200 anos do Diário de Pernambuco com lançamento do “Livro do Nordeste II”

Evento será realizado na sede da AIP, com lançamento do livro que analisa a presença do Diário de Pernambuco no cotidiano nordestino

André Heráclio, que coordena o projeto, também participa do livro com o artigo “Gilberto Freyre e o Diário de Pernambuco”.
André Heráclio, que coordena o projeto, também participa do livro com o artigo “Gilberto Freyre e o Diário de Pernambuco”.

Os 200 anos do Diário de Pernambuco serão comemorados nesta quinta-feira, dia 26,  com uma homenagem dupla: ao jornal bicentenário e aos 100 anos de publicação do "Livro do Nordeste", coletânea de artigos de intelectuais da época, reunidos sob a orientação do jovem Gilberto Freyre. A publicação é considerada o pontapé inicial para o Movimento Regionalista.

A comemoração acontecerá a partir das 19h, na sede da Associação de Imprensa de Pernambuco (AIP), com o lançamento de uma obra que se propõe a dar continuidade ao livro coordenado à época pelo sociólogo, reconstituindo os últimos 100 anos. Organizado por André Heráclio do Rêgo e Múcio Aguiar, o “Livro do Nordeste II”, portanto, é uma tentativa de reconstituição da trajetória do Diário de Pernambuco nos seus duzentos anos. Nos cem anos tratados pelo primeiro “Livro do Nordeste”, mas sobretudo nos cem anos que vão de 1925 a 2025.

Na introdução, os organizadores esclarecem: “Esta é a coletânea que aqui apresentamos ao leitor: vinte ensaios de especialistas renomados, um para cada dez anos de existência do Diario de Pernambuco. O objetivo, como já dito, foi o de propiciar uma retrospectiva não somente dos últimos cem anos, mas de todo o período de atuação do mais antigo periódico de língua portuguesa em circulação, bem como o de, em alguns casos, fazer prognósticos para o futuro, nos mais diversos setores. E também o de homenagear três entidades fundamentais: o Diario de Pernambuco, Gilberto Freyre e o Nordeste.”

O livro mescla novos e antigos ensaios, todos pertinentes à análise dos últimos 100 anos. O primeiro deles,  “O centenário de um diário americano”, de Manuel de Oliveira Lima, publicado no jornal argentino La Prensa, em 28 de fevereiro de 1926, abre a publicação por ser um resumo do próprio “Livro do Nordeste”, publicado na forma de artigo. Nele, o autor destaca os artigos do mestre português Fidelino de Figueiredo, sobre a língua portuguesa e sobre a cooperação entre Brasil e Portugal, e o texto de Gilberto Freyre, seu “quase” discípulo, sobre a vida social no Nordeste, em que o futuro mestre de Apipucos avança algumas das ideias seminais de sua obra.

A presidente da Academia Pernambucana de Letras,  Margarida Cantarelli, no segundo ensaio da coletânea, aborda o “Diário de Pernambuco: um jornal como espaço de liberdade”.

O tema liberdade é enfatizado também no terceiro artigo, de autoria de Marcos Galindo, intitulado “O Diário de Pernambuco: um legado e sua relevância histórica”. Nele, o autor mostra como o jornal realizou uma cobertura ampla da Revolução Praieira, em 1848 e 1849, e, que desde a década de 1850 declarou-se antiescravista.

Assinado por Múcio Aguiar,   o quarto ensaio,  “Um século de jornalismo em Pernambuco”,  retoma o artigo “Um século de jornalismo em Pernambuco”, de Manuel Caetano, publicado no Livro do Nordeste de 1925.  Ambos  defendem a salvaguarda do legado cultural e histórico de periódicos com mais de cem anos de circulação impressa em Portugal e no Brasil. Entre eles, o Diário de Pernambuco, o mais antigo em circulação contínua no hemisfério sul e em países de língua portuguesa. Ele se soma a 54 outros jornais de Portugal e do Brasil com essa característica.

O quinto artigo da coletânea, assinado por Mario Helio Gomes, é intitulado “Um século de vida literária em Pernambuco”. No texto, ele retoma, em alguma medida, o artigo da edição de 1925, com o mesmo título, de autoria de França Pereira. No ensaio, o autor comenta que, em 1925, ano do primeiro Livro do Nordeste, a vida literária em Pernambuco girava em torno de um debate entre os velhos e os novos; e que os mais modernos e inovadores poderiam então ser taxados de reacionários e passadistas, porque fixavam-se com gosto nos valores clássicos, tradicionais e regionais.

O sexto ensaio da coletânea, assinado por Marcus Prado, mostra a importância do Diário na divulgação da vida literária pernambucana. Nele se enfoca o Suplemento Literário, também chamado Panorama Literário, que foi a primeira iniciativa, na imprensa diária do Brasil, de suplemento dedicado à literatura, por iniciativa de Assis Chateaubriand e a cargo inicialmente de Aníbal Fernandes, no início da década de 1940.


Mãos gigantes

Escrito por Marcelo Arruda Firmo da Silva, “Memórias de mãos gigantes” é o sétimo ensaio do livro. Nele, o autor aborda dois personagens: Gilberto Freyre visto por um seu grande intérprete, Edson Nery da Fonseca. No olhar de Nery, Freyre possuía todo um conhecimento e uma amplitude de visão capazes de influenciar e de exercer carisma e sedução sobre vários artistas e intelectuais, a começar por ele próprio.

O mestre de Apipucos, em suas relações com o jornalismo e sobretudo com o Diário de Pernambuco, é também o tema do oitavo ensaio, de autoria de André Heráclio do Rêgo e intitulado “Gilberto Freyre e o Diário de Pernambuco”.

O relacionamento do mestre de Apipucos com o Diário de Pernambuco era tão intenso quanto a sua relação com a sua cidade natal, o Recife, e com a sua vizinha, Olinda, tema do nono ensaio da coletânea, também de autoria de André Heráclio do Rêgo e intitulado “Gilberto Freyre, o Recife e Olinda nas páginas do Diário de Pernambuco”. O poeta pernambucano Mauro Mota, há algumas décadas, comentou que não haveria “uma relação mais íntima entre um homem e uma cidade como esta, entre Gilberto Freyre e o Recife”.

O décimo ensaio continua tendo Gilberto Freyre como tema, desta vez na companhia de outro ícone da cultura brasileira, e se intitula “Dois personagens na cultura brasileira: Gilberto Freyre e Ariano Suassuna”. Seu autor, não por acaso, tem credenciais para tratar do tema. Trata-se de Gilberto Freyre Neto, neto do outro Gilberto, mas também sobrinho de Ariano Suassuna. 

O neto e sobrinho escreve sobre dois dos maiores personagens que o Nordeste já ofereceu ao Brasil: o avô dedicado à civilização do açúcar, o tio à civilização do couro e à pecuária. Cada um deles criou seu próprio imaginário e sua própria mitologia. 

O décimo primeiro artigo, de autoria de Lincoln de Abreu Penna, trata de outro grande personagem, também jornalista, Barbosa Lima Sobrinho, e se intitula “O vigor das convicções: Barbosa Lima Sobrinho, um nacionalista”. 

“Um século de relações internacionais”, sob a responsabilidade do historiador e diplomata Manuel de Oliveira Lima. Com esse mesmo título, a que se acresceu a expressão “1925–2025”, a presente edição apresenta o artigo do também diplomata e cientista social Paulo Roberto de Almeida.

Com efeito, cem anos depois da avaliação positiva de Oliveira Lima sobre a diplomacia do Império e a do início da República, as fronteiras já não constituem um problema diplomático: os problemas atuais são outros, sobretudo no que concerne ao recuo do multilateralismo instaurado pela ONU em 1945. Sob o aspecto regional, a diplomacia brasileira da atualidade não pretende sustentar qualquer hegemonia no Prata, mas promover e liderar a formação de um espaço econômico integrado na América do Sul. 

Entre 1925 e 2025 o Brasil venceu o atraso agrícola e se industrializou, mas recentemente voltou à condição primordial de produtor de commodities, ainda que com grande modernização.

O ensaio seguinte, de autoria de João Palmeiro, e intitulado “Memória do mundo”, retoma de certa forma o artigo de 1925 do também português Fidelino de Figueiredo sobre “Um século de relações luso-brasileiras”; mas coloca uma certa ênfase na questão do Nordeste como plataforma maior da cooperação para o desenvolvimento, sustentado numa língua única e flexível.

Nesse sentido, a cooperação cultural entre Portugal e Brasil no século XX girou em torno da língua portuguesa, que Camões contribuiu para que se tornasse uma estrutura global, promotora do desenvolvimento e do bem-estar econômico, e cujo papel digital revela-se uma ferramenta eficaz na promoção de negócios, no desenvolvimento científico e na inovação.

Dom Pedro

O décimo quarto ensaio, de autoria de Paulo Henrique Fontes Cadena e intitulado “O Nordeste de Dom Pedro II” retoma um dos três eixos fundamentais desta coletânea e soma, aos dois primeiros, o Diário de Pernambuco e Gilberto Freyre, o terceiro, relativo ao Nordeste.

O tema do Nordeste continua no ensaio seguinte, o décimo quinto, de autoria de José Nivaldo Junior e intitulado “1925–2025 — um século de política no Nordeste”, que narra circunstanciadamente a evolução política nordestina desde o fim da República Velha até a atualidade, bem como faz prognósticos para o futuro.

O décimo sexto ensaio, de autoria de Carlos André Silva de Moura, trata de outro aspecto da nordestinidade: o dos santos do Nordeste, tais como descritos nas páginas do Diário de Pernambuco. Nesse sentido, Gilberto Freyre demonstrou a importância da aproximação entre as religiões e a cultura na sociedade brasileira, especialmente no caso do catolicismo, que foi o cimento de nossa unidade.

 A proposta do artigo é analisar a presença de “santos” no Diário de Pernambuco, não só os oficialmente reconhecidos pela Igreja Católica, mas também aqueles legitimados pela voz popular. Escolhidos pela legitimidade dos fiéis, com a bênção ou não da Igreja Católica, entre os muitos santos estão: padre Inácio da Silva Rolim, padre José Antônio Maria Ibiapina, frei Caetano de Messina, dom Vital Maria Gonçalves de Oliveira, padre Cícero Romão Batista, Maria Magdalena do Espírito Santo de Araújo, frei Damião de Bozzano, Maria Rita de Sousa Brito Lopes Pontes — a santa Dulce dos Pobres —, irmã Adélia Teixeira de Carvalho, Benigna Cândida da Silva e dom Hélder Câmara.

Assinado por Gustavo Maia Gomes, o décimo sétimo ensaio publicado na coletânea aborda o tema “Secas e desertificação”, que também tem o Nordeste como pano de fundo e retoma, de certa forma, o artigo de 1925 intitulado “As secas do Nordeste (1825–1925)”, de autoria de Tomás Pompeu Sobrinho. Num texto irônico e interessante, o autor se propõe a analisar a seca e, em menor medida, a desertificação do Nordeste a partir das páginas do Diário de Pernambuco. Nesse contexto, a primeira menção à seca como substantivo ocorreu em 1845, na condição de estiagem prolongada causando fome e morte de gente e de gado e destruição de lavouras.

O ensaio seguinte, denominado “Sabores do Nordeste” é assinado por Maria Lecticia Monteiro Cavalcanti. Especialista no assunto, a autora informa que, para Gilberto Freyre, a arte da cozinha é a mais brasileira das nossas artes, aquela que mais revela o gênio da raça. E que Lévi-Strauss definiu o grau de civilização dos povos a partir dos hábitos alimentares — do cru para o cozido.

Letícia explica que o alimento se converte em linguagem e ganha um valor próprio, como parte da memória social. É nesse contexto que se inserem os sabores do Agreste, do Sertão e da Zona da Mata. Os dois primeiros, semelhantes. O terceiro, diferente, tendo por base o açúcar. Observe--se, sobre esta última macrorregião, que nas casas-grandes dos engenhos surgiu uma das mais importantes doçarias do mundo, pela comunicação entre o cristal do açúcar, o sabor selvagem das frutas tropicais e o alimento básico dos índios, a mandioca.

O décimo nono artigo, de autoria de Bernardo Peixoto e intitulado “Os novos mascates”, retoma em certa medida o artigo de Samuel Hardman para o Livro do Nordeste de 1925, com o título “Cem anos de agricultura e pecuária no Nordeste”. Trata-se de amplo estudo sobre a evolução econômica nordestina entre 1925 e 2025, com ênfase no setor terciário, que é o constituído pelos “novos mascates”.

A coletânea encerra com um ensaio de Thales Cavalcanti Castro e Maria Vitoria Claudino, dedicado ao “Complexo Industrial Portuário de Suape: o hub logístico do Nordeste brasileiro”. Esse complexo é o porto público mais estratégico do Nordeste, e está entre os dez portos públicos do Brasil com melhores opções de comércio marítimo e maior representatividade comercial.



SERVIÇO:

“Livro do Nordeste II”

Organização de André Heráclito Rêgo e Múcio Aguiar

Lançamento: hoje,  dia 26 de março,  às 19 horas

Local: Associação da Imprensa de Pernambuco

Av. Conde da Boa Vista 1424 – Boa Vista, Recife

Valor R$ 150,00

Informações: 3090-3431