Alguns dos mais belos livros de cartas de amor nasceram da correspondência real entre escritores, artistas e personagens históricos que transformaram sentimentos em literatura involuntária. Elas permitem ao leitor acompanhar paixões intensas, conflitos, saudades e a intimidade de figuras que marcaram a cultura mundial.
Esses livros epistolares apresentam diferentes formatos. Alguns registram o amor romântico exemplar. Outros congelaram, para a eternidade, e conhecimento público, o amor erótico, obsceno, pornográfico. Há os que apontam as relações dúbias e desiguais, as desesperadas e até mesmo as “bobinhas’, aquelas cuja melosidade e futilidade mostram a face mais oculta de alguns monstros sagrados.
Parodiando o poeta Fernando Pessoa, que na voz de Álvaro de Campos escreveu, “Todas as cartas de amor são ridículas. Não seriam cartas de amor se não fossem ridículas”, é exatamente isso: alguns amantes deixaram registros de uma ingenuidade e frugalidade excepcionais.
Caso do próprio Pessoa, que no livro Cartas de Amor (Tinta da China) abusa dos diminutivos, frases melosas e tom de “birra” ao se corresponder com a namorada. Em maio de 1920 ele enviou a Ofélia uma carta que dificilmente lhe seria atribuída, caso não estivesse identificada.
“Meu bebé pequenino: Então o meu Bebé me fez uma careta quando passei? Então o meu Bebé, que disse que me ia escrever ontem, não me escreveu? Então o Bebé não gosta do Nininho? (Não por causa da careta, mas por causa de não escrever)...”
Comprometido com Ofélia durante dois períodos da sua vida, alguns meses de 1920 e depois em 1929, as cartas de Pessoa mostram um homem diferente da imagem que lhe era atribuída: Nelas, o poeta surge distante da figura austera associada à sua obra, revelando humor, ternura e os inesperados apelidos carinhosos dirigidos à sua companheira.
O guerreiro apaixonado
Um século antes dele, o imperador Napoleão Bonaparte, um homem que dominou a Europa e massacrava inimigos sem piedade, deixou milhares de cartas como prova da loucura e paixão que lhe provocava a mulher Josefina.
Apesar das reservas da família - que não via com bons olhos o casamento de Napoleão com uma mulher seis anos mais velha - desde que a conheceu, ela se tornou uma obsessão para o estrategista militar.
O general deu vazão ao desejo sexual na escrita, muitas vezes chegando a furar o papel, tamanha era a força e impaciência com que ele segurava a pena e cobria as palavras erradas com borrões. Vivia na expectativa de tê-la novamente entre os braços. Na cama, os dois se entregavam aos mais curiosos jogos de sedução, desde o uso de fantasias ao de espelhos estrategicamente posicionados no quarto para refletir seus corpos nus, iluminados pela chama das velas.

Napoleão escrevia cartas para Josefina até no campo de batalha/Domínio Público
Conforme Napoleão registrou, ele nunca “esqueceu essas visitas” à “pequena floresta negra”. Assim que se tornaram amantes, logo demonstrou interesse em tomá-la por esposa. Nas guerras e viagens, eram constantes as cartas que enviava para a amada, ora reclamando da sua indiferença e silêncio, ora declarando-se com paixão.
Entre as cartas, uma escrita em 3 de abril de 1796, demonstra o arrebatamento vivido por Napoleão.
“(...) Minha única e exclusiva Josefina, longe de você não há alegria; longe de você, o mundo é um deserto onde estou sozinho e não consigo abrir meu coração. Você levou mais do que minha alma; você se tornou o único pensamento da minha vida. (...) Quando estou cansado das preocupações do trabalho, quando sinto o resultado, quando os homens me irritam, quando estou pronto para amaldiçoar a minha vida, coloco minha mão no coração; seu retrato está lá, olho para ele, e o amor me traz felicidade perfeita, e tudo sorri exceto o tempo que devo passar longe da minha amada.Com que bruxaria foi capaz de encantar todas as minhas faculdades e concentrar todo o meu ser na sua pessoa? Você morrerá apenas quando eu morrer. Viver para Josefina, essa é a história da minha vida que anseio.”
Registros históricos mostram que a relação entre os dois, entretanto, sempre foi desbalanceada. Ambiciosa, Josefina casou-se com Napoleão por perceber seu potencial político, que a tornou imperatriz e Rainha da Itália. Mesmo assim, mantinha amantes e muitas vezes não correspondia aos arroubos sentimentais do marido. Uma das provas é o reduzido número de cartas que lhe enviou.
Mas acabou sendo substituída pela incapacidade de gerar herdeiros. Mesmo com a adoração que nutria pela mulher, em 1810 Napoleão divorciou-se dela, casando-se com Maria Luísa da Áustria. Teria declarado à época. “ Estou me casando com um útero.”
Sensualidade à flor da pele
Outro amor arrebatado, quente, sensual, pode ser conferido na correspondência de James Joyce com a mulher Nora, com quem viveu até o fim da vida. Nas cartas escritas quando se encontrava na Irlanda, e ela na Itália, em Trieste, o erotismo, a fantasia, o ardor da paixão são constantes. Difícil encontrar uma linha que não registre imagens sexuais e pornografia explícita, jogos eróticos à distância que alimentava a libido do casal.
Em uma das cartas, Joyce prepara-se para encontrar Nora, e faz recomendações. “(,,,) Você gostaria de ir ao teatro comigo e jantar depois? Espero que você esteja tão cheinha como antes. Aquela tua blusa lilás maliciosamente apertada está limpa? Espero que você escove os dentes. Se você não tiver boa aparência te mando de volta para Galway. Faça o favor de não deformar os teus chapéus principalmente o alto. Tenho um quarto agradável de frente com duas camas. Se tudo correr bem, poderíamos passar alguns dias na companhia um do outro. Eu gostaria de te mostrar vários lugares em Dublin que são mencionados no meu livro. Queria que você estivesse aqui. Você se tornou uma parte de mim mesmo - uma só carne (…)”

Joyce e a mulher Nora: cartas intensas, pornográficas, apaixonadas Reprodução
Joyce conheceu Nora em 10 de junho de 1904, quando ambos caminhavam pela Nassau Street, em Dublin. Marcaram um encontro para o dia 14, que só aconteceria em 16 de junho, e que seria imortalizado no romance Ulysses, que se passa todo nesse dia. Nora se tornaria a personagem Molly Bloom.
Depois disso, o casal nunca se separou. A exceção foi o ano de 1909, data em que foram escritas a maioria das cartas. Nesse período Joyce fez duas viagens à Irlanda, enquanto Nora permaneceu em Trieste, na Itália.
No livro Nora: the Real Life of Molly Bloom, de Brenda Maddox, a autora insinua que o erotismo presente nas cartas foi uma estratégia encontrada por Nora para conter o ímpeto sexual do marido, evitando que ele procurasse prostitutas. “Joyce tinha uma doença venérea quando a conheceu. Talvez ele voltasse, Nora temia, a ter relações com prostitutas de Dublin quando ele estivesse longe dela, talvez ele reavivasse sua infecção passando-a possivelmente para ela”, escreveram os organizadores das cartas entre o casal no prefácio do livro James Joyce - Cartas a Nora (Iluminuras)
Medo e intensidade
As Cartas a Milena (Camelot Editora), que têm Franz Kafka como protagonista, são um dos conjuntos epistolares mais intensos do século XX. Escritas entre 1920 e 1923, elas revelam um Kafka muito diferente da imagem do escritor austero e enigmático que costuma ser associada a obras como O Processo e A Metamorfose.
Milena Jesenská era uma jornalista, escritora e tradutora tcheca, casada na época em que conheceu Kafka. O contato entre os dois começou quando ela se ofereceu para traduzir seus textos do alemão para o tcheco. A correspondência rapidamente ultrapassou os limites profissionais e transformou-se numa intensa relação amorosa e intelectual.
As cartas foram escritas em um período particularmente delicado da vida de Kafka. Ele sofria de tuberculose, enfrentava crises de ansiedade, sentimentos de inadequação e uma permanente dificuldade em conciliar o desejo de amar com o medo da intimidade. Milena tornou-se para ele uma interlocutora privilegiada, alguém que parecia compreendê-lo profundamente.

Ao longo das cartas, Kafka alterna momentos de paixão e de extrema insegurança. Em todos os momentos, entretanto, destaca-se a dureza de sua escrita, que demonstra, sobretudo, o receio de amar e de sofrer.. Muitas vezes, externa medo de encontrar Milena pessoalmente, de decepcioná-la ou de ser incapaz de corresponder ao sentimento que os unia. Inclusive, deixa claro não acreditar que haja futuro para eles.
“Por que, Milena, você escreve sobre nosso futuro comum que nunca será, ou é por isso que você escreve sobre ele? Mesmo quando estávamos discutindo isso em Viena uma noite, tive a sensação de que estávamos procurando por alguém que conhecíamos muito bem e sentíamos muita falta e a quem consequentemente continuamos chamando com os nomes bonitos, mas não houve resposta; como ele poderia responder, nem em qualquer lugar próximo. Poucas coisas são certas, mas uma é que nunca vamos morar juntos, dividir um apartamento, corpo a corpo, em uma mesa comum, nunca, nem mesmo na mesma cidade (...) Aliás, Milena, você deve concordar quando examina a si mesmo e a mim e faz sondagens do “mar’ entre ‘Viena” e “Praga” (...)”, escreveu Kafka em setembro de 1920.
A relação acabou não se concretizando plenamente. Os encontros entre os dois foram poucos, e os obstáculos práticos, a doença de Kafka, a situação conjugal de Milena e as próprias angústias do escritor, impediram que o romance avançasse. Ainda assim, Milena permaneceu uma das pessoas mais importantes da vida de Kafka. Em seus diários e cartas, ele chegou a descrevê-la como alguém capaz de enxergar sua verdadeira essência.
Maturidade
Se em outras correspondências de grandes autores podemos encontrar contradições, medo, ciúme e paixão ardente, em Carta a D. - História de Um Amor (Companhia das Letras) do jornalista e filósofo André Gorz, nos deparamos com algo totalmente diverso: um amor maduro, repleto de companheirismo e cumplicidade, compartilhado durante décadas, e quando comparado a outros tantos amores, pode ser chamado de singular.
André Gorz e Dorine Keir se conheceram em outubro de 1947, em uma noite de neve na cidade de Lausanne, na Suíça. Gorz, então um jovem intelectual inseguro, filho de uma família marcada pelos traumas da guerra, ficou profundamente impressionado pela jovem inglesa Dorine. O encontro mudou sua vida. A partir daquele momento, permaneceram juntos por quase 60 anos.
Dorine não foi apenas a companheira sentimental de Gorz. Ela participou ativamente de sua formação intelectual. Enquanto ele escrevia livros, artigos e desenvolvia suas idéias filosóficas e políticas, ela lia, discutia textos, organizava materiais e funcionava como sua interlocutora mais importante. O próprio Gorz reconheceria mais tarde que sua obra seria impensável sem ela.
Já idosos, quando Dorine sofria de uma grave doença degenerativa e dores crônicas, Gorz escreveu o livro Carta a D. , publicado em 2006. A obra é uma longa declaração de amor, mas também um pedido de desculpas. Nela, o filósofo admite que passou décadas escrevendo sobre política, trabalho e sociedade sem dar à esposa o lugar que ela realmente ocupava em sua vida.

Livro de Gorz retrata um amor maduro, que sobreviveu por décadas/ Reprodução
O livro começa com uma das mais belas aberturas da literatura amorosa contemporânea: “Você está para fazer oitenta e dois anos. Encolheu seis centímetros, não pesa mais do que quarenta e cinco quilos e continua bela, graciosa e desejável. Já faz cinquenta e oito anos que vivemos juntos, e eu amo você mais do que nunca. De novo, carrego no fundo do meu peito um vazio devorador que somente o calor do seu corpo contra o meu é capaz de preencher.”
Nas páginas seguintes, Gorz relembra a juventude do casal, as dificuldades financeiras, as viagens, as descobertas intelectuais e a cumplicidade construída ao longo de uma vida inteira. O livro é menos uma carta romântica convencional e mais uma celebração do amor como parceria profunda.
Em setembro de 2007, um ano após a publicação da carta, André e Dorine foram encontrados mortos, deitados lado a lado em sua casa. Ambos haviam decidido pôr fim à vida juntos. Gorz tinha 84 anos; Dorine, 83. Muitos leitores passaram a enxergar Carta a D. como um adeus amoroso antecipado, embora o livro seja, acima de tudo, um testemunho de gratidão e devoção.
O que torna essa história tão marcante é que ela não fala da paixão arrebatadora dos primeiros meses, mas de algo mais raro: a construção de um amor que atravessou seis décadas, envelheceu junto e permaneceu vivo até o fim. O próprio Gorz escreveu, no final a carta:
“Dissemo-nos sempre, por impossível que seja, que se tivéssemos uma segunda vida, iríamos querer passá-la juntos.” Carta a D. foi escrito entre 21 de março e 6 de junho de 2006.
Amigas e um pouco mais
A correspondência de Virginia Woolf com a também escritora Vita Sackville-West é uma daquelas preciosidades que ajudam a entender a paixão entre mulheres no início do Século 20. E a desvendar um pouco da personalidade da escritora inglesa, que escreveu Orlando inspirada na amiga. As centenas de cartas trocadas pelas duas entre 1922 e 1942, podem ser lidas no livro Virginia Woolf e Vita Sackville-West - Cartas de Amor (MorroBranco).
Algumas curiosidades pautam essa história. Ambas eram bem casadas, Vita mantinha casos com outras mulheres e o marido dela, Harold, tinha conhecimento de todas as suas aventuras amorosas, inclusive com Virginia. O que demonstra o liberalismo de costumes praticado mais frequentemente em países como França e Alemanha, nos anos 1920, mas que pelo visto, também era compartilhado pela elite inglesa.
A relação entre as duas vai se construindo lentamente. Primeiro como uma amizade, depois como uma parceria entre escritoras e, finalmente, como uma paixão que ambas não conseguiam guardar. As cartas, que registram os encontros espaçados - devido à vida social de Vita, casada com um diplomata e obrigada a se mudar no período para vários países - mostram a ansiedade delas de se encontrarem. Os subterfúgios para arranjarem encontros em que estivessem sós, e os ciúmes contidos de Virginia por saber que a parceira mantinha outras amantes, algumas, inclusive, fixas.
Diante disso, a sensação é que muito além de uma atração física, a afinidade se dava, sobretudo, pela questão intelectual, a intensa admiração que Vita mantinha por Virgínia, e o fascínio pela personalidade marcante da aristocrata, que encantava a autora de Orlando. Ambas precisavam estar próximas para debater, conversar e trocar ideias. As duas mulheres sentiam, principalmente, uma enorme admiração e afinidade intelectual.

Virginia escreveu Orlando inspirada na amante Vita Sackville-West/Domínio Público
As cartas das duas têm sempre um tom bem humorado e debochado. Não há pieguismos nem romantismos. Vita, certamente, demonstra mais sentimentalismo, principalmente após a publicação de Orlando.
“Tendo parado na livraria no caminho e comprado Orlando em Tauchnitz, comecei a ler e me perdi a tal ponto que a noite já quase passou. Sabe que nunca li Orlando sem lágrimas me pinicando os olhos? Pode acreditar ou não, mas é verdade. Às vezes até transbordam. Se é a mera beleza do livro, ou se a razão é você, ou se a razão é Knole, ou os três, não sei; de qualquer maneira você gosta de fatos, e eis um fato para você. Nunca houve um livro que me enfeitiçasse e comovesse tanto. Tudo isso apesar do fato de eu estar proibida de mencionar O (Orlando)....”, escreveu Vita em fevereiro de 1929.
Virgínia normalmente reage às cartas da amiga com intensa ironia e bom-humor. Raras são as que ela demonstra a paixão escondida. Em abril de 1929, uma pequena missiva revela o envolvimento com Vita.
“Venha na terça-feira; ao porão, nem uma piscadela depois das 3 (,,,) NÂO traga Dottie (uma das muitas cadelas de Vita). Isso me causa aversão. Duas vezes nos últimos tempos ela arruinou completamente minha serenidade com você; e não vou aguentar isso. Escolha entre nós. Dottie por favor caso se sinta inclinada a tanto; mas não nós duas no mesmo coquetel (....) Contei a Nessa a história da nossa paixão, no boticário no outro dia. “Mas você gosta mesmo de ir para a cama com mulheres?” ela disse, pegando o troco. “E como vocês fazem isso?” E então ela pegou seus comprimidos para levar para o exterior, falando alto como um papagaio.”
A correspondência das duas seguiu até 1941, quando a paixão já havia se acalmado. No dia 28 de março de 1941, Virginia deixou sua última carta para Leonard (o marido) na qual agradecia por lhe ter trazido felicidade completa. Andou até o rio Ouse, encheu os bolsos com pedras e se lançou nas águas.
Três dias depois, Vita escreveu uma carta para o marido Harold. “Acabei de sofrer o mais terrível dos choques: Virgínia se matou. Não está nos jornais, mas recebi cartas de Leonard…” Anos depois, ela escreveu: “Ainda acho que poderia tê-la salvado, se ao menos tivesse estado lá e soubesse o estado mental em que estava caindo.”
“Lília, ame-me”
A grande história de amor de Vladímir Maiakóvski foi com Lília Brik, uma mulher casada com o crítico literário Óssip Brik. O relacionamento deles tornou-se uma das histórias amorosas mais famosas e controversas da literatura do século XX.
Eles se conheceram em 1915. Curiosamente, Maiakóvski estava ligado à irmã mais nova de Lília, Elsa Triolet, quando foi apresentado à família. Ao ver Lília, apaixonou-se de forma imediata e avassaladora. Pouco depois, dedicou a ela seu célebre poema “Nuvem de Calças”.
Apesar de se envolver com o poeta, Lília jamais se divorciou. Em vez disso, formou-se um triângulo amoroso pouco convencional. Óssip Brik não apenas tolerava a relação, como se tornou amigo e colaborador de Maiakóvski. Durante anos, os três viveram muito próximos, compartilhando casas, viagens e projetos culturais. Para a vanguarda artística russa, esse arranjo simbolizava as ideias de amor livre que circulavam após a Revolução Russa.

Maiakovski: paixão dolorosa e adoração por Lília/Domínio Público
Maiakóvski amou Lília com uma intensidade quase obsessiva. Grande parte de sua poesia amorosa foi escrita para ela. Obras como Sobre Isto nasceram diretamente das crises e separações do casal. Em cartas, ele fazia declarações desesperadas e frequentemente associava sua própria existência à presença dela.
Mas o amor não era correspondido na mesma medida. Lília admirava profundamente o poeta e manteve com ele uma ligação duradoura, porém levava uma vida amorosa mais livre. Teve outros relacionamentos e nunca aceitou pertencer exclusivamente a Maiakóvski. Isso alimentava ciúmes, sofrimento e crises recorrentes no poeta.
Quando Maiakóvski se suicidou em 1930, aos 36 anos, muitos contemporâneos culparam Lília. A acusação, porém, é considerada simplista pelos estudiosos. O poeta enfrentava uma combinação de problemas: decepções amorosas, dificuldades políticas, críticas à sua obra e um profundo desgaste emocional. Ainda assim, é impossível separar sua tragédia pessoal da paixão que viveu por Lília.
Na carta de despedida, ele deixou um pedido direto: "Lília, ame-me." Essas palavras ajudaram a transformar a relação entre os dois em uma espécie de lenda literária.
Talvez nenhuma frase resuma melhor essa história do que a observação de que Lília foi, ao mesmo tempo, a musa, a inspiração e a maior ferida amorosa de Maiakóvski. Durante quinze anos, ela esteve no centro de sua vida e de sua poesia.
O poema abaixo, escrito em 1916, e traduzido por Augusto Campos, dá a dimensão desse amor que devastou o poeta.
LÍLITCHKA!
Em lugar de uma carta
Fumo de tabaco rói o ar.
O quarto —
um capítulo do inferno de Krutchônikh.
Recorda —
atrás desta janela
pela primeira vez
apertei tuas mãos, atônito.
Hoje te sentas,
no coração — aço.-
Um dia mais
e me expulsarás,
talvez, com zanga.
No teu hall escuro longamente o braço,
trêmulo, se recusa a entrar na manga.
Sairei correndo,
lançarei meu corpo à rua .
Transtornado,
tornado
louco pelo desespero.
Não o consintas,
meu amor, meu bem,
digamos até logo agora.
De qualquer forma
o meu amor
— duro fardo por certo —
pesará sobre ti
onde quer que te encontres.
Deixa que o fel da mágoa ressentida
num último grito estronde.
Quando um boi está morto de trabalho
ele se vai
e se deita na água fria.
Afora o teu amor
para mim
não há mar,
e a dor do teu amor nem a lágrima alivia.
Quando o elefante cansado quer repouso
ele jaz como um rei na areia ardente.
Afora o teu amor
para mim
não há sol,
e eu não sei onde estás e com quem.
Se ela assim torturasse um poeta,
ele trocaria sua amada por dinheiro e glória,
mas a mim
nenhum som me importa
afora o som do teu nome que eu adoro.
E não me lançarei no abismo,
e não beberei veneno,
e não poderei apertar na têmpora o gatilho.
Afora
o teu olhar
nenhuma lâmina me atrai com seu brilho.
Amanhã esquecerás
que eu te pus num pedestal,
que incendiei de amor uma alma livre,
e os dias vãos — rodopiante carnaval —
dispersarão as folhas dos meus livros…
Acaso as folhas secas destes versos
far-te-ão parar,
respiração opressa?
Deixa-me ao menos
arrelvar numa última carícia
teu passo que se apressa.