Vladimir Maiakóvski: o profeta de um tempo que rugia

Apenas nove meses após a publicação do único livro de Augusto dos Anjos, Vladimir Maiakóvski lançava em Moscou sua primeira obra com título igual em russo: Eu! Foram impressos apenas 300 exemplares, três vezes menos que a edição de um milheiro bancada por empréstimo pelo irmão Odilon dos Anjos. Prestes a completar 20 anos, a situação financeira de Maiakóvski não era das melhores. O dinheiro para publicar o livro veio dos 50 copeques que o seu amigo David Burliuk, fundador do Futurismo e primeiro mestre de Maiakóvski, lhe dava semanalmente para não ter que se ocupar com a subsistência básica e escrever poemas.

Ao contrário de Augusto dos Anjos, a família de Maiakóvski não pertencia à aristocracia. Vladimir, que deu ao filho o seu nome, era um agente florestal na pequena Bagdádi, na Geórgia, à época integrante do império russo. Morreu em 1906, um ano após Augusto dos Anjos perder o seu pai. De mudança para Moscou, a renda extra que complementaria a mirrada pensão adviria da locação de quartos a estudantes pobres.

Maiakóvski era um assíduo frequentador das reuniões secretas que os inquilinos faziam em sua casa. Aquele rapazote alto logo chamou a atenção dos organizadores daqueles encontros nos quais se lia publicações clandestinas. “Não se preocupe, esse menino é o filho da senhoria”, disseram. O convívio com os revolucionários levou Maiakóvski a memorizar páginas inteiras de O capital , de Marx, e a ser preso algumas vezes.

No cárcere, além de voltar a se interessar por literatura e lê-la a sério, Maiakóvski tomou a decisão de obter alguma formação para, deste modo, ser mais útil à revolução. Ao escolher a profissão, o poeta levou em conta sua grande 

aptidão para o desenho e resolveu cursar a Escola de Artes e Arquitetura.
Quando Maiakóvski estreou, a literatura de seu país estava no apogeu da Era de Prata, nomenclatura que designa o modernismo russo. Ao contrário do Brasil, em que o Modernismo foi uma escola literária surgida em 1922, e que basicamente significa vanguarda, na Rússia o Modernismo se instaurou a partir da confluência de várias tendências simultâneas, a primeira delas o Simbolismo, surgido na década de 1890. O Futurismo, a que vai se filiar em 1912, foi uma dessas tendências modernistas, a com proposta mais visceral de renovação, antagonizando com o Simbolismo, mais do que o Acmeísmo, de Akhmátova e Mandelstam, que propunha um retorno à objetividade, sem radicalidades estilísticas.

Enquanto não chegavam os dias que abalariam o mundo, Maiakóvski, exímio declamador e autor de uma poesia com forte apelo musical e, como a de Augusto dos Anjos, repleta de rimas originais, se comprazia em esbofetear o gosto da burguesia da época, algo que o paraibano também fez ao se contrapor à poesia sorriso da sociedade.

Se Augusto dos Anjos valia-se da técnica do impressionismo para a composição de suas metáforas e para a criação de seus mundos doentios, Maiakóvski dava a impressão de imaginar pinturas cubistas e, em seguida, escrever um poema a partir dos quadros que existiam só na sua cabeça, transpondo para a escrita técnicas das artes plásticas como colagem, justaposição, quebra de perspectiva.

Estou vendo Cristo correndo do ícone
a borda aventuada da túnica
beijou, chorando, o lamaçal,
jogo gritos no tijolo
e na inchada polpa do céu transfixo
as palavras frenéticas de um punhal.

Trotski, em Literatura e Revolução, criticava o poeta rural Nicolai Klyuev por ter aderido ao movimento revolucionário “à moda de um camponês”, pois, “A Revolução é antes de tudo uma revolução citadina”. Em 1913, ao estrear na literatura, Maiakóvski não só pressentia a vibração do novo mundo que chegaria como o celebrava a plenos pulmões. Ao amigo, e colega de futurismo, Boris Pasternak, Maiakóvski disse algo que poderia muito bem ser repetido a Augusto dos Anjos: “O senhor ama o relâmpago no céu enquanto eu, o ferro elétrico”.

O ímpeto pela liberdade, tanto política como poética, fez Maiakóvski ter como uma de suas grandes influências iniciais o poeta norte-americano Walt Whitman, vindo a ser acusado, injustamente, por seu rival Sierguéi Iessiênin, de ser um plagiário dele. A paisagem urbana, barulhenta e colorida por anúncios, era, portanto, o mundo novo a ser proclamado por seu profeta, Vladimir Maiakóvski.

Leiam livros em ferro editados.
Sob a flauta há letras de ouro
Vão no arrasto peixes brancos secos
e repolhos com seus cachos louros

Pra que haja um cachorro alegre
rodopia à constelação “Maggi”
E o birô para os assuntos fúnebres
Seus sarcófagos eles que trazem.

No Brasil, a promessa de ruptura encenada não se consumou, pois, nossa tradição para o conchavo conciliatório legou, novamente, o poder a um pacto de poucas mãos. A podridão do mundo de Augusto dos Anjos continua mais atual do que nunca. A Rússia promoveu com a revolução de 1917 uma mudança total na estrutura da sociedade e a elite que era ridicularizada por Maiakóvski, em suas escandalosas apresentações, deixou de existir dando origem ao homus soviectus cujo final marcaria, também, o encerramento do século XX que, de fato, se inicia com Primeira Guerra Mundial, em 1914.

Às vésperas da nova época que surgia, foram lançados dois livros com o mesmo título, um no Brasil e outro na Rússia, tributários da tradição do gênio romântico, os poetas puseram-se no centro dos eventos ao nomear suas obras de Eu. O tempo se retorcia em dois: Augusto cantou aquilo que morria, Maiakóvski o que chegava.