Manifesto Regionalista de 1926 em debate na ABL

Encontro do do Clube de Leitura da Academia Brasileira de Letras será coordenado pelo acadêmico Joaquim Falcão

O Manifesto Regionalista de 1926, escrito pelo sociólogo pernambucano Gilberto Freyre, é a pauta do Clube de Leitura da Biblioteca Rodolfo Garcia, da Academia Brasileira de Letras. O encontro ocorre nesta quarta-feira (13), às 16h, com entrada aberta ao público mediante inscrição no site da instituição. O debate será coordenado pelo acadêmico Joaquim Falcão, autor de “Sobre o Manifesto Regionalista” (2021), publicado na revista Ciência & Trópico, volume 45.

Uma provocação, expressa na notícia de divulgação do encontro, no site da ABL, norteará a discussão: “Quem é o Imperador das Ideias do Brasil? Os professores da USP (Caio Prado, Fernando Henrique, Florestan Fernandes) ou Gilberto Freyre? O que prevalece? O Manifesto Paulista Modernista ou Manifesto Regionalista de Gilberto?”

Gilberto apresenta o Nordeste como berço da formação social brasileira, destacando o engenho, a casa-grande, a culinária, o artesanato e a arquitetura adaptada ao clima como expressões autênticas da nacionalidade, em oposição à homogeneização cultural. Mais do que isso: “Freyre coloca o regionalismo como uma barreira à imitação ‘cega e desbragada’ da novidade estrangeira que São Paulo e Rio de Janeiro praticavam. O culto aos estrangeirismos. Francesismos”, afirma Joaquim Falcão, no citado artigo. “O Manifesto é uma antecipação da globalização. Mas com muitas limitações e imperfeições”, reconhece.

Os paulistas reagiram ao pensamento expresso por Freyre. O sociólogo Florestan Fernandes o criticava por idealizar uma sociedade patriarcal, considerada integrada, ao suavizar os conflitos sociais e raciais, numa ideologia conservadora e uma visão elitista da história, centrada na casa-grande e na figura do patriarca.

Antecipando-se às políticas que seriam implementadas décadas depois e hábitos sociais vistos no presente, o folclore, as festas, a religiosidade e os modos de vida rurais como patrimônios culturais que deveriam ser preservados e estudados, mas não sem o protagonismo daqueles que estavam diretamente ligados à tradição da cultura popular. No manifesto, Freyre propõe um regionalismo que não é isolamento, mas uma forma de o Brasil reconhecer sua diversidade interna, num projeto de modernização enraizada. Em suma, uma autonomia cultural sem separatismo político.

Escrito há um século, o Manifesto Regionalista tem uma importância histórica na construção da ideia moderna de Nordeste. Mas pode fixar estereótipos, cristalizando uma imagem folclorizada e reduzida da região, que é dinâmica, urbana, múltipla e em constante transformação. Ao privilegiar o mundo rural e patriarcal, Freyre deixa de fora essa complexidade. O Manifesto Regionalista é um marco, mas precisa ser relido à luz das transformações sociais do século XX e XXI, uma referência cultural, objeto de crítica e como símbolo de uma disputa permanente sobre o que significa ser nordestino.