O invencível Alexei Bueno

Poeta, crítico literário e tradutor premiado, o escritor carioca deixou uma obra imensa que dialogou com o universo dos clássicos, sendo rigorosamente contemporâneo

1993. Eu era crítico literário do Correio Braziliense quando recebi da editora Nova Fronteira um livro completamento atípico, atemporal. Lucernário. O autor, Alexei Bueno, até então completamente desconhecido para mim, já havia publicado quatro outros volumes de poesia e era senhor de uma poética que desvirtuava com o momento que vivíamos, de revoluções vazias e dizeres descuidados. Trazia uma lírica rica, em diálogo permanente com os clássicos e com uma estrutura também clássica, privilegiando as formas tradicionais, como quadras e sonetos.    

Desde então acompanhei sua trajetória e me tornei seu amigo. Estarrecido, nesta manhã fria de 27 de junho recebi uma mensagem lacônica, breve: “Ulisses aqui, filho do Alexei, infelizmente ele veio a óbito, estou avisando seus amigos”. Homem de nenhuma reza, somente pude lamentar. Era, aos 63 anos, um moço ainda. Um intelectual vivo, com uma obra imensa – basta uma olhada nos sítios informativos da Internet com saber desta dimensão –, mas que muito ainda tinha para produzir. Recentemente lançou dois novos livros, A Chave Quebrada (poesia) e O poste (auto sacramental em dois atos).     

Voltando a 1993, o título do livro já inquietava. Lucernário é um molusco oceânico, do gênero estauromedusas, ensinou-me a enciclopédia então, embora no preâmbulo da obra, num texto de 1728, o padre Lorenzo Piavoli conta ter encontrado um desses nos porões de Roma. “E a voz do companheiro que ia mais à frente repercutiu: Um lucernário! alegremente na direção a que nos dirigíamos.” É nesta condição, de lucernário, que Alexei mergulha no universo sombrio da morte e sai restaurado em esperanças. “Não penses nas estrelas, nem no pó / No qual cairás em breve. / (...) / Pisa, entanto, / no solo recebido, / No amado pó de um nosso antigo encanto / Já no âmago embebido.” Desta maneira vai nos levando por sua poesia ao mesmo tempo íntima e histórica, pessoal e coletiva. Mais profundamente, escreve o crítico Antônio Carlos Vilaça, “Alexei Bueno nos traz, em Lucernário, uma poesia filosófica, universal, de uma intensidade perturbadora. Trata-se de uma poesia histórica, vai ao mundo romano, ao grego, ao egípcio até. Um diálogo através dos séculos. A unidade da vida ao longo do tempo. Alexei, grande poeta consciente, é rigorosamente contemporâneo de si mesmo e de todos os tempos, que tão profundamente o atraem”.

Conversando com esta propensão ao mundo clássico e se valendo de sua função de ensaísta, no mesmo ano de 1993, aos trinta anos, publica uma cuidadosa e moderna edição de Os Lusíadas, de Luís de Camões. Limpa o excesso de notas de rodapé de outras edições e escreve apenas as informações necessárias à ligação mais íntima entre o texto seiscentista e o leitor moderno. “Por meio destes hórridos perigos, / Destes trabalhos graves e temores, / Alcançam os que são de fama amigos / As horas imortais e graus maiores; / Não encostados sempre nos antigos / Troncos nobres de seus antecessores; / Não nos leitos dourados, entre os finos / Animais de Moscóvia zibelinos;”, escreve Camões no Canto Sexto e Alexei nos socorre: “Animais de Moscóvia: as peles da Rússia. Em todo este final de canto Camões faz a condenação dos esmorecimentos ociosos e dos méritos herdados, e o elogio das virtudes viris e frugais, e das condições alcançadas por valor próprio.”   

Fato é que a surpresa era só minha. Quem conhecia seu trabalho não se surpreendia com a força de sua poética. Basta dizer que aos 17 anos traduziu o poema "O  corvo", de Edgar Allan Poe. “Ah! Tão claro que eu me lembro! Era um frio e atroz dezembro / E as chamas no chão, morrendo, davam sombras fantasmais, / E eu sonhava logo o alvor e pra acabar com a minha dor / Lia em vão, lembrando o amor desta de dons angelicais / A qual chamam Leonora as legiões angelicais, / Mas que aqui não chamam mais.” Pode parecer um gesto banal, afinal gigantes como Machado de Assis, Fernando Pessoa e Milton Amado tinha já tomado para si esta tarefa. No entanto, especialistas como Ivo Barroso, Carlos Heitor Cony e Paulo Henriques Brito são unânimes em afirmar que foi Alexei quem melhor conseguiu preservar em português o ritmo, as rimas (inclusive as rimas internas) e o tom trágico de Poe.

Não, Alexei não era o erudito sábio que vivia a despejar sabedorias na cara da gente. Bonachão, não dispensava uma polêmica, no entanto. Chegou a disputar uma peleja com Caetano Veloso, e saiu vencedor. No entanto, gostava mesmo era de um desafio de memória. Podia ficar horas infindas declamando poemas seus e alheios.

Uma noite, num dos bares do Recife Antigo, começou uma disputa com o poeta Marcus Accioly. Queriam saber quem poderia dizer de cor os poemas de Augusto dos Anjos. Alexei tinha organizado para a editora Aguillar a obra completa do paraibano. Enfim, foram horas de poemas jogados ao ar. No dia seguinte, uma nota do Diario de Pernambuco contava o fato e anunciava o resultado do desafio: deu empate.

Como organizador e cultor da poesia de Augusto dos Anjos, viajou de Ceca a Meca dando palestras, participando de conversas. Em João Pessoa recebeu do então governador Ronaldo Cunha Lima uma muda de tamarindo colhida do tamarineiro onde se encostou Augusto. Levou a planta para o Rio e a deixou em um vaso na varanda do apartamento em que morava. O problema é que ela cresceu e já não mais cabia no vaso. Procurou o Jardim Botânico para doar o pé de tamarindo, mas o instituto somente aceitava plantas cientificamente colhidas. Não adiantou argumentar a intimidade da planta com a poesia, pois a lírica não entra na Alameda das Palmeiras Imperiais. O jeito foi deixá-la em casa até que a própria natureza se encarregou de tombar o gigante que não chegou a ser.

Também organizou os volumes Grandes Poemas do Romantismo Brasileiro (1995), a Antologia Pornográficas – de Gregório de Matos a Glauco Mattoso (2004), A Escravidão na Poesia Brasileira do Século XVII ao XXI (2022) e Cinco Séculos de Poesia (2013), com a vasta tradução que fez de poetas como Shakespeare, Leopardi e Gérard de Nerval. No entanto talvez seu maior trabalho como ensaísta está no amplo e fundamental Uma História da Poesia Brasileira (2007), um completo painel de nossa evolução poética, passando inclusive pela poesia popular, tão subestimada pela academia.

Alexei, em essência, foi um imenso poeta. Sua obra diz isso. Boêmio por vocação, foi nesta condição que se tornou personagem do romance O Pêndulo de Euclides, de Aleilton Fonseca. E neste campo criou uma imensa e risível mitologia. No entanto, seu momento maior está no que escreveu sua lírica.

Em 2022 ganhou o Prêmio Candango de Literatura, na categoria Poesia, com o livro O Sono dos Humildes, publicado no ano anterior. Nos poemas do volume preserva-se o fino humor com que falava do trágico. “O ator aposentado, no depósito / Do teatro, os seus cenários inspeciona. / Portal, lustre, masmorra, um despropósito / De estilos, que o emociona. / (...) / Formas que ainda uma vez guiam seus passos. / O espólio. Depois sai. Todos um dia / Cruzaremos assim outros espaços / Enquanto a tarde esfria. // Maiores, à mercê de mais abalos, / Nos quais uma luz cósmica se entorna. / Cenários. Só podemos visitá-los. / O público se foi e não retorna.”

Em 1976, quando morreu Hermilo Borba Filho, Osman Lins escreveu um artigo contando do amigo e o chamou de invencível. Alexei está na mesma linha de criadores onde se postou Hermilo.

Nos falamos há cerca de um mês, logo depois que me mandou o convite para o lançamento de seu novo livro, A Chave Quebrada, evento que se daria no velho e bom Lamas, onde tanto bebemos e jogamos conversa fora. Falou-me sem dores ou mágoas do câncer que estava tratando. Não que estivesse resignado. Sou revolta era intrínseca, somente não perdia o hábito da resistência. Lutava.   

Do antigo livro de 1993, é possível tirar a estrofe que o define: “Não passas. Quem foste / Ainda és naquela hora / Que é esta. / És a hoste / Que não foste embora.” O câncer o derrubou, acho que não o venceu. Ficou o legado de sua obra intensa, e a sensação de que hoje o universo perdeu um largo naco.