Cinemas de rua de Pernambuco: uma história de afeto e resistência

Coletivo CineRua lança, neste domingo, 29 de março de 2026, livro com pesquisa inédita sobre 20 cines de rua de Pernambuco

Cineteatro do Parque, no Centro do Recife, foi inaugurado em 1915
Cineteatro do Parque, no Centro do Recife, foi inaugurado em 1915

A 98ª cerimônia de premiação do Oscar foi transmitida no Recife, este ano, na tela do emblemático São Luiz. Construído em 1952, ele é um cinema de calçada, porque as portas se abrem diretamente para a via pública, e também de rua, porque está fora dos centros comerciais. A história do São Luiz e de outras 19 salas de exibição do mesmo gênero estão documentadas no livro Cinemas de rua de Pernambuco - Memória gráfica, visual e afetiva. É uma publicação inédita do Coletivo CineRua e o lançamento será em 29 de março, às 11h, no São Luiz, instalado no térreo do Edifício Duarte Coelho, na esquina da Rua da Aurora com a Avenida Conde da Boa Vista, Centro da cidade.

“Conseguimos reunir informações que ainda não são de fácil acesso e não estão disponíveis no Google, temos entrevistas com programadores e proprietários de cinemas, endereços e localização, ano de inauguração, ano de fechamento, situação física, estilo arquitetônico, capacidade e curiosidades sobre os prédios”, informa a jornalista Priscila Urpia. Ela divide a produção executiva do projeto com a arquiteta Kate Saraiva e a produção geral com a gestora cultural Janaína Guedes. “Pernambuco, possivelmente, é o Estado com o maior número de cinemas de rua no Brasil, identificamos 36 e fizemos um recorte de 20 para o livro, o título de Hollywood nordestina ainda permanece”, observa Priscila.

A pesquisa pioneira, que resultou em um volume com quase 300 páginas, foi realizada por cinco profissionais. O grupo percorreu o Recife e sua região metropolitana, a Zona da Mata, o Agreste e o Sertão para escrever os capítulos do livro. Das 20 salas mapeadas, quase a metade mantém atividades: São Luiz (foto abaixo - Eduardo Cunha), Cineteatro do Parque e Cinema da Fundação-Derby (Recife), Cine Bianor (Camaragibe), Cineteatro Samuel Campelo (Jaboatão dos Guararapes), Cine Apollo (Palmares), Cine Aurélio (Toritama), Cine São José (Afogados da Ingazeira) e Theatro Cinema Guarany (Triunfo). “As salas fechadas estão em condições de voltar a funcionar, é preciso ter vontade política, incentivo e cobrança por parte da sociedade civil”, destaca Priscila Urpia.

Cinemas de rua de Pernambuco - Memória gráfica, visual e afetiva nasceu de uma ideia da arquiteta e urbanista Kate Saraiva, integrante do Coletivo CineRua. O colegiado abraçou a sugestão e conseguiu financiamento da Lei Paulo Gustavo para a execução do projeto cultural. “Uma das curiosidades da pesquisa é o Cine Aurélio (foto abaixo - Eduardo Cunha), em Toritama, no Agreste. É um cinema de resistência, não tem luxo, não é bonito, mas tem uma história linda”, diz Kate Saraiva. A sala de espetáculos comporta 97 cadeiras e funciona na parte de baixo de uma casa alta, inaugurada em 2016 pelo ex-pedreiro José Aurélio da Silva, 81 anos, com recursos próprios. Ele mora na parte de cima do edifício.

“O pai dele era pedreiro e o levava ao trabalho, que ficava junto de um cinema em atividade. De tanto conversar com o projecionista, ele acabou indo trabalhar no cinema. Depois, construiu sua própria sala” relata Kate Saraiva. Ela é autora do livro Cinemas do Recife, lançado em 2013, como desdobramento de sua dissertação de mestrado. No recorte feito para o livro, o Cine Teatro Apollo, inaugurado em 1914, no município de Palmares, Zona da Mata Sul do Estado, é o mais antigo em funcionamento, destaca a pesquisadora. “A pesquisa é o começo de ação que pode levar à recuperação dos cinemas de rua e também pode ajudar na construção de uma política pública para essas salas.”

A SOCIEDADE ENGAJADA

Fundado por um farmacêutico no ano de 1942, quando ainda não havia energia elétrica em Afogados da Ingazeira, no Sertão, o Cine São José é outra relíquia entre os cinemas de rua. Até a chegada da eletricidade, nos anos 1950, o então Cine Pajeú funcionava com gerador próprio. Nessa mesma década, o proprietário vendeu a sala à diocese, que mudou o nome para homenagear o santo, relata Bruna Tavares. Ela é programadora voluntária do cinema, com William Tenório. A igreja fechou o São José no fim da década de 1970 e por cerca de 20 anos o prédio sofreu deteriorações, incluindo a perda do telhado.

“Em 1994, um grupo de adolescentes envolvidos com teatro pediu ao bispo permissão para usar o espaço do cinema, diante da situação do prédio, eles fizeram um mutirão de limpeza, com a participação da sociedade. Em seguida, criaram campanhas para arrecadação de recursos, utilizados na recuperação do telhado e na implantação do isolamento acústico”, detalha Bruna Tavares. Hoje, o Cine São José (foto abaixo - Eduardo Cunha) é administrado pela Fundação Cultural Senhor Bom Jesus dos Remédios, vinculada à diocese, com programação da sociedade civil. O prédio, no estilo art déco, é preservado e protegido por lei municipal.

É o único cinema em Afogados da Ingazeira (era o único cinema de rua do Sertão pernambucano, antes da reabertura do Theatro Cinema Guarany), município com 40 mil habitantes, ressalta Bruna Tavares, pesquisadora do cinema e do audiovisual. A sala comporta 244 cadeiras, dispõe de projetor digital e funciona de quinta-feira a domingo, com programação comercial. “Você vê no São José os mesmos filmes que passam nos shoppings”, diz Bruna Tavares. O ingresso custa R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia entrada).

Os pesquisadores também realizaram entrevistas com moradores, para identificar memórias afetivas com as salas de exibição. “Muitos deles relataram diversas histórias interessantes de sessões, amizades e relacionamentos da época em que frequentavam esses espaços”, diz Walter Andrade. “Por outro lado, há aqueles que não frequentaram tanto ou que só testemunharam o deterioramento das fachadas dos prédios, mas sonhavam com a restauração e reabertura desses cinemas.” Walter Andrade fez o levantamento em Goiana (Cine Polytheama) e Vitória de Santo Antão (Cine Iracema, foto abaixo - Eduardo Cunha), na Zona da Mata. “Encontram-se fechados, mas com estrutura física, ou parte dela, conservada.”

Além de trazer um mapa de Pernambuco com a sinalização dos 20 cinemas, o livro contém um caderno com as fotos produzidas no decorrer da pesquisa, de todos os edifícios. “A experiência de ver um filme num cinema de rua é diferente de uma sala dentro de um shopping center, o cinema de rua guarda memórias que resistem ao tempo”, declara Priscila Urpia. Grande parte das salas, diz ela, não suportou a concorrência com novas tecnologias (VHS) e locadoras, e alguns proprietários migraram para atividades mais rentáveis, como estacionamentos e supermercados. Atuaram como pesquisadores no projeto Bárbara Lino, Bruna Tavares, Karuna de Paula, Kate Saraiva e Walter Andrade.

Cinemas catalogados no livro

Recife: São Luiz, Cineteatro do Parque, Trianon, Art-Palácio, Moderno, AIP e Cinema da Fundação

Olinda: Duarte Coelho e Cine Olinda

Camaragibe: Bianor

Jaboatão dos Guararapes: Cineteatro Samuel Campelo

Vitória de Santo Antão: Iracema

Goiana: Polytheama

Palmares: Apollo e Serro Azul

Toritama: Aurélio

Taquaritinga do Norte: Santo Amaro

Arcoverde: Rio Branco

Afogados da Ingazeira: São José

Triunfo: Theatro Cinema Guarany

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