Morre Raimundo Carrero, aos 78 anos

Premiado escritor pernambucano faleceu, nesta terça-feira (16), em decorrência de um câncer, deixando legado na literatura e no jornalismo; velório acontece na APL das 12h às 15h

O escritor Raimundo Carrero morreu aos 78 anos, na madrugada desta terça-feira (16), no Recife. A causa da morte foi um câncer, segundo nota divulgada pela família. O velório acontece na Academia Pernambucanas de Letras, da qual era membro, no bairro das Graças. O corpo será velado entre 12h30 e 15h. De lá, segue para o Cemitério de Santo Amaro, onde será sepultado, às 16h. A morte de Carrero coincide com a data de nascimento do escritor Ariano Suassuna. 

Logo cedo, na sua página do Instagram, a governadora de Pernambuco Raquel Lyra lamentava a morte do escritor. “Em sua memória e em reconhecimento a sua trajetória, Pernambuco terá luto oficial de três dias. A minha solidariedade à família, amigos e inúmeros leitores neste momento de despedida”.

A presidente da Academia Pernambucana de Letras, Margarida Cantarelli, era próxima do escritor. E lembra que além do talento de escritor, outra característica de Carrero era a generosidade. “Fazia suas oficinas para que outras pessoas que tinham dom da escrita pudessem aprimorar, melhorar sua produção. Ajudou a criar gerações de escritores. Era um professor.”

O escritor Cícero Belmar, colega seu da APL também destaca sua maestria. Lamentou a morte do autor: “Ele foi fundamental para provocar, para incentivar, para orientar as pessoas que viam na literatura a possibilidade de vivenciar a arte. Ele foi um professor, no sentido mais profundo que ele significa na literatura.”

Marcelino Freire foi aluno da primeira turma de sua oficina literária: “Ele me pegou pela mão. Ele deu chão para meus textos. Sempre disse a ele o quanto o admirava e o quanto eu era grato por sua existência em minha vida. E o quanto ele era inspiração para minha caminhada.”

“Perco um grande amigo, estou com o coração partido, estou desarvorada (...) A primeira vez que eu vi, ele estava no plantão do jornal, quando ele ainda era repórter de polícia. E eu fui lá levar uns poemas para ele ver. Eu devia ter menos de 17 anos, sabe? Ele não só leu, deu boas risadas, brincou, disse coisas sobre os meus poemas e desde lá nós fizemos uma amizade que só cresceu a vida inteira”, declarou a poeta Cida Pedrosa.

O jornalista e escritor Xico Sá também se posicionou: "Aqui no frio miserável de São Paulo, recebo a notícia triste bem cedo, em uma mensagem do amigo Marcelino Freire. Bateu aquele esmorecimento, aquela fraqueza na alma que só um acontecimento como esse é capaz de gerar. Um pouquinho depois, relembrei também a alegria que foi conhecer e ler Raimundo Carrero. Amo quase todos os seus livros, mas, como lhe confessei, em um porre na Madalena, tenho um amor especial por Sinfonia para vagabundos.”

O escritor e poeta José Mário Rodrigues, outro membro da APL, fez questão de lembrar das coincidências entre sua trajetória e a de Carrero. “Ele tinha uma idade próxima à minha. Veio do Sertão na mesma época que eu vim de Garanhuns para o Recife. Participou da Geração 65. Fez parte do movimento armorial e era próximo de Ariano Suassuna como eu. Chegou a me mostrar alguns dos primeiros originais dele. Era uma pessoa de talento, com um enorme poder de diálogo. Nasceu para ser romancista. Era totalmente voltado para a literatura. Era um homem solar.” 

Especialista em teoria literária e professor da Universidade Federal de Pernambuco, Anco Márcio Tenório Vieira escreveu uma nota em homenagem ao escritor sertanejo: “Com Raimundo Carrero morto, morre uma das vozes literárias mais potentes da sua geração. Do ponto de vista formal, a obra de Carrero é uma aula exemplar para aqueles que desejam se aventurar na vida literária. Porém, não basta que uma obra seja formalmente bem-realizada, faz-se necessário que ela também se componha de carne e de espírito humano. E essa carne e esse espírito humano urdem cada um dos seus romances e contos. Em Carrero, o dizer e o como dizer são irmãos siameses. Um precisa do outro para traduzir personagens atormentados pela fé, pela angústia, pelo desencontro e pela miséria do existir, pelo medo da dor, da doença e da morte.”

A cineasta Lucy Alcântara, que produziu o documentário Carrero, o áspero amável e desenvolveu uma forte ligação com o escritor, enviou uma nota-despedida: “Carrero, meu querido amigo e parceiro, você é Imortal. Na APL, como escritor, eternamente. Na minha vida cinematográfica sua ocupação foi, é e será constante: prosador em Geração 65, aquela coisa toda, ator e autor em A minha alma é irmã de Deus e objeto fílmico em Carrero, o áspero amável. No meu pensamento, como corroteirista, sua presença continuará em nossa parceria no longa Quarteto Áspero e na minissérie Os Ásperos. No meu coração, sua amizade se perpetuará.”

O escritor Ronaldo Correia de Brito lembrou que o amigo além de ser um dos maiores autores contemporâneos, era também um mestre. “Carrero é uma referência como escritor para toda uma geração contemporânea dele e para toda uma geração formada por ele. Além de um escritor brilhante, um dos maiores escritores contemporâneos do Brasil, ele formou em suas oficinas literárias gerações de escritores, a exemplo de Marcelino Freire, Wilson Freire, só para citar alguns nomes.”

Incansável e singular

Ao longo de mais de cinco décadas de produção literária, Carrero construiu uma obra robusta. Embora frequentemente associado ao universo do Sertão nordestino e ao Movimento Armorial idealizado por Ariano Suassuna, sua literatura nunca se limitou à representação regional. Seus romances mergulham em territórios mais inquietantes: a culpa, a loucura, o desejo, a violência, a fé e os abismos da condição humana.

A relação de Carrero com a literatura começou cedo. Em entrevistas, o escritor costumava recordar que seu encontro com os livros aconteceu ainda na juventude, quando teve acesso a uma coleção deixada por um irmão. A descoberta da leitura abriu uma janela para mundos que ultrapassaram as fronteiras do Sertão.

Mais tarde, já vivendo no Recife, estudou Ciências Sociais na Universidade Federal de Pernambuco e passou a frequentar círculos intelectuais que reuniam artistas, jornalistas e escritores. Foi um dos expoentes da Geração 65, que incluía nomes como Jaci Bezerra, Ângelo Monteiro, José Mário Rodrigues e outros. Foi nesse ambiente que conheceu Ariano Suassuna, amizade que marcaria profundamente sua trajetória. Suassuna enxergou no jovem escritor um talento raro e o incentivou a desenvolver uma literatura conectada às raízes culturais nordestinas sem abrir mão da ambição estética.

Na década de 1970, Carrero participou do Movimento Armorial, projeto cultural que buscava criar uma arte erudita brasileira inspirada nas tradições populares do Nordeste. Mas, embora compartilhasse desse universo simbólico, logo ficou claro que sua escrita seguiria um caminho próprio. Se em Suassuna predominavam o humor, o encantamento e a celebração das matrizes populares, em Carrero surgia uma atmosfera mais densa, marcada por conflitos interiores, tensões psicológicas e uma permanente investigação dos limites entre sanidade e desvario.

Seu romance de estreia, A História de Bernarda Soledade: A Tigre do Sertão, publicado em 1975, já revelava muitas das características que se tornariam marcas de sua obra. Ao longo dos anos, vieram livros como Sombra Severa, Viagem no Ventre da Baleia, Maçã Agreste, Somos Pedras que se Consomem, O Amor Não Tem Bons Sentimentos, entre muitos outros. Em 2000, foi agraciado com o Prêmio Jabuti na categoria contos pelo livro As sombrias ruínas da alma. Em 2010, venceu o Prêmio São Paulo de Literatura pelo romance Minha alma é irmã de Deus.

Em 2025, publicou um romance de tom memorialístico e autobiográfico, A vida é traição, onde relembra a infância em Salgueiro, a morte da mãe, sentimentos que lhe afligiam no cotidiano. Era como se vislumbrasse que era preciso resgatar e registrar o passado. 

Em todos os seus livros, os personagens parecem viver à beira de um precipício emocional. São homens e mulheres consumidos por paixões extremas, por culpas ancestrais, por fanatismos religiosos ou por impulsos destrutivos que desafiam qualquer tentativa de explicação racional.

Por isso, muitos críticos observam que o verdadeiro cenário dos romances de Carrero não é o sertão físico, mas o sertão da alma. Embora suas narrativas frequentemente recorram à paisagem nordestina, o interesse do escritor está menos na descrição geográfica do que na exploração dos conflitos humanos. Seus personagens carregam feridas abertas, vivem cercados por fantasmas e enfrentam dilemas que transcendem qualquer contexto regional. O Sertão, em sua literatura, transforma-se numa metáfora do próprio ser humano, um espaço de solidão, mistério e combate interior.

Essa singularidade levou Carrero a ser comparado a autores como Juan Rulfo. Como ele, desenvolveu uma escrita que rejeita o realismo convencional. Em seus livros, o tempo nem sempre segue uma linha reta, os narradores podem ser pouco confiáveis e a realidade se mistura constantemente ao sonho, à memória e à alucinação. A linguagem assume papel central, tornando-se não apenas instrumento de narração, mas também matéria-prima da própria experiência literária.

Jornalismo

Paralelamente à carreira de escritor, Carrero construiu uma sólida trajetória no jornalismo. Trabalhou durante décadas no Diario de Pernambuco, onde atuou como repórter, crítico literário e editor. Essa experiência contribuiu para ampliar seu olhar sobre a sociedade brasileira e consolidou seu papel como importante articulador cultural.

Ao mesmo tempo, dedicou-se intensamente à formação de novos autores. Sua oficina de criação literária, criada no Recife, tornou-se uma referência nacional e ajudou a revelar diversos escritores que mais tarde conquistariam reconhecimento no cenário literário brasileiro.

Em 2010, a vida de Raimundo Carrero sofreu uma transformação dramática. O escritor foi vítima de um acidente vascular cerebral. Para alguém cuja existência sempre esteve profundamente ligada à palavra, o desafio de continuar a escrever passou a ser maior. O episódio acabou se convertendo também em matéria literária. Em vez de se afastar da escrita, Carrero transformou a experiência da fragilidade em reflexão artística. O romance O senhor agora vai mudar de corpo nasceu desse período e é considerado por muitos leitores uma das obras mais emocionantes de sua trajetória, justamente por abordar a vulnerabilidade humana sem sentimentalismo, mas com rara intensidade.

O reconhecimento à sua produção veio por meio de importantes premiações. Ao longo da carreira, recebeu distinções como o Prêmio Jabuti, a mais tradicional honraria literária do país, além de troféus da Associação Paulista de Críticos de Arte e do Prêmio Machado de Assis, da Fundação Biblioteca Nacional. Em 2005, passou a ocupar a cadeira número 3 da Academia Pernambucana de Letras, consolidando sua posição entre os principais nomes da cultura do estado.

DANIELLE ROMANI, repórter especial das revistas Pernambuco e Continente