O poeta Alexei Bueno nasceu no Rio de Janeiro em 1963. É também crítico literário, ensaísta, tradutor e editor. Além do premiado trabalho autoral, sua produção inclui traduções, antologias poéticas, ensaios sobre literatura, artes plásticas, cinema patrimônio cultural brasileiro.
Entre os seus principais trabalhos editoriais, sublinhamos a organização da Obra Completa de Augusto dos Anjos (1994) pela editora Nova Aguilar, com 900 páginas, referência sobre o poeta.
Alexei traduziu para o português As quimeras, de Gérard de Nerval, editado pela Topbooks, também com edição portuguesa. Traduziu igualmente poemas de Edgar Allan Poe, Henry Wadsworth Longfellow, Stéphane Mallarmé, Torquato Tasso, Giacomo Leopardi, entre outros. Sua tradução do famoso poema de Poe, O corvo, considerada um grande desafio para os tradutores pelo virtuosismo formal – e que já havia sido traduzido por Machado de Assis e Fernando Pessoa – integra sua coletânea bilíngue Cinco séculos de poesia (Record), de 2013.
Em 2003, sua poesia reunida ganhou o prêmio Jabuti. Em 2017, a editora portuguesa Exclamação lançou Desaparições, antologia de sua obra poética organizada e prefaciada pelo também poeta e crítico português Arnaldo Saraiva, segundo o qual Alexei Bueno é talvez a mais poderosa voz da poesia brasileira revelada nas últimas décadas”.
Nessa breve entrevista, Alexei – gentil e de simplicidade ímpar – teceu comentários sobre Augusto dos Anjos e sua poesia singular.
Você tem uma vasta produção autoral, e, ainda, atua na área de crítica literária e tradução. Em que momento se deu a sua aproximação de Augusto dos Anjos? Houve algum episódio que o levou ao poeta paraibano ou foi uma demanda de trabalho editorial?
Nem uma coisa nem outra, puro contato com a obra. Conheço Augusto dos Anjos desde a infância, desde quando comecei a ler, e a ler muita poesia, primeiramente no velho Tesouro da Juventude, no qual ele está representado, depois no próprio Eu e outras poesias. É uma admiração de vida inteira, em meio a muitos outros autores.
Qual foi a sua principal dificuldade ao pesquisar sobre Augusto dos Anjos? Que descoberta inusitada ou inédita fez durante a sua pesquisa?
A questão textual, as edições do Eu e outras poesias eram muito ruins, cheias de erros que se foram repetindo de edição em edição. Um exemplo importante é o do verso 12 do soneto de “O último número”, já que se trata do seu poema derradeiro. Na primeira publicação, na Gazeta de Leopoldina, no dia seguinte ao de sua morte, saiu Pois que a minha antogênica Grandeza, adjetivo sem sentido, pois se refere ao nascimento das flores, uma gralha evidente. Na segunda publicação, no Almanaque do Estado da Paraíba para 1917, saiu "Pois que a minha antagônica Grandeza", que também não faz sentido. Na segunda edição do Eu, com as Outras poesias acrescentadas pelo Órris Soares, em 1920, ele repetiu a lição absurda da primeira publicação na imprensa, já que não se conhece manuscrito do poema. No Humberto Nóbrega, que era totalmente destituído de método, aparece Pois que a minha autogênita grandeza, e finalmente, na 29ª edição do Eu, aparece Pois que a minha ontogênica grandeza. Todas erradas. Por pura lógica textual e de ecdótica, pus "Pois que a minha autogênica Grandeza" na edição crítica da Obra completa, em 1994. Antes de o livro ser impresso, confirmei a minha escolha ao perceber o que ninguém havia notado em oito décadas, no “Elogio de Augusto dos Anjos”, do Órris Soares, que abre a mesmíssima edição de 1920, o soneto está reproduzido com esta lição, que é a correta, mas todos seguiram a versão errada no corpo do livro. Isto dá uma ideia das dificuldades que há numa fixação de texto.
Augusto dos Anjos deixou herdeiros. Qual a relação desses herdeiros com o legado do poeta? Algum deles tentou trilhar caminho semelhante?
Na véspera do seu centenário, 20 de abril de 1984, eu, com 19 anos, fui até Leopoldina, e me hospedei no mesmo hotel em que estava hospedado o Guilherme Augusto dos Anjos, seu filho, homem brilhante. Lá conversamos longamente, até o início da madrugada, já que no dia seguinte ocorreriam as cerimônias. Sabia tudo do pai, mas não escreveu poemas, ao menos não os publicou. O Ricardo dos Anjos, seu neto, este escreveu e publicou, em estilo e temáticas, naturalmente, completamente diversos daqueles do avô.
O livro de Humberto Nóbrega traz um perfil de Augusto dos Anjos alegre e zombeteiro, que parece o contrário da imagem que comumente se tem dele. A partir de suas pesquisas que imagem você nos traz do poeta ou que perfil lhe parece mais fiel à realidade?
Seguramente, era exatamente assim, não se pode e não se deve imaginar a psicologia e o comportamento de um autor por meio da sua obra.
Qual a importância do material que você encontrou na Nonevar para construir o perfil de Augusto dos Anjos?
A grande importância de eu ter conseguido uma cópia das edições do Nonevar encadernadas, volume que estava na garagem da casa do Humberto Nóbrega, foi reencontrar as datas (cotejando os dias da semana da festa de N. S. das Neves com o calendário) e o texto correto de todos os poemas de circunstância, sociais, cômicos, do Augusto, já que o Humberto Nóbrega – é até difícil de acreditar – os publicou sem data no Augusto dos Anjos e sua época, livro eivado de erros e imprestável sob qualquer aspecto de método. Este exemplar, que eu saiba, desapareceu posteriormente, só se conhece o paradeiro do xerox, ruim – o jornal era impresso em papel colorido – , que eu conservo.
O século XIX é o século do ufanismo científico, da euforia do conhecimento, da ilusão do progresso ilimitado. Se esse era o sentimento vigente na época, o que levava Augusto dos Anjos a ser pessimista? Ele era um pessimista?
Ele era a negação das convicções de tal cientificismo, trata-se do grande poeta da impossibilidade da cognição, basta recordar poemas como “O mar, a escada e o homem” ou “Solilóquio de um visionário”. Só há duas possibilidades de um homem não ser pessimista, uma convicta fé religiosa ou a estupidez.
Afinal, era mesmo da morte que falava Augusto dos Anjos ou havia muita vida em seus poemas?
São inseparáveis, mas muito mais vida do que morte. O que o obcecava era o sofrimento do homem, e não apenas do homem, de todos os seres, poderia dizer do cosmos. A morte é o momento máximo e final desse sofrimento.
Sendo você tradutor, Augusto dos Anjos é mesmo um caso singular na poesia brasileira? Caso não seja, que outro poeta pode ser comparado a ele?
Ele surge dentro do Simbolismo, basta ver um soneto como “Vandalismo”, e com uma forte influência do Cruz e Sousa da última fase, basta comparar “Eterna mágoa” com muitos dos Últimos sonetos do Cruz e Sousa. A poesia moderna surgiu, quase invariavelmente e em todos os países, do Simbolismo, e me refiro à “poesia moderna”, um fenômeno do século XIX, não poesia “modernista”, futurista, ou que nome tenha, que é do século XX. A poesia moderna – não modernista, repito, no Brasil é necessário repetir isto ad nauseam – nasce no Brasil com o Cruz e Sousa de Faróis e com Augusto dos Anjos. A maior influência que ele sofreu – esta muito forte, e em toda a obra da maturidade – foi a de Cesário Verde. Então, fora essa filiação simbolista da juventude, ele não se parece com ninguém no Brasil, afasta-se de tudo para criar um expressionismo sui generis, altamente pessoal, sozinho.
Em relação não apenas à poesia brasileira, mas também estrangeira, como é possível situar Augusto dos Anjos?
Como disse, um expressionista sui generis, poeta de gênio, de nível universal. Há um poeta argentino, Almafuerte, que foi seu contemporâneo, mas que não pode tê-lo lido – nem o contrário –, mas que escreveu alguns poemas incrivelmente parecidos com os de Augusto dos Anjos. É um dos casos literários mais estranhos que conheço.
Por que foi Leopoldina quem assumiu a memória de Augusto dos Anjos?
Não sei, lá está seu túmulo e a sua casa-museu, e, de fato, a cidade criou um verdadeiro culto a ele, de forma completamente espontânea e muito autêntica. Euclides da Cunha nasceu em Cantagalo e morreu no Rio, mas a cidade que é o cerne do culto à sua ilustre memória é São José do Rio Pardo.
Na questão da apropriação simbólica de Augusto dos Anjos por Leopoldina: Augusto dos Anjos foi recebido como forasteiro, alguém alheio ao magistério mineiro. Essa visão foi alterada no curto período em que foi diretor de um grupo escolar no município ou veio com a sua morte?
Ele viveu quatro meses em Leopoldina, lá foi muito bem-recebido, lá passou este curto período de tranquilidade e estabilidade financeira, e lá escreveu algumas das obras-primas que estão nas Outras poesias. Não ocorreu “apropriação simbólica” nenhuma, há uma veneração pelo poeta, a mesma que encontramos no Brasil inteiro, só que lá houve e há uma relação direta, inclusive material.
Por que você certa vez apresentou Augusto dos Anjos como o poeta da impotência e do fracasso?
Não disse exatamente isto, disse o que reproduzi acima, o poeta da impossibilidade da cognição, do fracasso perante qualquer tentativa de compreender o mistério universal, cósmico. Augusto dos Anjos é um poeta místico do mais alto nível, místico sem confissão religiosa específica, místico perante este universo incompreensível que se apresenta a todos nós e do qual fazemos parte.