Daqui ninguém sai é o nome da peça que o grupo Teatro de Comédia do Paraná (TCP) estreia no Festival de Curitiba, entre os dias 24 de março e 6 de abril.
Com direção de Nena Inoue e dramaturgia do potiguar Henrique Fontes, é baseada nos contos de Dalton Trevisan (1925-2024) e nas cartas que ele trocou com outros escritores brasileiros.
A peça foi batizada, por sugestão do próprio Dalton, com o nome de um de seus contos, no qual dois sujeitos conversam dentro de uma cova.
Autorizar (e nomear) o espetáculo foi um dos últimos “sim” ditos em vida pelo homem que passou a maior parte dela dizendo “não”, ainda que de modo cortês e elegante.
Pois Dalton, nas últimas cinco décadas, recusou convites para eventos literários, entregas de prêmios, entrevistas e projetos encomendados. Aliás, gostaria de ler a coletânea dessas negativas que ele fazia sempre por escrito, algumas delas folclóricas.
oi assim que Dalton soube defender sua própria disponibilidade como autor. Para ser o maior contista brasileiro de seu tempo, renunciou ao “mundo”, no sentido com o qual os teólogos e moralistas católicos empregam esta palavra.
Uma postura muitas vezes comparada a de outro célebre autor recluso, J.D. Salinger (1919-2010) – de quem Dalton era leitor, desde os anos 1940 – de uma forma que me soa inapropriada, pois vejo mais semelhanças literárias do que de procedimento entre eles.
Ambos eram contistas puro-sangue que privilegiam a oralidade dos personagens em suas narrativas, mas, no que toca à arte de desaparecer, penso que o americano se esforçava para ser esquecido, ao passo que Dalton sumiu para que sua obra nunca mais saísse da ribalta.
Dalton e Otto: caminhos opostos
Dentre os textos que inspiraram a peça Daqui ninguém sai, está a longa correspondência que Dalton trocou com Otto Lara Resende. Um material que esteve por anos sob a guarda do Instituto Moreira Salles e que deve finalmente vir à luz em 2025 no pacote que a Editora Todavia programou para o centenário de Trevisan.
Comparando a carreira de ambos, há pistas para compreender a engenharia do desaparecimento do curitibano. Até o final da década de 1950, Otto e Dalton tiveram trajetórias parecidas. Ambos já haviam publicado livros de repercussão modesta e dos quais não se orgulhavam muito, até que o mineiro colocou na praça O Boca do Inferno, em 1957. Dois anos depois, Dalton “estreou” com Novelas nada exemplares.
Dois livros de contos pontiagudos, geniais e à frente de seu tempo. Editado pela José Olympio, as Novelas nada exemplares dariam prestígio nacional a Dalton e o Prêmio Jabuti no ano seguinte. Mas, ainda que tenham sido bem aceitas por parte da crítica, foram atacadas, junto com seu autor, pelo, talvez, mais respeitado crítico da época: Otto Maria Carpeaux (1900-1978).
Antes, porém, o outro Otto tinha sido execrado, proscrito e difamado em jornais, botecos e igrejas, em críticas de cariz moralista sobre seus contos que, a meu ver, apontam como problemáticas justamente as virtudes das narrativas ottolarianas.
A partir desse momento, ambos tomaram rumos opostos, cada qual com seus motivos e propósitos. Um traumatizado Otto nunca mais republicou seu livro (que ficou escondido até 1998), escreveu pouco (mas sempre muito bem) e se tornou um intelectual público que assumiu cargos políticos e virou uma personalidade da TV.
Dalton, ao contrário, passou 70 anos editando e republicando Novelas nada exemplares. Escreveu sem parar muitas dezenas de livros e, alguns anos depois, desapareceu para sempre da “arena pública”.
Deu sua última entrevista ao Estadão em 1972. Já tinha 47 anos e uma obra consolidada quando fez a escolha radical de colocar a obra na frente da devoção narcisista ao autor, ao contrário do caminho que contemporâneos seus já trilhavam e que hoje é o motor principal do mercado literário.
Algo que todo mundo sabe, ao contrário do primeiro desaparecimento de Dalton que durou uma década. Ele já havia saído de cena entre o fim da publicação da revista literária Joaquim, que editou entre 1946 e 1948, e as Novelas nada exemplares.
Quem chama atenção sobre esta década perdida é o jornalista Luiz Cláudio Oliveira, o Lobão, que estuda há anos a obra de Dalton. Nesse tempo, quando já tinha escrito dois livros que renegou até o ano passado, Dalton trabalhou como advogado, e na fábrica de vidros e porcelanas da família. Colaborou com jornais e revistas de Curitiba com textos literários, reportagens policiais – das quais tirou muitos dos argumentos de seus contos – e crítica de cinema.
Passou seis meses viajando pela Europa, a maior parte do tempo na Suíça, fazendo sabe-se lá o quê. Aliás, adoraria ser o repórter que investigou os passos de Dalton Trevisan em Genebra.
Vítima da Província
Ele também se casou e teve suas duas filhas, sem nunca parar de escrever e de publicar artesanalmente seus livretos em forma de cordel, que distribuiu aos amigos até o fim da vida. Nisso, Dalton lembra Cartola, o poeta do povo, que também sumiu no fim da juventude para reaparecer maduro e pronto para escrever o melhor de sua obra.
No caso do curitibano, porém, acredito que foi a maneira que encontrou para escapar da sina de “vítima da província”, que ele próprio identificou no poeta local Emiliano Perneta (1866-1921): “Em vida, a província não permitiu que ele fosse o grande poeta que poderia ser e, na morte, o cultua como sendo o grande poeta que não foi”, escreveu Dalton.
Esse risco ele não corre. Sua morte, em dezembro de 2024, pode ser entendida como um terceiro desaparecimento que, a exemplo dos demais, não vai afetar a vitalidade de sua obra, pelo contrário. Quem está sofrendo somos nós, o grupo de leitores e admiradores que ficaram, pois daqui ninguém sai, na província que já não é a mesma sem ele.
Pois, como tem repetido o escritor Caetano Galindo, que está organizando, ao lado do dramaturgo Felipe Hirsch, a obra daltoniana para um público que ainda não o conhece, Dalton inventou uma Curitiba e sua linguagem particular. Estas se fundiram com a cidade real a ponto de nos sentirmos vivendo dentro de um de seus contos.
Eu, que cresci na mesma quadra em que ele morou a maior parte de sua vida e que tive daqueles homens tarados e nefastos dos livros como meus vizinhos, sinto que esta entidade, a Curitiba de Dalton, que aparece em todos os seus livros, não exista mais fora deles.
Após sua terceira desaparição, Dalton não saberá se a peça ficou boa (ficou, sim) ou como serão as capas dos novos livros. Nem vai poder recusar a presença nas homenagens preparadas para seu centenário. Mas tenho a intuição de que ela também foi muito bem arquitetada para manter sua obra viva pelos próximos 100 anos, pois um século, convenhamos, é muito pouco para um autor como ele.