Questões urgentes de Angela Davis

Nome inconteste para analisarmos as relações entre raça, gênero e classe, a ativista e professora emérita da Universidade da Califórnia, Angela Davis, chega aos 80 anos absolutamente atual e conectada aos desafios do presente, a exemplo do seu posicionamento público a respeito da guerra entre Israel e o Hamas. Desde janeiro, uma série de programações também no Brasil celebram o pensamento de Davis, focalizando questões como sua defesa de um abolicionismo penal, além da contínua análise das questões de gênero em cruzamento com a experiência da história negra. Davis tem marcado presença em eventos pelo país desde 2017, um ano após a editora Boitempo começar a publicar sua obra e, finalmente, o público brasileiro poder conhecê-la para além do rosto que estampou a campanha por sua libertação. O primeiro livro a que os leitores brasileiros tiveram acesso, Mulheres, raça e classe, considerada uma das obras de referência de Davis, escrito nos anos de 1970 e publicado originalmente em 1981. Também foram publicados Mulheres, cultura e política, A liberdade é uma luta constante, Uma autobiografia e O sentido da liberdade, todos entre 2017 e 2022. No final de 2023, a Companhia das Letras publicou Abolicionismo. Feminismo. Já, coautoria de Davis com Gina Dent, Beth E. Richie e Erica R. Meiners. No final de março, Davis lançou, nos Estados Unidos, Abolition: Politics, Practices, Promises (Abolição: política, prácticas, promesas, em livre tradução), reunião de ensaios e discursos mais relevantes em dois volumes, escritos em momentos bem distintos do atual, mas oportunos e incômodos.

Com a circulação das obras em língua portuguesa, Davis ganha também leitores jovens, atualizando a luta antirracista e abolicionista. A demora para a tradução de seus livros envolve muitos fatores, sendo o principal deles o desinteresse do mercado editorial na publicação de autores e autoras negras. As obras das pensadoras Patricia Hill Collins e Bell Hooks, passaram por um atraso parecido com o de Davis. Antes das traduções, esses e outros nomes fundamentais para o debate racial como o do psiquiatra e filósofo Franz Fanon circulavam em grupos específicos, graças aos movimentos sociais. Muitas peças se mexeram neste jogo com as políticas públicas afirmativas, maior presença de negros nas universidades, em especial nos programas de pós-graduação e, claro, um mercado editorial que passou a incorporar autores e autoras não brancos.

Para entendermos a força e a permanência da obra de Angela Davis, mais de 50 anos depois de sua prisão que mobilizou o mundo e sua absolvição em 1972, a Pernambuco ouviu pesquisadoras sobre diferentes aspectos do pensamento crítico de Davis, formando um mapa conceitual de suas principais ideias.

Laíssa Ferreira, filósofa, doutoranda em Filosofia na Unicamp com pesquisa sobre o conceito de liberdade na obra de Angela Davis.

Quais os conceitos fundamentais da obra de Angela Davis, na sua opinião, permanecem alinhados com as questões sociais de hoje, em especial em relação às mulheres e à raça?
Podemos pensar em dois conceitos formulados não só por Angela Davis, mas por todas e todos aqueles que estão comprometidos de fato com a transformação social: liberdade e libertação. Muitos de nós conhecemos Davis pela sua trajetória e luta por liberdade do povo negro – ela cresceu no período de segregação racial – e das mulheres. Sua inserção nos movimentos sociais possibilitou que ela, como filósofa, ampliasse seu entendimento sobre liberdade de modo a integrar todo e qualquer tipo de luta contra a opressão. Além disso, para ela, não é possível pensar a liberdade sem pensarmos o conceito de libertação, cujo aspecto principal é trazer concretude a essa luta por liberdade. É, portanto, através da libertação que se pode alcançar a liberdade. Isso significa que a luta por liberdade está intrinsecamente conectada às questões sociais e aos movimentos sociais. Logo, as questões de raça e gênero são pensadas por ela à luz desses conceitos e continuam a fazer sentido mesmo hoje. Não à toa, consideramos textos de Angela Davis publicados nos anos de 1980 essenciais para a nossa luta atual contra a opressão.

CONTEÚDO NA ÍNTEGRA NA EDIÇÃO IMPRESSA

Venda avulsa na loja da Cepe Editora