Tezza lê o romance "Sidarta" de Hesse

“Esse é um bom momento para desligar o celular e ler Herman Hesse”, diz Cristovão Tezza sobre autor alemão que inspirou peça do Festival de Curitiba

Mais de cem anos depois da sua publicação, em 1922, o romance Sidarta, do alemão Hermann Hesse, ainda pode dar respostas às inquietações humanas, principal as contemporâneas. É o que garante o premiado escritor curitibano Cristóvão Tezza, autor que viveu intensamente a contracultura dos anos 1960 e 1970, período em que a obra de Hesse exerceu sua maior influência.

“Tudo o que Hermann Hesse escreveu é interessante”, diz Tezza, em entrevista à Revista Pernambuco. “E ‘Sidarta’ é uma luva perfeita para a angústia contemporânea. Eu acho que, ao contrário do que parece, o advento da internet, com a sua revolução descentralizadora, destruiu o que se costumava chamar de ‘vida interior’. Então, esse é um bom momento para desligar o celular e ler Herman Hesse.”

O escritor Hermann Hesse em sua mesa de trabalho. Foto: Arquivo Martin Hesse

O romance de Hesse, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura de 1946 e conhecido por obras como Narciso e Goldmund e O lobo da estepe, é a inspiração para o espetáculo homônimo Sidarta, em cartaz na Mostra Lucia Camargo do Festival de Curitiba. As sessões acontecem nos dias 9 e 10 abril, às 18h30, no Teatro José Maria Santos.

O autor alemão escreveu Sidarta depois de fazer uma peregrinação pela Índia, país em que seus avós e pais haviam atuado como missionários. O livro narra a jornada espiritual de um jovem que tem o mesmo nome e quase espelha a história de Buda (Sidarta Gautama) e que, da mesma forma, abre mão de um reino inteiro de luxos para empreender uma longa caminhada em busca do sentido da vida.

“Na época em que convivi na comunidade de teatro do Rio Apa, a obra inteira do Hesse tinha a força de uma Bíblia”, conta Tezza. “Talvez a mensagem central seja a ideia de que precisamos recuperar nossa espiritualidade ‘autêntica’, desprezando os sistemas religiosos e morais calcificados. Em Herman Hesse, assim como na contracultura dos anos 60, o Ocidente encontra nas religiões e movimentos místicos do Oriente pré-cristão uma espécie de ideário regenerador.”

A Rio Apa foi uma comunidade cultural fundada pelo escritor paranaense Wilson Rio Apa em Antonina, nos anos 60. Bem ao estilo “paz e amor, bicho”, ela reunia hippies e mochileiros em torno da ideia de teatro revolucionário e cultura contestatória. Na época, Wilson foi uma espécie de “guru” para Tezza, que anos depois venceria o Prêmio Portugal Telecom de Literatura e que, recentemente, lançou Visita ao pai, livro que é uma investigação do seu passado familiar.

“Os anos 1960 deixaram marcas profundas nas décadas seguintes. Em várias áreas, como a ecológica, aquele ideário cultural triunfou, ainda que sob forte pressão política. Os direitos do indivíduo, que eram uma expressão rebelde ‘contra o sistema’, hoje estão perfeitamente institucionalizados e oficializados pelo próprio Estado”, analisa Tezza.

“Movimentos culturais não têm o peso centralizado e objetivo dos movimentos políticos. Eles são ondas fortes, porém dispersas, que vão se entranhando na vida cotidiana. Quando você percebe, o mundo já mudou.”