre a estrada de Minas, pedregosa,
e a máquina do mundo, repelida,
se foi miudamente recompondo,
enquanto eu, avaliando o que perdera,
seguia vagaroso, de mãos pensas.”


Wisnik conta, em seu livro, que esteve em Itabira em certa ocasião. “O impacto do lugar faz ler e reler a poesia de Drummond de uma perspectiva diferente daquela a que estamos acostumados. Fui à cidade (em 2014) portando o universo itabirano que encontro nos poemas, e me deparei com a conformação trágica desse lugar corroído, cifra esquisita da negatividade da própria obra, realimentando o fermento interno ao texto, que o leva a crescer sempre mais”.

“Itabira é o ponto de partida da obra de Drummond, e isso não apenas no sentido mais literal, por ser sua cidade natal, mas porque a experiência ali lhe fornece alguns dos motivos centrais e das imagens obsessivas de sua obra”, afirma o poeta, ensaísta e crítico literário Eduardo Sterzi. O mais famoso poema sobre Itabira, “Confidência do itabirano”, está no livro Sentimento do mundo (1940), e narra a origem oligárquica de Drummond, filho de fazendeiros:

“Alguns anos vivi em Itabira.
Principalmente nasci em Itabira.
Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro.
Noventa por cento de ferro nas calçadas.
Oitenta por cento de ferro nas almas.
E esse alheamento do que na vida é porosidade e comunicação.

A vontade de amar, que me paralisa o trabalho,
vem de Itabira, de suas noites brancas, sem mulheres e sem horizontes.
E o hábito de sofrer, que tanto me diverte,
é doce herança itabirana.

De Itabira trouxe prendas diversas que ora te ofereço:
esta pedra de ferro, futuro aço do Brasil;
este São Benedito do velho santeiro Alfredo Duval;
este couro de anta, estendido no sofá da sala de visitas;
este orgulho, esta cabeça baixa…

Tive ouro, tive gado, tive fazendas.
Hoje sou funcionário público.
Itabira é apenas uma fotografia na parede.
Mas como dói!”

“’Confidência do itabirano’ é algo como uma exposição de um repertório que se espraia por sua obra do início ao fim, misturado com muita coisa mais, como a capacidade de integrar Itabira e o mundo num só movimento de olhar e numa mesma teia de palavras”, analisa Sterzi.

A visão de mundo do poeta, segundo Sterzi, “depende do contraste entre um mundo que se foi e um outro mundo que subitamente é – sendo esse contraste, em alguma medida, a própria modernidade, não apenas um cenário de aceleração do tempo, mas aquele da presença simultânea de experiências contraditórias do tempo e de tudo mais”.

O contraste em Drummond surge como pausa, como interrupção “No meio do caminho”, poema que caiu na boca do povo, escrito em 1928. Nesse meio do caminho de um filho bem nascido, uma vontade de ser do povo. Era poeta, mas também jornalista e funcionário público. No meio desse caminho não havia uma pedra, porque o verbo haver é linguagem culta. Drummond prefere “tinha”, o modo de falar coloquial.

“Como pôde um poemeto obsessivo, anguloso e circular, falando aparentemente de quase nada, tendo como elemento concreto não mais que a dureza mineral da pedra, ter demonstrado essa potência de ‘bomba atômica’, no dizer de Mário Quintana?”, indaga Wisnik, que considera Drummond “um dos maiores hitmakers frásicos da poesia brasileira”.

“No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.”

Antes de ser chamado de gênio por essa obra, foi ela batizada de “monumento da estupidez”. Wisnik revela que, em 1941, CDA escreveu: “Sou o autor confesso de certo poema, insignificante em si, mas que, a partir de 1928, vem escandalizando meu tempo, e serve até hoje para dividir no Brasil as pessoas em duas categorias mentais”.

A trilogia Boitempo, publicada entre 1968 e 1979, revela o caráter memorialístico e pessoal dos versos drummondianos, sem esquecer o humor e a linguagem coloquial empregadas pelo poeta. “Em Drummond é bem interessante esse descompasso entre estar aqui e desejar estar lá – e desejar voltar aqui, estando lá. Por isso, ele é um habitante desse intervalo entre o espaço interiorano e o espaço cosmopolita”, afirma o poeta, ensaísta e crítico literário carioca Antonio Carlos Secchin.

Professor titular de Literatura Brasileira da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Secchin ressalta a importância da trilogia assinada por Drummond: “é um exemplo raro de autobiografia poética. Quase sempre associamos biografia a relato em prosa”, afirma o imortal da Academia Brasileira de Letras. Em palestra proferida na mesma ABL, em 2018, intitulada Drummond: poesia e aporia, Secchin destaca o livro A rosa do povo (1945) como um dos livros mais populares do poeta mineiro, “contendo muitos poemas de teor político e de grande comunicabilidade”.

A partir da vida em Itabira e da impossibilidade de lá continuar vivendo, assim como em Minas, Drummond faz “um dos testemunhos poéticos mais intensos sobre a vida moderna no Brasil”, avalia Eduardo Sterzi, mencionando trecho do poema “José”:

“Com a chave na mão
Quer abrir a porta
Não existe porta
Quer morrer no mar
Mas o mar secou
Quer ir para Minas
Minas não há mais
José, e agora?”

Turismo literário

No pequeno, porém charmoso, centro histórico da cidade, casas coloniais bem preservadas embelezam e emolduram as ruas enladeiradas e sinuosas, com suas confusas rotatórias. Passear a pé, portanto, é a melhor pedida para quem quer percorrer os caminhos do itabirano ilustre. Um passeio conhecido como Caminhos Drummondianos, que podem ser descobertos ao acaso pelo turista andarilho. Mas se quiser algo mais certeiro, a dica é conferir o link https://cadastro.museus.gov.br/museus/museu-de-territorio-caminhos-drummondianos/.

A cada esquina, uma das 44 placas-poemas ironicamente feitas em ferro revela uma poesia muitas vezes associada ao lugar onde o totem está instalado. Até o sinal de trânsito traz a inconfundível caricatura do escritor, feita por ele mesmo. Lá também há o Memorial Carlos Drummond de Andrade, projetado por Oscar Niemeyer, que conta com riqueza de detalhes a trajetória drummondiana pelos lugares onde viveu — Itabira, Belo Horizonte e Rio de Janeiro — de maneira lúdica e interativa.

Ao longo da visita, um telefone toca. O visitante atende e ouve uma gravação do próprio Drummond recitando alguns dos seus poemas. Ouvir a voz do poeta confere um caráter intimista à lírica drummondiana. Enquanto isso, um painel exibe a linha cronológica de publicações, com direito a exemplares raros da ampla bibliografia de Drummond. Foram cerca de 50 livros publicados, do primeiro, Alguma Poesia (1930), ao póstumo, Farewell (1996).

Preservada, a Casa de Drummond é outro equipamento aberto ao visitante interessado na vida e obra do poeta. Trata-se da casa onde passou boa parte da infância, dos dois aos 13 anos de idade. Um belo sobrado de fins do século XIX, com dois pavimentos, paredes brancas e janelas e portas azuis, com direito a quintal, piso de madeira corrida e até estrebaria. A casa-museu guarda objetos e a exposição de longa duração “Menino Antigo, Poeta Moderno”. O pátio interno, em forma de estrela, é citado em “O Criador”:

“A mão de meu irmão desenha um jardim
e ele surge da pedra. Há uma estrela no pátio.
Uma estrela de rosa e de gerânio.
Mas seu perfume não me encanta a mim.
O que respiro é a glória de meu mano.”

A Fazenda do Pontal, que pertenceu ao pai de Drummond e está fechada no momento, também faz parte do conjunto de equipamentos desse turismo literário, administrados pela Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade (FCCDA). A fazenda, porém, é apenas uma réplica do casarão original. Desmontada em 1973 para dar lugar a uma barragem para lavar o minério e lá depositar seus rejeitos, a fazenda foi remontada em 2004 pela famigerada Vale do Rio Doce. Lá existe uma estátua reproduzindo a famosa fotografia de Drummond menino e sua bicicleta. Também integram a FCCDA, com sede no centro da cidade, uma biblioteca pública, uma galeria de arte, um teatro e uma escola de música.

Sobre os tempos de menino na fazenda, o mineiro escreveu Infância, do livro Alguma Poesia, publicado em 1930:

“Meu pai montava a cavalo, ia para o campo.
Minha mãe ficava sentada cosendo.
Meu irmão pequeno dormia.
Eu sozinho menino entre mangueiras
lia a história de Robinson Crusoé,
comprida história que não acaba mais.
No meio-dia branco de luz uma voz que aprendeu
a ninar nos longes da senzala - e nunca se esqueceu
chamava para o café.
Café preto que nem a preta velha
café gostoso
café bom.

Minha mãe ficava sentada cosendo
olhando para mim:
- Psiu... Não acorde o menino.
Para o berço onde pousou um mosquito.
E dava um suspiro... que fundo!”

Assim como a fazenda, a igreja Matriz do Rosário também tombou, em 1970. Antes de ter seu tombamento como patrimônio histórico. Culpa das dinamitações próximas ao templo católico. E o som do majestoso sino Elias, de 1781, tão presente na vida do menino Drummond, silenciou-se. O sino que marcava o tempo. Aquele tempo de vida mansa, de comércio que fecha para o almoço, como ainda é Itabira. Agora sem o sino. Mas o gigante de ferro de 1.600 toneladas recebeu homenagem à altura e menções em diversos poemas como “Sino”, do livro Boitempo: esquecer para lembrar:

“O sino Elias não soa
por qualquer um,
mas, quando soa, reboa
como nenhum (...)
(..) um som que liga o passado
ao futuro, ao mais que o tempo, (...)
Já não somos prisioneiros
de um emprego, de uma região (...)
Chega, Elias, é demais.”

Jornalista antes de tudo

De 1920 a 1925, o modernismo mineiro foi gestado nas páginas dos jornais da época. “Nelas, temos o jovem Drummond, antes de ser Drummond, antes do seu reconhecimento como um dos maiores poetas do século XX. Por isso a importância da atividade jornalística sempre confessada pelo poeta”, declara Maria Zilda Cury, autora do livro Horizontes modernistas - O jovem Drummond e seu grupo em papel jornal (2007).

A doutora em Literatura Brasileira pela USP afirma que foi nas páginas dos jornais que CDA se formou. “Deu seus primeiros passos rumo à modernidade inconteste de sua poesia. Lembrando que a importância dessa produção é muito grande também porque seu primeiro livro só seria publicado em 1930. Certamente, esta é a razão de o poeta ter dito que era, antes de tudo, um jornalista.”

O Instituto Moreira Salles (IMS) é guardião do Arquivo Carlos Drummond de Andrade desde 2011. O acervo inclui uma biblioteca de cerca de quatro mil livros e 3.550 documentos, entre correspondência, coleção de mais de 400 cartões-postais de remetentes diversos, documentos pessoais, recortes de jornais e revistas, fotografias e fichas bibliográficas elaboradas pelo próprio poeta-arquivista. De acordo com a coordenadora de literatura do IMS, Rachel Valença, a iniciativa partiu de seus netos, que detinham a posse do material, após a morte do poeta itabirano.

Drummond colaborou na imprensa ao longo de toda a sua carreira. “No início sob pseudônimo, nos jornais mineiros Diário de Minas e Minas Geraes e, mais tarde, já no Rio de Janeiro, em importantes veículos da imprensa, como o Diário Carioca, Tribuna da Imprensa, A Manhã, e de forma mais duradoura, no Correio da Manhã, a partir de 1954, e no Jornal do Brasil, a partir de outubro de 1969, até setembro de 1984, quando encerra publicamente sua carreira de cronista”. O Arquivo CDA pode ser consultado presencialmente ou à distância pelo e-mail literatura@ims.com.br.

Mesmo quando se muda para o Rio de Janeiro, CDA leva consigo as Minas Gerais, mas marcado por uma mágoa profunda, como confessa a Cury, em entrevista concedida em 1985: “Não volto para Itabira ou para Belo Horizonte. Para quê? Está tudo mudado. Colocaram tudo abaixo, destruíram nossas lembranças”, lamenta o poeta.

No livro póstumo Farewell (1996), CDA ainda retorna a Itabira no poema “Ilusão do Migrante”:

“Quando vim da minha terra,
se é que vim da minha terra
(não estou morto por lá?),
a correnteza do rio
me sussurrou vagamente
que eu havia de quedar
lá donde me despedia.

(...)

Quando vim da minha terra,
não vim, perdi-me no espaço,
na ilusão de ter saído.
Ai de mim, nunca saí.
Lá estou eu, enterrado
por baixo de falas mansas,
por baixo de negras sombras,
por baixo de lavras de ouro,
por baixo de gerações,
por baixo, eu sei, de mim mesmo,
este vivente enganado, enganoso.

Foi em jornal que Drummond, certa vez, chamou a Vale do Rio Doce de “indústria ladra, porque ela tira e não põe, abre cavernas e não deixa raízes, devasta e emigra para outro ponto”. A empresa deu o troco em uma campanha publicitária com os dizeres “Há uma pedra no caminho do desenvolvimento brasileiro”. Desenvolvimento à custa de tragédias já ocorridas e da possibilidades de outras mais. Mas como dói!