O jornalista e escritor Fernando Morais vem ao Recife lançar o segundo volume da biografia Lula, dos três previstos. O encontro ocorre neste sábado (dia 30), durante o evento “Além das Letras”, iniciativa da Bienal Internacional do Livro de Pernambuco, que acontece no Centro de Convenções. A série que ele ainda escreve sobre o amigo e atual presidente da República é um dos temas da entrevista que Morais concedeu ao repórter Marcelo Abreu, que estará na edição de junho da revista Pernambuco.
Na entrevista, o autor mineiro, que completa 80 anos no dia 29 de julho, apesar de assumir que vota e apoia o governo Lula, não vê qualquer comprometimento na edição dos volumes escritos. “Eu não posso fingir que eu sou neutro. Quem não tem lado, tem lado. Não ter lado é uma forma de ter lado. Então, eu acho que há uma certa hipocrisia na pessoa dizer que é isenta politicamente. Ninguém é isento politicamente. De fato, ser isento já é uma posição, no mundo com as características do nosso, com as iniquidades, com as brutalidades, com as violências que a gente vê. Quando você vê algo como o que aconteceu em Gaza, por exemplo, você pode dizer que é isento? Como isento? Você não está vendo?”, afirmou Morais ao repórter Marcelo Abreu.
Fernando Morais também explicou que a trilogia sobre Lula não engloba o atual governo do petista. E que o segundo volume, que chegou às livrarias, se limita à trajetória até a eleição de 2002. “O segundo volume vai das Diretas Já, passa pelo Colégio Eleitoral, passa pela Constituinte, pelas três derrotas do Lula (para Collor e para Fernando Henrique duas vezes). E termina com a vitória dele em 2002”, explica o biógrafo.
Na conversa com a Pernambuco, Moraes também fala sobre temas da atualidade, como o discurso do identitarismo, adotado pela atual esquerda, uma novidade em relação a sua formação. “Eu sou cercado de identitaristas, minha filha, as minhas netas, o meu genro, são todos identitaristas. Eu estou sendo recolonizado pelas gerações futuras. Agora, o meu temor é que, ao colocar questões identitárias em primeiro lugar, você deixe para o segundo plano a questão que me parece essencial, sobretudo num país iníquo, um país injusto, um país cruel como o nosso, um capitalismo selvagem como o nosso, deixar de lado a luta de classes para focar suas energias, focar seus esforços em lutas paralelas. Não é algo que eu tenha resolvido na minha cabeça, mas eu temo que seja um desvio de energia mesmo. Pode ser que seja um equívoco meu.”
Há cerca de meio século, Fernando Morais deixou as redações dos jornais e revistas para se dedicar à literatura, principalmente às biografias. Ele costuma ser lembrado, principalmente, por três obras que marcaram os leitores e mostraram que o jornalismo podia ir além das notícias diárias. Em 1976, A Ilha, uma série de reportagens sobre Cuba, publicada em plena ditadura militar, virou livro de cabeceira de uma geração que ansiava por informações sobre o país comunista. Dez anos depois, a publicação de Olga comoveu o país, ao narrar a vida da militante comunista Olga Benario, mulher de Luiz Carlos Prestes, entregue por Getúlio Vargas ao governo de Adolf Hitler para ser trucidada num campo de concentração. Chatô, de 1994, registra a vida e as peripécias do poderoso Assis Chateaubriand, criador dos Diários Associados, envolvendo milhões de leitores numa trama real que mostra a ascensão do homem e os bastidores do poder, como poucos haviam feito até antes.
Morais também lembrou que sua primeira biografia, Olga, só pode ser realizada com a riqueza de detalhes e fatos, devido à redemocratização do país na década de 1980. E que atualmente, apesar do crescimento da direita e de ter enfrentado o governo Jair Bolsonaro, que não lhe era simpático, não viveu nenhum tipo de censura. “A única interferência política no meu trabalho aconteceu com o fim da ditadura militar, que é quando se abriram as portas. Mas eu não diria que as mudanças recentes interferiram seja na apuração do trabalho de campo, seja na repercussão dos livros. Não senti essa mudança. Essa fascistização do mundo, felizmente, ainda não bateu nas minhas portas. Ainda bem que não.”
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