Morre o poeta e tradutor Alexei Bueno, aos 63 anos

Organizador da edição crítica e da obra completa de Augusto dos Anjos, o escritor faleceu em sua casa, no Rio de Janeiro, em decorrência de um câncer no fígado

O poeta, crítico literário, editor e tradutor carioca Alexei Bueno morreu, aos 63 anos, na madrugada deste sábado (27), em sua residência no Rio de Janeiro, em decorrência de um câncer no fígado. 

Bueno editou a Obra Completa de Augusto dos Anjos (Editora Nova Aguilar), com 900 páginas, que se tornou obra de referência sobre o poeta paraíbano que começou a ler ainda na infância.

Entre as obras de poesia que deixou estão A Chama Inextinguível, reunindo os livros As Escadas da Torre (1984), Poemas Gregos (1985), Livro de Haicais e A Decomposição de Johann Sebastian Bach (ambos de 1989), Lucernário (1993), Anamnese  (2016) A noite assediada (2022), Naquele remoto agora (2024). Como editor, organizou as edições de Os Lusíadas, de Augusto dos Anjos, Mário Sá-Carneiro, Cruz e Sousa, Olavo Bilac, Jorge de Lima, Álvares de Azevedo, Almada Negreiros, Vinicius de Moraes, entre outras obras.

"Alexei era um raro poeta na escrita e no conhecimento. Viveu radicalmente a experiência da poesia: na fala, no gesto, na passagem radical da vida. Um erudito feroz. Poeta violentamente poeta, e ainda com uma generosa elegância de espírito, uma cordialidade de quem sabe, quase de humildade e timidez que ele vencia em cada frase. Era a poesia em todos os estados" afirma o poeta, crítico de arte e dramaturgo Weydson Barros Leal.

No dossiê sobre Augusto dos Anjos, publicado na edição da revista Pernambuco, em abril de 2024, Alexei Bueno concedeu uma entrevista à jornalista Fabiana Freire Peppeu na qual falou sobre o processo de edição da obra do poeta paraibano.

Membro da Academia Paraibana de Letras e professor titular da Universidade Federal da Paraíba, Milton Marques Junior recebeu com surpresa a notícia da morte de Alexei Bueno. “Recebi há uma semana o último livro dele - O poste- Auto sacramental em dois atos, que ainda nem abri para ler porque estava envolvido com a leitura de dois livros de poemas dele, um sobre o rio e o outro, A Chave Quebrada”, diz o escritor. “O Brasil perde um grande poeta, um grande crítico, um grande editor, sobretudo alguém que conhecia profundamente os critérios da edição crítica, da edição filológica”.

Milton e Alexei se conheceram em 1994, embora não ele tenha privado nesse tempo todo de sua companhia. “Nos encontramos em 2024 para um evento do 1ª Fliparaíba, numa mesa sobre Luís de Camões.  Foi um bate-papo muito bom, porque Alexei era um poeta excelente, um crítico também de excelência e um grande camonista, a ponto de conhecer de memória vários trechos de Os Lusíadas.”

Milton Marques Junior mantinha correspondência com Alexei Bueno e, a cada lançamento do poeta, recebia exemplar autografado da nova obra. “Cheguei a fazer textos críticos de seus livros”, relembra.

“Como editor, Alexei Bueno fez uma edição crítica de estabelecimento de texto que se firmou como um marco na poesia de Augusto dos Anjos, que deveria ter sido respeitado. Mesmo depois desta edição de 1994, continuaram a sair edições com erros que foram retirados por ele”.

Juntos, desenvolveram uma nova edição da obra de Augusto dos Anjos, com prefácio de Alexei e posfácio de Milton. “A edição já foi revisada e está no prelo, devendo sair este ano pela editora A União”, afirma.

Milton Marques destaca um das características que considera essenciais em Alexei: “Ele era extremamente criterioso, exigente. Não gostava de pessoas que se passavam por inteligentes ou intelectuais - ele não gostava deste termo -, principalmente quando essas pessoas eram sobretudo ignorantes”.

Outra característica marcante de Alexei Bueno era a sua inquietação. “Ele era um deslocado. Vivia em confronto com o mundo, mas o mundo da ignorância, da prepotência, da fatuidade”.

Numa das conversas que tiveram, Milton recorda que Alexei dizia que não teve infância, que não brinco como as outras crianças, porque vivia entre livros. “As primeiras lembranças que ele tinha, era com um livro na mão, o que fez ele um pessoa culta. Não apenas na literatura, como na numismática, na história...”