Morre o escritor Lobo Antunes, aos 83 anos

O romancista português, apontado várias vezes como candidato ao Prêmio Nobel de Literatura, teve a morte confirmada pela sua editora, Leya

Poucos nomes conseguiriam interromper o infinito breaking news dos jornais portugueses sobre os bombardeios no Oriente Médio. António Lobo Antunes é um deles. Um dos maiores nomes da literatura contemporânea de Portugal, um escritor cuja vida também foi marcada pela guerra, morreu aos 83 anos nesta quinta-feira (5) em decorrência da longa luta contra os sintomas devastadores de uma demência que silenciou sua voz e apagou sua memória.

Mas não a memória dos seus milhares de leitores.

A perda da memória é uma triste ironia para um gigante da literatura em língua portuguesa que começou a vida profissional como médico, especializado justamente em psiquiatria e nos meandros do cérebro. A medicina que o levou em 1970 para Angola, cumprindo serviço militar durante a Guerra Colonial, de onde regressaria em 1973.

As lembranças da guerra permeariam a obra de Lobo Antunes, a começar pelo primeiro livro, intitulado Memória de elefante, publicado em 1979, cujo narrativa concentra-se em um dia na vida de um psiquiatra em Lisboa após o retorno das trincheiras em Angola.

No mesmo ano viria Os cus de Judas - o título uma referência a um topônimo do território angolano onde o protagonista da trama prestou serviço ao exército colonial português - livro que consolidaria o nome de Lobo Antunes como um dos grandes da literatura contemporânea de Portugal.

Era o início de uma longa e marcante jornada como romancista, contista, cronista e poeta, que culminou com a publicação de 39 livros, em mais de quatro décadas de escrita. O último inédito saiu em 2022, O tamanho do mundo, reunindo contos. Um ano depois, era lançado As outras crônicas, uma compilação dos textos publicados entre 2013 e 2019 na Revista Visão.

De forma agora póstuma, a quadragésima obra de Lobo Antunes está prometida pela editora D. Quixote para abril em Portugal, uma edição inédita de poesias, um gênero pouco frequentado pelo autor, mas que curiosamente sempre se lamentou em não ter sido poeta full time.

Além da obra, a vida de António Lobo Antunes foi marcada pela sua personalidade forte com verniz egocêntrico, que o levou a travar uma guerra, primeiro silenciosa, depois nem tanto, com outro peso-pesado português, José Saramago. A distinção do Nobel a Saramago nunca foi muito bem resolvida, ao ponto de Lobo Antunes acusá-lo de ter-lhe “roubado” o prêmio.

Nem Eça de Queiroz escapou à metralhadora das vaidades do escritor, que numa entrevista ao jornal Diário de Notícias chegou a dizer que não partilhava “esse amor” pelo autor de Os Maias, de quem gostou apenas até aos 17 anos. “Depois, comecei a escrever mais a sério e a minha admiração foi diminuindo”, disse.

O avançar da idade e talvez já os primeiros sintomas da demência levaram Antônio Lobo Antunes aos poucos a sair de cena.

Primeiro em 2019, quando rompeu unilateralmente com a revista Visão, onde escreveu por 19 anos, após ver sua imagem estampada numa tote bag durante uma campanha promocional. A publicação defendeu-se afirmando que a campanha foi autorizada por Lobo Antunes e numa nota o mais elegante o possível para o tamanho da diatribe, lembrou que “até mesmo os gênios têm o direito de tropeçar”.

Em seguida, veio o silêncio, um dos sintomas da doença, que o afastou da vida pública e o levou até a separar-se do indefectível cigarro, “que para ele era como respirar”, lembra o jornalista João Céu e Silva, um dos últimos fora do círculo familiar a travar contatos regulares com o autor, durante entrevistas semanais regulares que resultaram em mais de cem horas de conversas, publicadas no livro Uma longa viagem com Antônio Lobo Antunes.

Na última conversa entre os dois, por telefone em 2021, João Céu e Silva revela já ter sentido os efeitos da doença que silenciaria uma das maiores vozes da literatura portuguesa. “Durante meia- hora, senti-me numa montanha-russa, não numa conversa”, contou.

Se não foi agraciado com o Nobel, Antônio Lobo Antunes teve seu trabalho reconhecido em mais de 17 prêmios e ainda o nome incluído em 2018 no restrito rol de autores da Biblioteca La Pleiade, na França, ao lado de gigantes como Machado de Assis, João Cabral de Melo Neto, Tolstói, Dostoiévski, Cervantes, Camões e Shakespeare.

Aos mais próximos, dizia ser um reconhecimento mais importante até mesmo que o Nobel, revelando que as guerras reais ou literárias são difíceis de apagar da memória.

Em nota divulgada à imprensa, a editora D. Quixote comprometeu-se a dar continuidade à obra do autor, ressaltando que a morte de António Lobo Antunes deixa “mais pobres a cultura e a literatura portuguesa”, mas que persistirá “forte e desafiante a sua palavra” para a eternidade.