Com mais de 40 anos de carreira literária e mais de 70 livros publicados, Hildeberto Barbosa Filho é um nome consagrado nas letras paraibanas e nordestinas. Deveria também ser nome nacional, para além de nichos especializados. Mas o Brasil é assim. As culturas regionais e os seus intelectuais por si sós não logram um reconhecimento mais amplo, se permanecem à margem ou distantes do velho eixo Rio-São Paulo, monopolizador das oportunidades e premiações. Tampouco repercute fora de suas fronteiras, que é como se o regional não existisse para o país como um todo – e, no entanto, existe, basta olhar.
Não sei se isso é coisa de povo subdesenvolvido ou se ocorre o mesmo em todo lugar, mas de uma coisa sei: toda cultura nacional, para ser autêntica, tem de passar antes pelo local e pelo regional, colhendo aqui e acolá os valores e as contribuições respectivos, para, com isso, montar o painel amplo da nacionalidade. Se não for assim, cai-se no perigo de confundir os modismos eventuais de uma ou duas metrópoles cosmopolitas com o que se faz (e se vive) no restante do país. Definitivamente, por si sós, nem o Leblon e nem a Avenida Paulista representam o Brasil. E foi exatamente para ressaltar, com o exemplo, a importância do regional que Gilberto Freyre permaneceu a vida toda no Recife, irradiando daí a sua luz para o mundo. Viva Apipucos!
Hildeberto nasceu em 9 de outubro de 1954, em Aroeiras, cidade do cariri paraibano, por ele chamada poeticamente de “comarca das pedras”. Saiba o leitor que o Cariri, vizinho do sertão, compartilha com este uma certa aspereza na paisagem; não é, portanto, uma terra fácil: nela, os homens e as mulheres têm de lutar com bravura para dela extrair o que ela pode dar; é, pois, uma terra que marca profundamente os que a habitam, principalmente na infância, o que justifica e explica sua forte presença na poética hidelbertiana, que, pela qualidade, a partir da aldeia, atinge uma inequívoca dimensão universal. Por isso, desbravar a vida de Hildeberto é, antes de tudo, adentrar a geografia de Aroeiras, sua terra-mãe, seu “condado mítico”, com sua paisagem severa, de pedra, cuja beleza guarda-se especialmente para aqueles que, nativos, sabem descobri-la, amorosamente, na solidão fecunda de seus descampados e serras.
Parafraseando Drummond, que dizia que era de ferro, no poema “Confidência do Itabirano”, Hildeberto poderia perfeitamente escrever versos como: “Alguns anos vivi em Aroeiras./ Principalmente nasci em Aroeiras./Por isso sou triste, orgulhoso: de pedra./Noventa por cento de pedra nas calçadas./Oitenta por cento de pedra nas almas./E esse alheamento do que na vida é porosidade e comunicação”. Sim, porque o paraibano tem muito do poeta mineiro, não só em sua poesia, mas também na personalidade reservada (e até arredia) e na maneira de ser e estar no vasto mundo.
É homem de grandes silêncios, de ensimesmamentos perscrutadores, de uma justificada altivez, orgulho das origens fartamente proclamadas e de uma melancolia que tem muito a ver com a pedregosa comarca, o Cariri e a caatinga de sua infância, mas também, observo, com um sentido trágico da vida, para usarmos a expressão tão cara a Unamuno. Em suma, podemos dizer que o que Itabira do Mato Dentro foi para Drummond, Aroeiras, em certa medida, é para Hildeberto, também ele um gauche abençoado por um anjo torto, quando nasceu, e aí reside todo um possível viés interpretativo de sua pessoa e de sua obra (principalmente a poética), a ser explorado pelos estudiosos.
Essa presença decisiva da paisagem da infância em nosso poeta, ele próprio a proclama quando confessou ao seu biógrafo José Nunes: “Carrego um Cariri na memória, cultivo um patrimônio de sol, de pedra e poeira, trilhando as escarpas sombrias de uma terra árida e adusta que me habita os córregos do sonho e me alimenta a fantasia e a saudade”. Não poderia ser diferente.
Para sempre marcado pelo cenário e as lembranças dos primeiros anos, ele cumpriu o destino inevitável dos meninos interioranos de seu tempo e condição: seguiu para estudar inicialmente em Campina Grande, com suas frias noites acariciantes, onde fez o ginasial e o clássico, e, depois, para João Pessoa, com seus tépidos ventos marinhos, onde se graduou em Direito e, depois, em Letras, casou-se e fincou as raízes existenciais e profissionais da maturidade. E foi no curso de Direito que o conheci, faz meio século, e junto a outros amigos da literatura, como Cleanto Gomes Pereira, formamos um pequeno grupo quase adolescente de devotos dos livros e dos autores, prenunciando, no caso dele, a futura opção exclusiva pelo universo literário.
Sua estreia se deu na área da não ficção, em 1981, com um trabalho intitulado Aspectos de Augusto dos Anjos, de 1981, seguido por duas publicações de 1985, A convivência crítica e Ascendino Leite: a paixão de ver e de sentir. Em livro publicado, o poeta só surgirá em 1986, com A geometria da paixão, magro volume de 70 páginas e 38 poemas. E aí ele anuncia o seu plano poético, já com a voz personalíssima que se confirmará nos livros seguintes:
Projeto
Sim, tentarei a poesia.
A poesia possui a dimensão
que me preenche.
Mundo só muito além
do estúpido.
Seu reino tem o gosto
da humana condensação.
Serei amadurecido...
Em equilíbrio lúcido e lúdico,
estarei acima de qualquer
solidão.
Amadurecido e armado,
conversarei comigo.
De fato, ele tentou a poesia e se encontrou. E amadurecido foi desde sempre. E sério, responsável, taciturno até. Nunca frívolo, nunca alegre além da conta, mas isso sem prejuízo da amena e prazerosa convivialidade.
Crítico, memorialista, cronista, pensador e professor, Hildeberto é antes de tudo poeta. O sentimento poético é o seu guia cotidiano, a atitude poética é o seu gesto de cada instante. Vive da poesia e para a poesia, como tem de ser para aqueles que receberam esse dom, talvez uma maldição. À poesia tem dedicado a maior parte de seus livros, atualmente contados às dezenas. É uma fidelidade total a um chamado que vem de longe, desde os anos juvenis. Não caberia aqui analisar individualmente cada livro seu – e nem teria eu competência para tal. Mas algumas observações de leitor comum que sou, isso posso atrevidamente fazer – e devo, para louvar o seu valor literário, de resto já reconhecido por muitos, dentro e fora da academia e da aldeia.
Algumas presenças em seus poemas são incontornáveis. A chuva, por exemplo, que tanto encanta os sertanejos. E que lhe fez escrever estes formidáveis versos do poema “Enterro”: “Na minha Comarca/chovia./A terra se vestia com a blusa/do domingo”. Que construção bonita! “A terra se cobria com a blusa do domingo”. Se houvesse dúvida quanto ao seu estatuto de poeta, bastariam estes versos para legitimá-lo como um bardo maior. A outra presença é a das musas, ficcionais ou não, de nomes e feitios vários, as quais reduzo à maior de todas, maior por muitos e altos motivos e não só por tempo de serviço: Vera, sua companheira de toda a vida, a que traz a verdade no próprio nome, encarnação do amor que simultaneamente é chama e é eternidade, na complexidade infinita dos afetos, feitos, como ele mesmo diz, de cóleras e colírios. A ela, pois, minha homenagem.
Há também a sombra da morte, destino de todos os viventes. Nenhum escritor que se preze pode ignorá-la. Principalmente quando o outono se anuncia ou chega. Hildeberto a enfrenta de diversos modos e com diferentes sentimentos. Ora filosoficamente resignado, ora nem tanto. Em alguns poemas, convocando-a como caminho de paz e esquecimento. Considera-a uma parceira. Ele vê beleza no fim de todas as coisas. Mas também escreve, cauteloso: “...quem sabe alguma coisa da morte?”.
O mestre paraibano Chico Viana observou com argúcia: impossível é não notar “o quanto há de metalinguagem em seus escritos”. Sim, porque, como também disse Chico, ele é “um leitor ávido e um pensador do fenômeno literário”. Qualidades que o acompanham desde a mais tenra juventude, quando nos encontramos. O fato de também ser crítico literário facilita-lhe pensar sobre a poesia e o fazer poético. Os saberes eruditos fornecem-lhe o instrumental teórico para a decifração de seu ofício.
CONTEÚDO NA ÍNTEGRA NA EDIÇÃO IMPRESSA
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