Na carrapeta do jogo criativo a arte de Mari Inês Piekas

Ilustradora e designer vai representar o país na “Copa do Mundo” dos livros táteis

Valparaíso era o nome do vapor que, zarpando de portos alemães, trouxe levas de imigrantes poloneses ao Brasil na segunda metade do século XIX. Foi nesse período que milhares de pessoas escaparam da instabilidade social e política da região, atraídas pela propaganda que o governo imperial brasileiro fazia circular, já em seus anos finais e diante da iminência do fim da escravidão, para levar trabalhadores aos sertões do sul do país.

Em Imigrantes poloneses no Brasil, de 1891, o escritor Zygmunt Chelmicki reproduz uma conversa ouvida na proa de um desses navios, entre dois sujeitos, sobre as razões para partir. “Porque outros que estavam indo me disseram que lá seria melhor.” Numa dessas viagens, em 1886, chegou o menino Michał Piekas, então com nove anos, vindo de um vilarejo da região da Silésia, próxima à fronteira com a Tchéquia.

Os caminhos da terra de adoção levaram a família para a Colônia Antônio Prado, na cidade de Almirante Tamandaré, uma das muitas colônias de imigrantes nos arredores de Curitiba. O Paraná tem a maior comunidade polonesa do Brasil, com cerca de 1,2 milhão de descendentes – 300 mil deles apenas na capital paranaense.

A “diáspora polaca” é tema recorrente do universo poético de sua neta, a gravurista, ilustradora, aquarelista e artista Mari Ines Piekas. Quando eu a entrevistei, na sala onde dá aulas de desenho para crianças e adolescentes, na galeria e escola de arte Solar do Rosário, no centro de Curitiba, um dos quadros na parede era a gravura Valparaíso, parte de uma série criada por ela em 2012, sobre a aventura vivida por esse menino.

“O que me move como artista é esta ideia de estar solto sobre o mar. Porque você deixa uma terra e ainda não está na outra terra. Esse momento de suspensão é que me intriga”, disse.

Curiosamente, quando aparece como personagem nos desenhos da neta, o pequeno imigrante tem sempre a idade do avô no navio, mas o nome do pai, Jan. Um avohai polaco, girando na carrapeta do jogo criativo em que Mari Ines faz, a um só tempo, uma interpretação lírica e surrealista de sua ancestralidade. Mais ou menos como no poema de seu patrício Paulo Leminski:

“Meu coração polaco voltou
Coração que meu avô trouxe de longe pra mim
Um coração esmagado
Um coração pisoteado
Um coração de poeta”

Em 1998, Mari Ines pôde fazer o caminho inverso. Foi para Varsóvia como bolsista do governo polonês, em um estágio de pós-graduação na Academia de Belas Artes, onde estudou ilustração para literatura infantil, litografia e cartaz – talvez a mais polaca das artes gráficas.

Morando nos arredores da capital polonesa, costumava caminhar nas florestas da região, mas só nas franjas, pois era orientada pelos locais a não penetrar: “ou você vai se perder”.

Na fantasia de suas litogravuras, é a Floresta de Szczek, palavra que significa ruído em polônes e que inspirou um dos trabalhos mais robustos de seu portfólio. Uma série de 10 imagens desse lugar em preto e branco, que tomou alguns bons anos para ser gravada na pedra e deu origem à sua primeira exposição individual, em 2002.

Segundo o professor da Unicamp e doutor em Matemática José Carlos Cifuentes, o trabalho impressiona pelo contraste entre o conteúdo emocional denso e a delicadeza da técnica, que revela um respeito intuitivo por uma arquitetura matemática da forma.

“Fui atraído pelas obras (de Mari Ines Piekas) pela vibração de seu conteúdo formal, que estimulou minha percepção matemática: achei nelas regularidade, abstração, inversão, estrutura espacial, simetria, valores tanto matemáticos quanto estéticos”, escreveu.

Nesta fase da produção de Mari Ines, é impossível não pensar em um diálogo entre a obra da artista e a do artista gráfico holandês Escher ou com alguma escola contemporânea do surrealismo latino-americano, mas, citando mais uma vez o professor Cifuentes, há nas paisagens, figuras e cenas “poesia e sensualidade”.

Essa qualidade dupla se expressa, com clareza, nas representações que ela faz da natureza exuberante, mas que aparece, porém, em contraponto a um imaginário que evoca, o tempo todo, a infância na área semirrural onde cresceu e vive até hoje, na região metropolitana da capital do Paraná.

“Eu sempre brinquei muito com a criançada da vizinhança assim, de subir em árvore, de brincar no porão das casas, de fazer casinha. A gente segurava a água da chuva e depois soltava barquinhos. Contanto que eu chegasse na hora do almoço e do jantar, podia fazer o que eu quisesse.” Essa criança, muitas vezes solitária, mas livre, está sempre presente nas suas imagens.

Mari Ines é a quinta dos seis filhos de João e Cidália Piekas. O pai tinha uma pequena serraria e um caminhão e vendia lenha de bracatinga para as padarias de Curitiba. A família criava porcos no terreno e fazia seu próprio salame. A mãe cultivava a horta, que era a base da alimentação dos seis filhos.

Ela conta que descobriu o talento para desenhar na escola rural, na primeira tarefa de sua vida escolar. “Tinha seis anos e pouco, e a professora pediu: ‘Enche essa folha de bolinhas’. Bolinhas. Eu fiz uma folha tão caprichada de bolinhas que ela falou: ‘Eu nunca vi uma folha com bolinhas tão bonitas’.”

Ela percebeu que levava jeito para a coisa, quando preferia não sair para brincar no recreio. Preferia ficar dentro da sala desenhando no quadro. “Aquilo era bom pra mim. Teve uma vez que eu, num recreio, enchi o quadro de rosas. Parecia aquela do Pequeno príncipe. A professora falou: ‘Eu não posso apagar esse quadro’.”

A família se deu conta disso no dia em que o pai comprou um quadro de uma paisagem banal, com cachoeira e árvores, de um mascate. Ela reproduziu o desenho em papel manteiga, e o resultado ficou tão bom, que decidiu enviá-lo para um concurso de desenho da TV Globinho, programa infantil de educação e artes que era destaque da programação da Rede Globo nos anos 1970.

No dia do anúncio dos vencedores, em meio à decepção pelo desenho não ter sido um dos selecionados, a mãe, que tinha ficado encarregada de mandar o material para o concurso, confessou que não mandou, porque não sabia colocar o material no correio.

O pai, que também não tinha muitas letras, porém, entendeu que esse era o caminho da filha e, um dia, chegou em casa uma revista que trazia encartado um curso de desenho do Instituto Universal Brasileiro, por correspondência.

“Uma senhora que morava no caminho para a escola recebia o pacotinho embalado uma vez por mês. Era um prazer abrir aquilo. Vinha uma revista com exercícios novos, e eu mandava para o instituto, em São Paulo. Eles devolviam com uma avaliação e outras tarefas, como: ‘Pinte uma paisagem com um gato’ ”, lembra.

O próximo passo foi, já adolescente, entrar na escola técnica no antigo Centro Federal de Educação Tecnológica do Paraná (CEFET-PR), onde teve aula com os professores Hans Urban, Fernando Bini e Maria Cecília Noronha, que a inspiraram a estudar Comunicação Visual na Universidade Federal do Paraná (UFPR).

A partir dos anos 1990, sua carreira deslanchou no mercado editorial e, hoje, ela é uma requisitada ilustradora de livros infantis, alguns dos mais famosos em parceria com a autora Roseana Murray, mas não só.

Tornar-se professora ficou inevitável e, atualmente, além das aulas de desenho e pintura, ela é professora assistente na UFPR. Toda a sua pesquisa acadêmica – fez mestrado e doutorado em Artes Visuais pela Universidade Federal de Santa Catarina – é sobre educação inclusiva:

“O desenho tem um poder de linguagem ilimitado. A partir disso, comecei a me perguntar: se eu tiver uma criança com deficiência na minha sala – e, mais especificamente, uma criança cega – como vou ensiná-la a desenhar?”.

Desde então, assinou diversas publicações na área, com destaque para o Vocabulário pictográfico para educação inclusiva (Editora Insight, 2013), em coautoria com Maria Lúcia Batezat Duarte.

Mari Ines hoje está expandindo sua pesquisa com crianças cegas para alunos com deficiência motora, mental, cognitiva e sensorial, com foco tanto no lado artístico quanto no comunicacional. Mas a experiência com crianças cegas abriu um continente inexplorado em seu trabalho de ilustração.

Em outubro, ela conquistou o primeiro lugar do Concurso Nacional do Livro Tátil do Instituto Brasileiro de Cegos (IBC), com uma adaptação do livro Sibilda, da escritora curitibana Marilza Conceição.

O projeto que concebeu ao lado do companheiro, o também artista gráfico Naotake Fukushima, tem formato de caixa de papelão com 18 centímetros de altura e permite a fruição sensorial da narrativa por leitores cegos, tanto em braille como em texturas, formas e objetos em relevo.

O livro vai representar o Brasil no concurso internacional Typhlo & Tactus, espécie de Copa do Mundo do setor, em outubro de 2026, em Praga, perto da cidade onde seu avô nasceu.

Os livros táteis são a representação extrema de ilustração poética de Mari Ines. “Eu tenho um texto que não está escrito, um texto elaborado na minha cabeça. Quando a gente trabalha em parceria, sempre tem uma narrativa para seguir, mas, na minha ilustração, eu dou umas fugidas para uma coisa mais minha.”

Talvez ela siga intuitivamente a lição da poeta polonesa Wisława Szymborska, que ganhou o Prêmio Nobel de Literatura em 1996 e que também foi ilustradora.

Para ela, “na língua da poesia, em que se pesam todas as palavras, nada é usual ou normal. Nem uma única pedra e nem uma única nuvem acima dela. Nem um único dia e nem uma única noite depois dele. E, sobretudo, nem uma única existência, a existência de nenhuma pessoa neste mundo”.