Liberdade e pertencimento

Persépolis, novela gráfica produzida por Marjane Satrapi, traz um relato autobiográfico que acabou se transformando num dos retratos mais emocionantes sobre a vida cotidiana no Irã pós-revolução

 Graphic novel retrata história de uma adolescente durante a Revolução Islâmica de 1979, unindo memória, história e formação pessoal
Graphic novel retrata história de uma adolescente durante a Revolução Islâmica de 1979, unindo memória, história e formação pessoal

A novela gráfica Persépolis, de Marjane Satrapi, transformou uma experiência pessoal em um relato amplo de um país.  Publicada originalmente entre 2000 e 2003, em quatro volumes, a obra autobiográfica acompanha a infância, a adolescência e o início da vida adulta da autora em meio às transformações políticas do Irã após a Revolução Islâmica de 1979. O resultado é uma HQ que une memória, história e formação pessoal.

O maior mérito dessa novela gráfica está em evitar simplificações. Satrapi não constrói um relato maniqueísta entre o Oriente e o Ocidente nem reduz o Irã a um cenário de opressão. A autora mostra as contradições do país, os efeitos da guerra com o Iraque, a repressão política e religiosa, mas também a vida cotidiana, as relações familiares, as festas escondidas e os pequenos atos de resistência. Ao fazer isso, devolve humanidade a uma sociedade frequentemente retratada por estereótipos.

A HQ é marcada por uma aparente simplicidade na parte visual. Os desenhos em preto e branco, de traço econômico e influência expressionista, dispensam detalhes excessivos. Essa escolha amplia o impacto emocional das cenas mais dramáticas. A violência, a perda e o exílio aparecem filtrados pelo olhar da jovem Marji, cuja curiosidade e senso crítico impedem que o livro se torne excessivamente sombrio.

Traço simples da autora dão maior impacto emocional 

Outro aspecto é o humor. Mesmo em situações de tensão, Satrapi introduz ironia e episódios cotidianos que humanizam os personagens. A protagonista aparece como uma menina rebelde, cheia de dúvidas e contradições. Essa dimensão transforma uma experiência específica em algo universal: a descoberta da identidade, o conflito entre tradição e liberdade e a dificuldade de pertencer a mais de um mundo.

Se há uma limitação em Persépolis, ela talvez esteja na própria natureza memorialística do relato, que não segue um curso didático, linear. Algumas passagens históricas são apresentadas de forma resumida, e certos acontecimentos complexos acabam subordinados ao ponto de vista pessoal da narradora. No entanto, essa é uma característica do projeto: Satrapi não pretendia escrever uma história definitiva do Irã, e sim testemunhar como os grandes eventos moldaram uma vida. 

Persépolis mostra como as escolas adotaram normas islâmicas, o hijab se tornou obrigatório e a vida cotidiana foi remodelada pela pressão ideológica. Em entrevista à imprensa francesa, ela afirmou que aos dez anos, se preparava para se tornar uma prisioneira política, pois a possibilidade lhe parecia plausível. Essa simples declaração ilustra a atmosfera que marcou sua infância. 

Os relatos de tortura, prisões e execuções, elementos que faziam parte da realidade de seus primeiros anos, se tornaram material para a produção da graphic novel. Assim como a Guerra Irã -Iraque (1980-1988) também ocupa um lugar de destaque. Na HQ, os bombardeios aéreos são constantes, e ocupam lugar ao lado da adolescência rebelde. Se os bombardeios são retratados, também não faltam cenas onde ela ouve música ocidental secretamente, usa roupas proibidas e confronta repetidamente a polícia da moralidade, mostrando a resistência cotidiana possível dos cidadãos. 

No exílio, sonhos a aproximavam da família e do país 


A autora

Marjane Satrapi nasceu em novembro de 1969, em Rasht, em uma família com visões políticas de esquerda. Sua mãe era descendente do xá Nasser al-Din Xá Qajar, monarca da Pérsia entre 1848 e 1896.

Ela morreu na última terça-feira, 4 de junho. “Marjorie Satrapi morreu de tristeza pouco mais de um ano após a morte de Mattias Ripa, seu marido e o amor da sua vida”, informou o comunicado divulgado por seus parentes.

A sua abordagem do Irã foi consequência do seu ambiente familiar.  A política estava entrelaçada à história da família. Vários de seus parentes haviam sido presos ou sofrido repressão. Essa memória da violência moldou sua consciência desde a infância. Tinha nove anos quando a Revolução Iraniana eclodiu. Sua adolescência coincidiu com o aumento das restrições às liberdades individuais, particularmente a repressão às mulheres e as limitações à liberdade de vestimenta. 

Um tio de Marjane - Anoosh, membro proeminente do movimento comunista iraniano, com quem ela tinha ligação próxima -  foi executado por suas convicções políticas. Aos 14 anos, durante a Guerra Irã-Iraque, ela foi enviada para Viena, onde passou a adolescência isolada. Em 1980 retornou ao seu país. Mas após um casamento fracassado mudou-se para a França, onde permaneceu até sua morte. 

Em 2002, ela declarou. “Aquela imagem da mulher vestida de preto - parecendo um corvo - e do homem extremista com barba - que vocês viram na televisão - é o que o governo permitiu que fosse visto. Mas o Irã é uma ditadura, e uma ditadura não mostra tudo.” Na mesma ocasião, ela expressou seu pesar pelo que descreveu como estereótipos em torno do seu país natal. 

O primeiro volume de Persépolis ganhou um prêmio no Festival Internacional de Quadrinhos de Angoulême, na França, em 2001. Seguiram-se mais três volumes e, em 2007, a obra foi adaptada para o cinema pela própria Satrapi. O filme ganhou dois prêmios César e  o Prêmio do Júri do Festival de Cannes. 

Mais de duas décadas após sua publicação, a graphic novel permanece atual. Em tempos de polarização e discursos simplificadores sobre o Oriente Médio, a obra reafirma a importância das histórias individuais como forma de compreender os processos históricos. Ao mesmo tempo em que narra a trajetória de uma garota iraniana, a HQ fala sobre liberdade, pertencimento e memória.

Serviço

Persépolis

Marjane Satrapi

352 páginas

R$ 109