Três poemas de Celso de Alencar

O QUE ATEMORIZA O TODO-PODEROSO SÃO AS MINHAS PALAVRAS
Eu que vivi entre
roseiras de rosas rubras.
Eu que vi espelhos
prescreverem idades.
Eu que tive fortes dores
quando minhas mãos
foram descarnadas.
Eu, o carregador de metais.
O masculino. O único que
nos meses da primavera
arrastou e decifrou
as cores do arco-íris.
Eu que no outono
falei sempre palavras
de amor e compaixão.

Eu, o emboscado
o faminto, o das trevas,
o das procissões de
Nossa Senhora das Graças
e a do Santo Cristo na Semana Santa.
Eu que sempre fui a tentativa,
a experiência.
Eu, o campo adormecido,
o silêncio.
Eu, o ressuscitado.
Falo agora palavras
atordoadas e desregradas e digo:
Ninguém sabe do meu coração.

E não me contenho.
Caminho com prostituídos.
Alimento-me de prostituídos
e digo: Fora, covardes que
se escondem nas velhas casas
apodrecidas e nas palavras desfiguradas,
sem almas, bêbadas e estonteadas.
E vou cortando a cidade
com minha língua gigantesca
e meu pênis decantado,
encarnados de sangue
das putas menstruadas
que amam a minha alma
e o meu coração monumental,
doce e afável.

CONTEÚDO NA ÍNTEGRA NA EDIÇÃO IMPRESSA

Venda avulsa na Livraria da Cepe