Especialista em micro história, Ginzburg morre aos 87 anos

Ginsburg era conhecido pelos estudos sobre Inquisição e perseguição aos grupos marginalizados na Europa Moderna

O queijo e os vermes reconstruiu a visão de mundo de um moleiro do século XVI a partir de registros inquisitoriais
O queijo e os vermes reconstruiu a visão de mundo de um moleiro do século XVI a partir de registros inquisitoriais

O historiador italiano Carlo Ginzburg, um dos mais influentes intelectuais do século XX e fundador da micro história, morreu nesta quarta-feira (17), em Bolonha, na Itália, aos 87 anos. 

A informação foi divulgada por veículos da imprensa italiana. Autor de obras que transformaram a pesquisa histórica, Ginzburg dedicou sua carreira ao estudo das culturas populares, da Inquisição e das formas de perseguição aos grupos marginalizados na Europa moderna.

“Adeus pai”, escreveu Lisa Ginzburg, autora e filósofa, em um post do Instagram acompanhado por uma foto dela com o pai. 

Ginzburg era especialista em micro história. Ou seja, a corrente historiográfica que, em vez de se concentrar em grandes eventos e figuras poderosas, investiga casos aparentemente marginais para compreender mecanismos mais profundos da sociedade. Uma abordagem que encontrou sua expressão mais famosa em livro foi O queijo e os vermes, publicado em 1976 e traduzido para dezenas de idiomas. 

Ao lado de outros intelectuais, ele defendeu o jornalista de extrema esquerda Adriano Sofri, condenado por homicídio, em 1972, de um delegado de polícia. Sofri, amigo de Ginzburg, foi condenado em 1997, após sete julgamentos, a 22 anos de prisão. Ele saiu da prisão em 2012.

Em 1991, Ginzburg escreveu um livro sobre o primeiro julgamento de Sofri, sem mencionar um erro do Judiciário e afirma ter encontrado semelhanças com os processos contra a bruxaria dos séculos XVI e XVII. 

Nascido em Turim, em 15 de abril de 1939, Ginzburg cresceu em uma família marcada pelo engajamento intelectual e político. Filho da escritora Natália Ginzburg e do jornalista e professor Leone Ginzburg, opositor do fascismo morto sob tortura em uma prisão italiana durante a Segunda Guerra Mundial (quando Carlos tinha apenas 5 anos), o historiador frequentemente relacionava sua atenção aos perseguidos e excluídos a essa experiência familiar precoce de violência política.

Sua projeção internacional começou com a publicação de obras como Os Andarilhos do Bem (1966) e, sobretudo, O Queijo e os Vermes (1976), estudo que reconstruiu a visão de mundo de um moleiro do século XVI a partir de registros inquisitoriais. A partir da análise minuciosa de indivíduos aparentemente anônimos, Ginzburg demonstrou como casos singulares podem revelar aspectos mais amplos da sociedade, inaugurando uma abordagem que ficaria conhecida como micro-história.

Ao longo de sua trajetória, Ginzburg também refletiu sobre os métodos da pesquisa histórica. Em textos como Mitos, emblemas, sinais, defendeu a importância dos detalhes, vestígios e indícios para a reconstrução do passado. Seus trabalhos dialogam com áreas como a literatura, a antropologia e a história da arte, contribuindo para renovar as fronteiras da disciplina histórica e influenciar gerações de pesquisadores em todo o mundo.

Até os últimos anos de vida, o historiador permaneceu ativo no debate intelectual, publicando livros e participando de discussões sobre memória, verdade e interpretação histórica. Sua obra, traduzida para dezenas de idiomas, consolidou-se como referência indispensável para os estudos históricos contemporâneos. Com sua morte, a historiografia perde um de seus mais criativos e respeitados representantes