A 98ª cerimônia de premiação do Oscar foi transmitida no Recife, este ano, na tela do emblemático São Luiz. Construído em 1952, ele é um cinema de calçada, porque as portas se abrem diretamente para a via pública, e também de rua, porque está fora dos centros comerciais. A história do São Luiz e de outras 19 salas de exibição do mesmo gênero estão documentadas no livro Cinemas de rua de Pernambuco - Memória gráfica, visual e afetiva. É uma publicação inédita do Coletivo CineRua e o lançamento será em 29 de março, às 11h, no São Luiz, instalado no térreo do Edifício Duarte Coelho, na esquina da Rua da Aurora com a Avenida Conde da Boa Vista, Centro da cidade.
“Conseguimos reunir informações que ainda não são de fácil acesso e não estão disponíveis no Google, temos entrevistas com programadores e proprietários de cinemas, endereços e localização, ano de inauguração, ano de fechamento, situação física, estilo arquitetônico, capacidade e curiosidades sobre os prédios”, informa a jornalista Priscila Urpia. Ela divide a produção executiva do projeto com a arquiteta Kate Saraiva e a produção geral com a gestora cultural Janaína Guedes. “Pernambuco, possivelmente, é o Estado com o maior número de cinemas de rua no Brasil, identificamos 36 e fizemos um recorte de 20 para o livro, o título de Hollywood nordestina ainda permanece”, observa Priscila.
A pesquisa pioneira, que resultou em um volume com quase 300 páginas, foi realizada por cinco profissionais. O grupo percorreu o Recife e sua região metropolitana, a Zona da Mata, o Agreste e o Sertão para escrever os capítulos do livro. Das 20 salas mapeadas, quase a metade mantém atividades: São Luiz (foto abaixo - Eduardo Cunha), Cineteatro do Parque e Cinema da Fundação-Derby (Recife), Cine Bianor (Camaragibe), Cineteatro Samuel Campelo (Jaboatão dos Guararapes), Cine Apollo (Palmares), Cine Aurélio (Toritama), Cine São José (Afogados da Ingazeira) e Theatro Cinema Guarany (Triunfo). “As salas fechadas estão em condições de voltar a funcionar, é preciso ter vontade política, incentivo e cobrança por parte da sociedade civil”, destaca Priscila Urpia.

Cinemas de rua de Pernambuco - Memória gráfica, visual e afetiva nasceu de uma ideia da arquiteta e urbanista Kate Saraiva, integrante do Coletivo CineRua. O colegiado abraçou a sugestão e conseguiu financiamento da Lei Paulo Gustavo para a execução do projeto cultural. “Uma das curiosidades da pesquisa é o Cine Aurélio (foto abaixo - Eduardo Cunha), em Toritama, no Agreste. É um cinema de resistência, não tem luxo, não é bonito, mas tem uma história linda”, diz Kate Saraiva. A sala de espetáculos comporta 97 cadeiras e funciona na parte de baixo de uma casa alta, inaugurada em 2016 pelo ex-pedreiro José Aurélio da Silva, 81 anos, com recursos próprios. Ele mora na parte de cima do edifício.

“O pai dele era pedreiro e o levava ao trabalho, que ficava junto de um cinema em atividade. De tanto conversar com o projecionista, ele acabou indo trabalhar no cinema. Depois, construiu sua própria sala” relata Kate Saraiva. Ela é autora do livro Cinemas do Recife, lançado em 2013, como desdobramento de sua dissertação de mestrado. No recorte feito para o livro, o Cine Teatro Apollo, inaugurado em 1914, no município de Palmares, Zona da Mata Sul do Estado, é o mais antigo em funcionamento, destaca a pesquisadora. “A pesquisa é o começo de ação que pode levar à recuperação dos cinemas de rua e também pode ajudar na construção de uma política pública para essas salas.”
A SOCIEDADE ENGAJADA
Fundado por um farmacêutico no ano de 1942, quando ainda não havia energia elétrica em Afogados da Ingazeira, no Sertão, o Cine São José é outra relíquia entre os cinemas de rua. Até a chegada da eletricidade, nos anos 1950, o então Cine Pajeú funcionava com gerador próprio. Nessa mesma década, o proprietário vendeu a sala à diocese, que mudou o nome para homenagear o santo, relata Bruna Tavares. Ela é programadora voluntária do cinema, com William Tenório. A igreja fechou o São José no fim da década de 1970 e por cerca de 20 anos o prédio sofreu deteriorações, incluindo a perda do telhado.
“Em 1994, um grupo de adolescentes envolvidos com teatro pediu ao bispo permissão para usar o espaço do cinema, diante da situação do prédio, eles fizeram um mutirão de limpeza, com a participação da sociedade. Em seguida, criaram campanhas para arrecadação de recursos, utilizados na recuperação do telhado e na implantação do isolamento acústico”, detalha Bruna Tavares. Hoje, o Cine São José (foto abaixo - Eduardo Cunha) é administrado pela Fundação Cultural Senhor Bom Jesus dos Remédios, vinculada à diocese, com programação da sociedade civil. O prédio, no estilo art déco, é preservado e protegido por lei municipal.

É o único cinema em Afogados da Ingazeira (era o único cinema de rua do Sertão pernambucano, antes da reabertura do Theatro Cinema Guarany), município com 40 mil habitantes, ressalta Bruna Tavares, pesquisadora do cinema e do audiovisual. A sala comporta 244 cadeiras, dispõe de projetor digital e funciona de quinta-feira a domingo, com programação comercial. “Você vê no São José os mesmos filmes que passam nos shoppings”, diz Bruna Tavares. O ingresso custa R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia entrada).
Os pesquisadores também realizaram entrevistas com moradores, para identificar memórias afetivas com as salas de exibição. “Muitos deles relataram diversas histórias interessantes de sessões, amizades e relacionamentos da época em que frequentavam esses espaços”, diz Walter Andrade. “Por outro lado, há aqueles que não frequentaram tanto ou que só testemunharam o deterioramento das fachadas dos prédios, mas sonhavam com a restauração e reabertura desses cinemas.” Walter Andrade fez o levantamento em Goiana (Cine Polytheama) e Vitória de Santo Antão (Cine Iracema, foto abaixo - Eduardo Cunha), na Zona da Mata. “Encontram-se fechados, mas com estrutura física, ou parte dela, conservada.”

Além de trazer um mapa de Pernambuco com a sinalização dos 20 cinemas, o livro contém um caderno com as fotos produzidas no decorrer da pesquisa, de todos os edifícios. “A experiência de ver um filme num cinema de rua é diferente de uma sala dentro de um shopping center, o cinema de rua guarda memórias que resistem ao tempo”, declara Priscila Urpia. Grande parte das salas, diz ela, não suportou a concorrência com novas tecnologias (VHS) e locadoras, e alguns proprietários migraram para atividades mais rentáveis, como estacionamentos e supermercados. Atuaram como pesquisadores no projeto Bárbara Lino, Bruna Tavares, Karuna de Paula, Kate Saraiva e Walter Andrade.
Cinemas catalogados no livro
Recife: São Luiz, Cineteatro do Parque, Trianon, Art-Palácio, Moderno, AIP e Cinema da Fundação
Olinda: Duarte Coelho e Cine Olinda
Camaragibe: Bianor
Jaboatão dos Guararapes: Cineteatro Samuel Campelo
Vitória de Santo Antão: Iracema
Goiana: Polytheama
Palmares: Apollo e Serro Azul
Toritama: Aurélio
Taquaritinga do Norte: Santo Amaro
Arcoverde: Rio Branco
Afogados da Ingazeira: São José
Triunfo: Theatro Cinema Guarany
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