Estilete afiado

O artista gráfico Petronio Cunha sintetiza em livro a experiência compulsiva de escrever e desenhar, recortar e colar

Era uma calorenta tarde de verão quando o artista gráfico Petronio Cunha, 84 anos, abriu a porta de sua casa, na Rua da Boa Hora, no Sítio Histórico de Olinda. A primeira coisa que ele fez antes de começarmos a entrevista que deu origem a essa matéria foi buscar o ventilador e colocá-lo na velocidade máxima, o mais perto possível de nós. “Será que vai atrapalhar a gravação da conversa?”, perguntou. Diante do suor já escorrendo, não podia negar a presença do aparelho barulhento.

Ao olhar em volta, as paredes tomadas pelas obras gráficas de Petronio, o pensamento vai tão longe, que o calor fica em segundo plano. O meu e o do artista, para quem os recortes, os vazados, das letras e dos desenhos, surgem ao acaso, como ensinava o automatismo psíquico do surrealismo. Não há estudo, pensamento ou inspiração consciente. Há, isso sim, transpiração. “As mãos me comandam.” Não de forma mediúnica, claro. Petronio não deixa de citar Aloísio Magalhães, nem José Maria de Albuquerque e Melo, muito menos Henri Matisse e Christian Dotremont, poeta e pintor experimental cujos traços são claramente influências de Petronio.

No princípio, não era o verbo que estava lá no caminho do artista, mas, sim, um curso de técnicas de gravura. Foi ela, a serigrafia. “Uma das maneiras de aplicar essa técnica é com uma película plástica que é cortada e impressa. A partir daí, gostei da ideia de cortar e gravar, cortar e gravar, cortar e gravar.” Um amigo chegou a dizer que o que Petronio fazia era xilogravura. “Porque o papel ainda é madeira (risos).”

O acaso também fez sua parte ao colocar Petronio, na época em que morou em São Paulo, diante de uma exposição de um artista japonês que utilizava uma técnica tradicional japonesa chamada kiriê, em que se corta o papel com uma lâmina afiada, formando-se um desenho. “A exposição coincidiu justamente com o que eu estava fazendo no momento”, conta o artista, acrescentando que guarda até hoje o catálogo e um desenho da expô.

Naquela época, o artista usava o papel utilizado para proteger as radiografias. A esposa trabalhava em um hospital e lhe conseguia a matéria-prima facilmente, pois esse papel era descartado após feito o exame. “Ela trazia para meus filhos desenharem. Quando eu vi o papel, me encantei. Era maravilhoso. Maravilhoso. O papel mais bonito que já vi!”, empolga-se.

E assim começou o incansável e prazeroso trabalho de recortar, recortar, recortar, desenhar, desenhar, desenhar, escrever, escrever, escrever. Aponto a parede-cenário de nossa conversa e pergunto se o papel é o das radiografias. “Não”, ele responde. Há muito que não. Desde que descobriu o vinil. “Quando o vinil chegou no mercado, eu fui lá em Boa Viagem assistir a uma palestra de publicidade sobre o assunto. Era um material novo por aqui. Eu gostei porque o vinil pode colar e recortar. O papel, não.”

Mas qual é a vantagem de colar? “O recorte fica aquela coisa frágil, né, que pode se rasgar com facilidade caso não esteja em uma moldura. Olha aqui”, e se levanta, me guiando até a outra sala para mostrar um enorme papel recortado. “Fiz muito isso. Fiz até desse tamanho aqui”, diz, apontando para o vão de uma porta. Grande ou pequeno, o tamanho não importava, e também era escolhido com a ajuda dele, o acaso.

Petronio também criou cobogós. Quando Petronio ver a palavra escrita assim, sem a letra eme, não vai gostar, assim como não gostou quando eu a pronunciei durante a entrevista: “Gostaria que você dissesse combogó, e não cobogó, tá certo? Esse negócio de cobogó é uma convenção que eu não adotei e nem adotarei”.

Então está certo. Pronunciada à moda Petrônio, seguimos a conversa. Eu mencionei que os cobogós eram como seus recortes: vazados. “Vejo o combogó como um elemento gráfico. Cheguei a usar duas vezes, em obras de arquitetura. Sou formado em Arquitetura. Mas de maneira diferenciada da comum, com cada peça diferente uma da outra. Ficava em uma casa de esquina entre a Avenida Rosa e Silva e a Rua da Hora.” Infelizmente, o mural já não existe mais. Foi destruído. Só restaram as fotografias.

Outra oportunidade que se mostrou a Petrônio para usar os cobogós foi em uma igreja ortodoxa pré-vitoriana, em Boa Viagem.Recentemente, foi demolida. “Uma arquiteta me chamou pra fazer um vitral. Eu disse, pô, aqui não tem quem faça vitral. Não temos uma tradição de mão de obra de quem faz vitral. Aí sugeri fazer o fechamento da igreja com duas paredes de combogós, cada um com um desenho, cinco ou seis símbolos da igreja. Ficou belíssima. Foi até premiada”, recorda.

Petrônio também considera o azulejo um elemento gráfico da arquitetura, assim como a grade de ferro, dois materiais com os quais ele já trabalhou. “Como artista gráfico, vejo esses elementos como gráficos. Quando é desenhado, é gráfico. Como esses pisos desenhados, mosaicos, pedra portuguesa. Tenho essa ligação. Arquiteto de formação, o artista gráfico tem uma definição curiosa para a arquitetura: ‘É uma escultura habitável’.”

No azulejo, Petronio mostrou sua inspiração consciente – no pintor francês Henri Matisse. Críticos dizem que talvez tenha vindo no final de carreira seus trabalhos mais inovadores. Integrante do Fauvismo – movimento do começo do século XX caracterizado pelo uso de cores vibrantes e aleatórias, totalmente fora da realidade –, Matisse começou a recortar papéis em gigantescas dimensões e igualmente coloridos, criando tanto abstrações quanto figuras. No início, houve quem criticasse o trabalho, alegando não se tratar de uma obra de arte.

Sempre em pequena escala, o trabalho gráfico – ao menos o feito a mão – só ganha dimensões maiores quando ampliado. Se um trabalho deve ser maior ou menor, novamente o acaso é quem decide, segundo o artista. O acaso e a mão. “É a mão que conduz. A mão e o olhar. Não há explicação. É tão espontâneo que não se explica”, explica Petronio. Ou não explica, porque não há a menor intenção de explicar nada.

É difícil fazer esses recortes assim tão detalhados?, pergunto. “Olha, se é difícil para você, para mim não é. Hoje eu não consigo mais fazer um negócio desse. Primeiro, porque não tenho visão para isso. Porque fazer um negócio desse, eu hoje não consigo fazer. Depois, eu não sei se faria de novo.”

Modo de fazer

Sem método ou rotina, Petronio se senta, pega uma tesoura ou um estilete e começa a cortar. Sem pensar em nada ou ninguém. Nem paisagem, nem ideia. Não carece de conhecimento, muito menos de preparação. Novamente ele repete, quase como se fosse um mantra: “é a mão que comanda. É a mão que comanda”. O resultado, evidentemente, está ligado ao seu universo, ao seu repertório. É como se o artista desse vazão ao inconsciente junguiano, a um sonho cuja interpretação não foi feita por nenhum psicanalista. “Por que eu fiz assim? E eu sei.”

E o trabalho gráfico? “É uma escritura. Existe um termo usado na psicologia que se chama hipergrafia.” Trata-se de um desejo compulsivo de escrever e desenhar. Para o artista, a letra, a palavra, o texto, são tanto um desenho quanto o de qualquer outro objeto, paisagem ou algo abstrato. “É como o alfabeto árabe: eu não entendo, então parecem apenas desenhos para mim. Vou lhe mostrar.” Levanta-se, pega um livro – tem vários – e exibe o que chama de recortes e riscados. Palavras se juntam para fazer sentido e para não fazer sentido nenhum.

Mas a letra A, essa é especial. “Não sei explicar mas tenho um fascínio pela letra A.” E, de novo, não espere uma explicação porque não a terá. Há, porém, uma pista: “Quando estive em uma exposição sobre escritura, sobre alfabetos, em Paris da Unesco, naquele ano e meio em que vivi na França, o catálogo – que tenho até hoje – trazia um A na capa”, conta. Daí, saiu o livrinho composto por uma sentença dita repetidamente à exaustão – só se for a nossa, não do artista: A letra A letra A letra A letra A letra A letra A letra A letra A letra A letra A.

Isso porque, no princípio, não era o verbo, nem a letra; era o desenho. Só o foi na frase de abertura do Evangelho de João, na Bíblia. “No princípio era o fruto”, diz o artista que adora fazer trocadilhos. E fez uma maçã em litogravura, de 1979. O desenho está no livro Recorte gráfico, editado pela Cepe, lançado em 2025 e organizado pelo escritor e jornalista Júlio Cavani. Logo nas primeiras páginas, no manifesto Artes gráficas a mão livre, de 1980, Petronio até dá uma colher de chá e se explica, sobre alfabeto e arte, sobre mão livre e letra de computador, sobre designer e artista: “Estamos envolvidos pelas ‘helvéticas’, ‘grotescas’, as composer, ‘letrasets’, ‘diagramas’, ‘registros’ etc. Esses elementos possuem formas e conteúdos que correspondem a padrões dos países de origem. O que nos compete é transformá-los, no sentido de que assumam o sabor da nossa linguagem”.

Mas, vem cá: o que você faz é arte gráfica, design, comunicação visual… Na verdade, é tudo a mesma coisa, diz o artista. Só muda o termo. Quando não havia computador ou internet, era nas revistas sobre artes gráficas que Petronio se atualizava sobre o que se estava fazendo de mais atual em artes gráficas no mundo, como a norte-americana Graphis Magazine.

Desde que o computador surgiu, e com ele as fontes gráficas (Helvética, Arial, Times New Roman…), Petronio foi obrigado a entrar, por um breve período, no universo da tipografia. Criou o seu alfabeto. “Os artistas gráficos começaram a digitalizar os alfabetos. Mas nunca me interessei por isso. O que sempre me interessou foi a letra como desenho.”

Foi com esse alfabeto que o artista criou cartazes para o departamento de turismo da prefeitura de Olinda, onde trabalhou. Petronio também chegou a trabalhar na Autarquia de Urbanização do Recife (URB), onde também criava cartazes, mapas, além de capas de livros. Era nesses cartazes que Petronio fazia da informação a própria imagem, da própria imagem, a informação.

Foi com o alfabeto que Petronio criou uma linguagem nossa. “O alfabeto é universal mas cada povo cria sua linguagem e sua fala. Somos malcomportados, carnavalescos, vulgares até. Aí está nossa vitalidade. Somos mais à mão livre”, escreveu no mesmo manifesto Artes gráficas a mão livre.”

E a cor? “Preto no branco”, prefere Petronio. Mas admite aqui e ali uma paleta restrita e primária de verde, vermelho, amarelo, além do preto no branco. Além das aquarelas com nanquim, tão delicadas, coloridas, escrituradas e desenhadas, que ele chama de iluminuras. Quem batizou foi o também artista e amigo Adão Pinheiro. Iluminura é como se chamavam os manuscritos da Idade Média que vinham ricamente ilustrados, desenhados, repletos de arabescos, com letras capitulares ornamentadas e algumas vezes até pintadas de ouro e prata. Petronio vai do abstrato ao figurativo. Vai, não, volta. “Prefiro figural. É mais bonito do que figurativo. Figurativo é banal. Figural não é”, corrige.

Se acaso lhe aparece um papel pautado, por que não usá-lo? Não é o que prefere. “A pauta já interfere demais, enquadra, determina.” Mas o acaso, como já vimos, é elemento importante na vida de Petronio, e ele jamais o ignora. Se deixa levar. “Ocorre; é tão espontâneo que não dá para dizer por que isso ou aquilo. O acaso é amigo da criação.”

Definir, portanto, é enclausurar. Mais vale uma definição subjetiva, sem sentido, ou aberta a vários sentidos, para que o espaço não fique em branco. “Minha alma é tatuada.”.

Arquiteto de formação, artista gráfico e ainda por cima olindense desde os anos 1970, não dava para Petronio não ser amigo e um dos fundadores do bloco de Carnaval “Eu Acho É Pouco”. “Já desenhei o estandarte e 14 camisas do bloco”. É carnavalesco? Já foi. Aos 84 anos e com problemas de locomoção, a janela de sua casa é seu camarote.

A memória é seu uber, seu transporte. A mais recente foi das mais felizes: o dia do lançamento do livro. “Estava completamente fora de mim, só chorava, só me emocionava. O Maracatu Nação Camaleão, que é meu vizinho, foi lá (para o Mercado Eufrásio Barbosa, local de lançamento). Entrei na roda e comecei a dançar até não aguentar. Depois me deitei no chão.”

O livro

“Esta flauta que pra mim toca chora a mim sempre tocará mais que som é o lamento de alguém a reclamar.” Com textos de José Cláudio, Luciano Pinheiro, Chico Homem de Melo, Isabella Ribeiro Aragão, Luiz Amorim e Plínio Victor, Recorte gráfico: Petronio Cunha (R$170) é um livro de arte definitivo sobre a obra do artista gráfico, com generosa parte das 300 páginas dedicadas à sua diversidade artística. A obra é dividida em escrituras, recortes, gravuras e desenhos.

Em Campina Grande, Petronio apenas nasceu, em 1941. Não firmou fortes laços com a cidade paraibana. Filho de uma família de tipógrafos, logo veio para o Recife e para Olinda. Já morou em Brasília, São Paulo e Paris.

O arquiteto, pesquisador e professor da UFPE Luiz Amorim escreve que a obra em azulejo do artista é distinta de sua arte gráfica pelo caráter urbano. Amorim define os temas azulejados como arte concreta e Op Art. “Jovem arquiteto, conheci Petronio Cunha em ritmo, textura, tipos, acaso e rara capacidade de aproximar meios e linguagens artísticas.Nunca mais o perdi de vista.”

Com foco em tipografia, a designer, pesquisadora e professora do departamento de Design da UFPE, Isabella Ribeiro Aragão, também assina texto do livro, onde ressalta a pluralidade criativa e sua habilidade como letrista. “A mesma mão que escreve, desenha e recorta. Se para muitos esses atos são bem diferentes, para ele não é.” É isabella quem cita outras influências importantes para Petronio, como os movimentos artísticos, letrismo e hipergrafia. O também designer, pesquisador e professor da USP, Chico Homem de Melo, já declarou que o artista gráfico “bebe na fonte da xilogravura popular e, ao mesmo tempo, a transforma a partir da cultura erudita”. Seu “estilete é afiado.”