Marilyn Monroe aos 100 anos: a leitora por trás do mito

A famosa atriz de cinema Marilyn Monroe, que gostava de ler e escrevia poesias, completaria 100 anos em 1º de junho de 2026

A atriz em sua última entrevista, concedida a repórteres da revista Life, em 1962, um mês antes de morrer
A atriz em sua última entrevista, concedida a repórteres da revista Life, em 1962, um mês antes de morrer

Marilyn Monroe, que completaria 100 anos em 1º de junho de 2026, todo mundo sabe, era uma das maiores estrelas de Hollywood. O que nem todo mundo conhece é a face intelectual da atriz. Ao morrer, com apenas 36 anos, Marilyn tinha em casa mais de 400 livros. Em outubro de 1999, a biblioteca de uma das loiras mais famosas do cinema estava entre seus itens pessoais leiloados na Christie's de Nova Iorque (EUA). A rede social LibraryThing identificou 261 títulos desta vasta biblioteca, nos catálogos dos leilões.

No ano do centenário de nascimento da atriz, essa particularidade ganha novos contornos com o lançamento de Marilyn: the last photos and the last interview (Editora Weldon Owen), sem tradução para o potuguês. O livro apresenta ao público mais de 400 fotografias e a transcrição completa da última entrevista concedida por ela, que gerou quatro horas de áudio. Na gravação, Marilyn fala sobre o peso da fama, elogios e críticas que recebia ao mesmo tempo, solidão e privacidade, colocando sua faceta intelectual acima da imagem de loira linda.

O ensaio, feito pelo fotojornalista Allan Grant, e a entrevista ao então editor da revista norte-americana Life, Richard Meryman (1926-2015), foram realizados em 7 de julho de 1962, na casa dela, no bairro Brentwood, em Los Angeles. A matéria foi publicada em 3 de agosto de 1962, com chamada na capa: Marilyn - Pours her heart out. Dois dias depois, a atriz foi encontrada morta, na mesma casa, ao lado de um vidro de barbitúricos. Na ficha técnica, a autoria do livro é de Marilyn Monroe e do jornalista Richard Meryman.

Fotos inéditas do ensaio e áudios da entrevista integram exposição no Museu da Imagem e do Som (MIS), em São Paulo, no bairro Jardim Europa. A mostra Marilyn: a última entrevista, levada ao público pela primeira vez, celebra o centenário de nascimento da atriz e está inserida no programa Maio Fotografia no MIS 2026. Nas imagens de Allan Grant (foto abaixo, Allan Grant for LIFE Magazine Collection ©: 1962 MM LLC) a artista é vista em poses despretensiosas. “Os retratos revelam uma Marilyn em sua intimidade, descalça, fazendo caretas, piruetas e emocionada”, destaca o museu.

“A fama é inconstante”, diz a atriz logo no início do vídeo em exibição no MIS, com um recorte da gravação para os repórteres da Life. E continua: “Fama e felicidade, me parece, são certamente temporárias e uma felicidade parcial. Mas não são realmente para o dia a dia. Quero dizer, isso não te preenche.” Na entrevista, além de não se mostrar deslumbrada com riqueza e fama, ela revela a preocupação de estar bem preparada para cumprir seu papel de artista. De 1947 a 1961, Marilyn Monroe atuou em 29 filmes.

“Eu gostaria de aprender mais sobre minha arte. Para que fosse mais simples para eu fazer meu trabalho, quando o diretor disser ‘Uma lágrima agora!’ aquela lágrima apareça. Bom, primeiro tive a sensação de que, de alguma forma, eu estava enganando eles, e talvez, todo mundo. E talvez a mim mesma. Esse era o sentimento real que eu tinha. Mas ainda assim, eu sabia que levava meu trabalho a sério”, declara em outro trecho do áudio.

Ao falar sobre a profissão, ela cita o diretor e produtor de teatro Max Reinhardt (1873-1943). “Mas você já leu o que Max Reinhardt diz sobre um ator? Muito interessante, ‘Actors on Acting’. Bem, eu costumava me questionar sobre alguns dos meus sentimentos. E então eu li aquilo, e pensei, nossa, quando ele fala sobre uma criança brincando, ele está dizendo que é assim que um ator, o que o ator deve manter. Então, talvez haja esperança.”

A atriz de Gentlemen Prefer Blondes (Os Homens Preferem as Louras), How to Marry a Millionaire (Como Agarrar um Milionário), Bus Stop (Nunca Fui Santa), Some Like it Hot (Quanto Mais Quente Melhor) e The Misfits (Os Desajustados) menciona Johann Wolfgang von Goethe, escritor e pensador dos séculos XVIII e XIX, para defender o valor da privacidade e a necessidade de estar só. “Eu acho que elas (as pessoas) deveriam perceber que você é real, que você é humano”, destaca, na entrevista.

Por trás das câmeras

A biblioteca pessoal da atriz revela uma leitora voraz de obras de poesia, arte, literatura clássica e contemporânea, política, psicologia, religião, história e filosofia. Sim, Norma Jeane Mortensen - ou Norma Jean Baker, nome de batismo de Marilyn Monroe - gostava de ler. Muito. E não só lia, como escrevia. Deixou poemas, pensamentos e reflexões sobre sua vida e seu trabalho registrados em cadernos de anotações. Não fez faculdade, mas frequentou cursos noturnos de história da literatura na Universidade da Califórnia.

“Ela era engraçada e séria ao mesmo tempo. Tinha um senso de humor afiado, mas também era profundamente interessada em literatura clássica, como Tolstói. Marilyn não era uma loira burra. Ela era uma mulher muito inteligente e astuta.” É assim, bem diferente da imagem pública, que a atriz é lembrada, por Edith Shaw Marcus, na obra Icon: The Life, Times, & Films of Marilyn Monroe (Ícone: A Vida, a Época e os Filmes de Marilyn Monroe, volume 1: 1926 a 1956), lançada em 2016 por Gary Vitacco-Robles.

Edith Shaw Marcus é filha de Sam Shaw (1912-1999), fotógrafo e, acima de tudo, amigo próximo e confidente da atriz. É dele a inesquecível foto de Marilyn com o vestido branco esvoaçante que rodou o mundo. “Minha mãe, Anne, a adorava e elas eram grandes amigas.” As declarações de Edith Shaw Marcus foram dadas à jornalista Marion Scott, do jornal escocês Daily Record & Sunday, e reproduzidas no livro. Ela define a estrela do cinema como uma pessoa “maravilhosa, calorosa, espirituosa e inteligente.”

A imagem de uma Marilyn leitora também surge no livro de memórias póstumas da poeta e crítica literária Edith Sitwell (1887-1964), Taken Care Of: an autobiography, de 1965, citada na mesma publicação de Gary Vitacco-Robles. “Conversamos principalmente, pelo que me lembro, sobre Rudolf Steiner, cujas obras ela acabara de ler”, escreveu Edith Sitwell na autobiografia, sobre um encontro com Marilyn Monroe. Rudolf Steiner (1861-1925), foi um filósofo e educador, criador da pedagogia Waldorf.

A artista apreciava a poesia de e.e. cummings, importante autor do século XX, falecido em setembro de 1962. Gary Vitacco-Robles faz essa referência ao descrever um passeio numa livraria, quando Arthur Miller (um dos ex-maridos) apresenta Marilyn à obra do poeta. Em seu livro de memórias, One Lifetime is Not Enough, (Uma vida não basta), de 1991, a atriz Zsa Zsa Gabor, casada com o ator George Sanders, que contracenou com a loira no filme All About Eve (A Malvada), sinaliza a Marilyn poeta, ao recordar uma crise de ciúmes.

Entre as explicações para acalmar a mulher furiosa, George Sanders respondeu: “Ela queria que as pessoas gostassem dela, sua conversa tinha uma profundidade inesperada. Ela demonstrava interesse por assuntos intelectuais que era, para dizer o mínimo, desconcertante.” Na sequência, destacou a boa qualidade dos poemas que Marilyn escrevia e compartilhava com ele, no refeitório do set de filmagem. “Poesia! Como posso lutar contra a poesia dela?”, respondeu Zsa Zsa Gabor, morta em 2016 aos 99 anos.

Fragmentos

Que ela era um ícone de beleza na Hollywood dos anos 1950, ninguém duvida. As fotografias estão aí como prova. Mas se você reparar bem, as mesmas fotos que exibem a sensualidade da loira de formas voluptuosas, mostram uma leitora antenada com a literatura da sua época. Esse dado pouco conhecido da curta trajetória da atriz também está relatado no livro Fragmentos - Poemas, Anotações Íntimas e Cartas de Marilyn Monroe, da Editora Tordesilhas (2011). A organização é de Stanley Buchthal e Bernard Comment.

E o que lia a famosa atriz? Walt Whitman, Khalil Gibran, Bertrand Russell, Sigmund Freud e Heinrich Heineken. As fotos não mentem. Na biblioteca de Marilyn tinha James Joyce (Ulysses), Gustave Flaubert (Madame Bovary), Ernest Hemingway (The Sun Also Rises, A Farewell to Arms), Samuel Beckett (The Unnamable), Albert Camus (The Fall), Jack Kerouac (On the Road), Harold Flender (Paris Blues), Theodore Dreiser (Sister Carrie), Joseph Conrad (The Secret Agent), John Steinbeck (Once There Was a War, Tortilla Flat),  Ralph Ellison (Invisible Man) e Michael Chekhov (Para o ator), entre outros.

Lançado em 1926, o ano em que Marilyn nasceu, The Sun Also Rises (O Sol Também se Levanta, em português) narra o cotidiano de um grupo de amigos norte-americanos e ingleses que habitam Paris depois da 1ª Guerra Mundial. É um livro sobre solidão e morte. O tratado de filosofia Our Knowledge of the External World (Nosso Conhecimento do Mundo Externo), publicado pelo matemático e filósofo Bertrand Russell, em 1914, e Moses and monotheism (Moisés e o Monoteísmo), de 1939, no qual Freud, o pai da psicanálise, explica as origens da religião, faziam parte da eclética leitura da célebre artista.

A estrela de cinema de Hollywood até pode ser para sempre lembrada pela clássica cena da lufada de vento que levanta pelos ares seu vestido branco de saia plissada, no filme The Seven Year Itch (O Pecado Mora ao Lado, lançado em 1955). Mas sabia escolher a dedo cada livro que levava para sua estante. Agora, se você ficou interessado nos textos que ela escreveu, vamos matar sua curiosidade com três dos poemas reproduzidos no livro Fragmentos - Poemas, Anotações Íntimas e Cartas de Marilyn Monroe.

“Creio que sempre fui profundamente aterrorizada de ser a esposa de alguém/ porque sei desde sempre/ um não consegue amar outro, nunca, realmente.”; “onde os olhos dele descansam com prazer - quero ainda ser - mas os tempos mudaram a força desse olhar. Oh céus como suportarei quando estiver menos jovem  -”; “busco alegria, mas ela está vestida de dor/ entro em contato com o coração como na minha juventude/ durmo e descanso minha cabeça pesada no peito dele - pois meu amor ainda dorme ao meu lado.”

De 34 imagens selecionadas para Fragmentos, incluindo a capa, Marilyn, a artista norte-americana que discutia literatura, poesia e artes com os amigos, aparece com livros em 12 registros e com um caderno de anotações nas mãos em duas fotos. Em outra fotografia, a atriz, que também era modelo e cantora, está bem à vontade ao lado de Carson McCullers, romancista americana, e de Karen Blixen, escritora dinamarquesa que morreu aos 77 anos, em 7 de setembro de 1962. Um mês depois da morte de Marilyn, em 4 de agosto.

Karen Blixen é autora do livro Out of Africa e do conto A Festa de Babette (do livro Anectdotes of Destiny), adaptados para o cinema e bem conhecidos dos cinéfilos. Os romances de Carson McCullers (1917-1967), também poeta e contista, falavam de pessoas solitárias (The Heart is a lonely Hunter, The Member of the Wedding). Como se vê, pelo que lia e pelo círculo que frequentava, Marilyn, nascida em Los Angeles, na Califórnia, não era apenas a loira dona de uma das belezas mais admiradas da face da terra.

Leia mais sobre os livros da biblioteca de Marilyn Monroe no aplicativo da revista Continente.


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