Borges: o escritor que imaginou labirintos continua encontrando novos leitores

Quarenta anos após a morte do argentino, o escritor e crítico literário Jacques Fux lançará uma biografia de Borges voltada para crianças e adolescentes

Em junho de 2026, o mundo literário relembra os 40 anos da morte de Jorge Luis Borges, um dos autores mais influentes do século XX. Morto em Genebra em 14 de junho de 1986, Borges transformou contos breves em universos infinitos, povoando a literatura com bibliotecas sem fim, espelhos, tigres, labirintos e perguntas que continuam sem resposta. Quatro décadas depois, sua obra permanece viva, sendo relida, estudada e descoberta por novas gerações.

Curiosamente, uma das melhores homenagens a Borges neste aniversário não chega por meio de uma nova edição de Ficções ou O Aleph, mas através de um livro voltado aos jovens leitores. Em O moço que imaginou palavras e transformou o universo (Editora Hedra) , o escritor e crítico literário  Jacques Fux apresenta a trajetória do autor argentino de forma acessível, convidando crianças e adolescentes a conhecer um homem que fez da imaginação uma ferramenta para reinventar a realidade.

A aproximação é natural. Borges sempre acreditou que a literatura era uma forma de ampliar o mundo. Seus contos raramente ultrapassavam algumas dezenas de páginas, mas continham reflexões sobre o infinito, o tempo, a identidade e a própria natureza da linguagem. O escritor argentino costumava transformar ideias filosóficas complexas em narrativas simples e fascinantes, capazes de encantar tanto especialistas quanto leitores iniciantes.

Nascido em Buenos Aires, em 1899, Borges cresceu cercado por livros. Aprendeu inglês ainda na infância, escreveu seus primeiros textos muito cedo e passou parte da juventude na Europa. Ao longo da vida, tornou-se poeta, ensaísta, tradutor e diretor da Biblioteca Nacional da Argentina. Mesmo após perder a visão, continuou escrevendo e ditando textos que ampliaram sua reputação internacional. Obras como Ficções, O Aleph e O Livro dos Seres Imaginários ajudaram a redefinir os limites da literatura contemporânea.

Especialista em Borges, Fux escreveu livro voltado para público infanto-juvenil 

É justamente essa capacidade de imaginar novos mundos que Jacques Fux procura destacar em seu livro. Em vez de apresentar Borges como um monumento distante da literatura, ele o revela como um garoto fascinado por palavras, histórias e perguntas. O resultado é uma porta de entrada para um autor que, apesar da fama de complexo, sempre foi movido pela curiosidade e pelo prazer da invenção.

A coincidência entre os 40 anos da morte de Borges e o pré-lançamento da obra de Fux parece reforçar uma verdade que o próprio escritor apreciaria: os autores não desaparecem quando morrem. Continuam existindo nos livros que deixam e nas leituras que inspiram. A cada geração, um novo leitor encontra seu caminho até eles.

Quatro décadas após sua morte, Borges segue fazendo exatamente isso. Seus labirintos continuam abertos. E agora, graças ao trabalho de Jacques Fux, mais jovens poderão atravessá-los pela primeira vez. Abaixo, uma entrevista com o crítico literário, que há anos vem se dedicando a percorrer os labirintos borgianos.

Borges é um escritor difícil ou foi transformado em um escritor difícil pela crítica? 

Borges é um escritor difícil, mas eu acho que ele fica mais difícil ainda se as pessoas tentam entender e saber tudo que ele está falando. Uma forma de leitura do Borges, que eu gosto muito, é saber que ele está fazendo ali um jogo com o leitor, que ele está brincando, que ele está brincando com os textos, Ele está brincando com a literatura, ele está brincando com a teoria da recepção.  Então fica mais fácil você entender Borges, você entender e entrar nesse mundo ‘borgiando”. Não tente entender tudo, tente apreciar, brincar e se jogar nesse mundo.

Você é um especialista em Borges. Como nasceu essa paixão? E que obra dele - nesses anos todos - continua lhe causando espanto e lhe fez tornar-se um estudioso da obra borgeana? 

Eu acho que se alguém se intitula especialista em Borges, você foge, porque o Borges é um escritor muito infinito, e você só consegue ser especialista em algumas áreas, em alguns pequenos temas borgianos…No meu caso, estudei bastante as incursões matemáticas e lógicas que o Borges faz na literatura. Então, eu acho que isso que eu estudei é também o motivo da minha paixão, porque quando eu comecei a ler Borges, eu sabia que ele estava falando sobre o infinito, sobre conjuntos, sobre problemas e paradoxos lógicos, mas eu não sabia como um escritor de literatura podia usar essas questões matemáticas e lógicas na literatura. Por isso que eu gosto muito, né? E por isso que eu me apaixonei pelo Borges e também pela dificuldade. Porque eu também sou um daqueles leitores que não fogem da luta. Pelo contrário: gosta de entrar, gosta de brigar. E me divertir com as dificuldades. Uma coisa que ainda me espanta sempre em  Borges, é que toda vez que você relê, você aprende mais alguma coisa.  Acho que isso que é um recurso muito importante das obras literárias que vão continuar, a partir do momento que você vai sabendo mais das coisas você também pode entender mais da obra borgiana, já que ela é uma obra tão vasta

 O moço que imaginou palavras e transformou o universo, é um relato destinado ao público infanto-juvenil. Nele,  você consegue condensar bem a trajetória de Borges. Teve dificuldade em fazer esse resumo tão bem costurado? 

O moço que imaginou palavras e transformou o universo, eu acho que é essa ideia do que é  o Borges… se você entra em Borges pelo lado lúdico, pela brincadeira, pelos mistérios, pelos enigmas, eu acho que isso é muito interessante.

Não é o primeiro livro em que eu falo sobre o autor, em que eu trago temas borgeanos para a literatura infantil e juvenil. E eu acho que isso é legal, porque se o adulto é muito sério, se a literatura adulta é muito séria, a literatura infantil é mais lúdica.

Então, apresentar Borges para jovens e para crianças,  que não têm um comprometimento em saber tudo, pelo contrário, mas um comprometimento em se divertir, é o que vale a pena. Acho que esse livro do Borges é uma alegria. E, de fato, foi difícil pensar, estruturar, conectar as partes dos contos para poder fazer o livro. Mas foi uma delícia. Estou louco para ver o livro publicado.

 Para que faixa de público você o escreveu? Acha que essa ludicidade vai fisgar as crianças? 

A faixa, eu acho que é para, enfim, de 10 anos para cima. E é justamente isso que eu já falei: o lúdico, a brincadeira, quem sabe, o que eu imagino é que como elas não precisam de todas as respostas, assim como um livro como Alice no País das Maravilhas, que tem aqueles enigmas e que elas abraçam aquilo, acho que esse meu livro também é assim.

Abrindo uma observação, como eu disse, eu já escrevi outros livros em que eu trago recursos borgianos. Eu publiquei Um labirinto labiríntico, no qual eu releio e recrio um conto borgiano que se chama “A Escrita de Deus”, que eu gosto muito. È um livro super divertido, com enigmas lógicos e matemáticos, e também releio esse conto do Borges. Outro que eu gosto muito também, e também releio um conto do Borges, se chama Um Bichólogo na Fazenda de Sonhos, em que visito, revisito também uma lista um pouco louca do Borges, de um conto que se chama “O Idioma Analítico, de John Wilkins”. Nesse livro, ele vai a uma fazenda insólita que Borges sugere para brincar com qualquer tipo de classificações. E, claro, tem também o meu livro que se chama O Enigma do Infinito. Nele vou contando algumas brincadeiras borgianas. Acho que agora, com essa biografia borgiana, eu interrompo ou acabo esse meu projeto de falar de Borges para jovens.

Por que Borges continua sendo considerado um dos escritores mais influentes do século XX? 

Borges continua sendo considerado um dos escritores mais influentes porque a grande questão borgiana é que ele, de alguma forma, usa esses contos de uma potência criativa, inventiva e literária para falar sobre literatura. Isso que é muito bonito. Então, se a gente está estudando teoria literária, a gente pode estudar através daqueles textos difíceis e pesados do Foucault,  Derrida, Campagnon, enfim…ou você pode também pensar que os textos borgianos são textos que falam sobre a teoria da recepção, a teoria da escrita, todas as teorias literárias nos contos, que são muito mais divertidos de serem lidos do que teoria propriamente dita.

O que distingue Borges dos demais autores do chamado cânone latino-americano? 

Borges se distingue dos outros escritores do cânone latino-americano porque ele é único, o que ele fez é uma coisa única, uma coisa inédita, uma coisa que, mesmo estando à margem, como a Beatriz Sarlo fala, Borges nas margens, é totalmente original.. Os escritores latino-americanos do Boom falam desse lugar, à margem. Mas acaba que os escritores desse realismo mágico, como Gabriel Garcia Marquez, esses escritores apresentam um exótico, assim como alguns escritores brasileiros também mostram um exótico. Já o Borges é diferente, ele fala do universal, então ele é um escritor que apesar de ter escrito na Argentina, vamos dizer assim, as margens da cultura, como a Beatriz Sarlo fala, ele está falando do universal, ele está usando a literatura universal para fazer a própria literatura.Essa é a diferença dele.


Quais são os grandes temas que atravessam toda a produção borgeana? 

Como eu disse, é vastíssimo o arsenal borgiano. O que eu me concentrei durante muito tempo foi, de fato, alguns textos em que exploram a teoria literária. Então, alguns textos e contos que falam sobre literatura e muitos textos que usam argumentos lógicos, matemáticos, a questão do infinito, do contável, do enumerável. Esses temas foram os temas em que eu adentrei mais a fundo.

 Por que Ficções é considerado um marco da literatura universal? 

Ficções começou com textos publicados no jornal. Depois ele juntou e fez o livro É um texto muito diferente, em que aparecem com coisas novas, de atribuir coisas a autores que não existem, atribuir citações que não existem, citar  enciclopédias  inexiste, dando a página em que a citação foi feita, a edição , e a biblioteca onde ela está. E nada existir. Ao mesmo tempo,  também muitas coisas que as pessoas achavam que não existiam, e que existiam. Ele faz essa brincadeira de erudição falsa e de citações falsas, que as vezes, podem ser verdadeiras. 

Até que ponto a cegueira influenciou sua produção literária? 

A cegueira  foi uma super angústia. Já nascer fadado à cegueira, e buscando de toda forma fugir dessa cegueira. Eu acho que esse fato incitou, fez com que o Borges lesse muito. Tanto que o que se fala de comum acordo, mesmo aqueles que não gostam de Borges, dizem que talvez o maior leitor de todos tenha sido ele. Uma erudição que ele adquiriu que tem a ver com essa angústia da cegueira, essa angústia de perder as letras.

Há alguma contradição central entre o homem Borges e o escritor Borges?

Acho que  Borges, o escritor, foi um cara que viajou por todos os tempos, espaços, literaturas e possibilidades. Já o homem estava um pouco enclausurado, angustiado, muito próximo da mãe, muito dependente das outras pessoas, então acho que o Borges conseguiu ser um super na literatura e bem diferente na vida pessoal .