Sá-Carneiro: a literatura como âncora

Em 26 de abril completam-se 110 anos da morte do poeta Mário de Sá-Carneiro, o maior amigo e confidente de Fernando Pessoa

Pronominemos: eu, o outro, os outros, ela, elas. Como o de Andrade, também múltiplo Mário. Um desafio se impõe. Falar de quem? De Mário, o pequeno órfão, do assíduo frequentador dos cafés parisienses, do financiador dos dois primeiros números da revista Orpheu. De Mário de Sá-Carneiro, o “esfinge gorda”, poeta, ficcionista, dramaturgo e mais, muito mais? Como rotular o artista que contém tantos outros/outras?

Só lendo-o na sua permanente condição de outsider, fora de lugar e, ainda mais, um ser que englobava outros:

AQUELOUTRO

O dúbio mascarado o mentiroso
Afinal, que passou na vida incógnito
O Rei lua postiço, o falso atônito;
Bem no fundo o covarde rigoroso.

Em vez de Pajem bobo presunçoso.
Sua Alma de neve asco de um vómito.
Seu ânimo cantado como indômito
Um lacaio invertido e pressuroso.

O sem nervos nem ânsia – o papa-açorda,
(Seu coração talvez movido a corda...)
Apesar de seus berros ao Ideal

O corrido, o raimoso, o desleal
O balofo arrotando Império astral
O mago sem condão, o esfinge gorda.”
(Paris, 1916)

O poema acima retrata, como muitos outros, as autoimagens daquele a quem faltou um “golpe de asa”, daquele que sentia a dor de “ser quase”, “falhado”, herdeiro do “desencanto” que não permaneceu “aquém” (Cf. Quase, Paris, 13 de maio de 1913).

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