Quando partimos de Brasília para Miami, em agosto de 2004, alguém me comentou que uma das vantagens da cidade era o clima.
Fomos recepcionados no dia 13 por Charley, de nome simpático e alta categoria (4), que chegou a Coconut Grove, onde nos hospedamos, com ventos camaradas, que, por precaução do hotel, nos impediam de sair às ruas. “Nada comparado ao Andrew, de 1992,” nos disse um recepcionista, “que jogou esses barcos da marina aí em frente na entrada dos prédios”. Que bom que os dois rapazes, Charley e Andrew, não fossem parentes!
Começou a batalha para procurar casa. Que tal Coral Gables?, sugeriu a corretora imobiliária. Vejam que beleza, os jardins bem-cuidados. Muitas casas depois, comentou que surgira uma numa área do Grove, de vegetação selvagem e ruelas estreitas. A aparência podia assustar. Minha mulher, Bia Wouk, com olho de excelente artista plástica, não se assustou com a enorme gaiola de araras na entrada, nem com a indescritível desordem. Fixou-se nos azulejos das paredes e de uma escadaria externa (italianos, espanhóis e portugueses), com o pátio com fonte, ao estilo espanhol, ideal para um coquetel, e as árvores que nos acenavam contentes ao mero toque do vento. Era um jardim desenhado por Olmsted Jr, herdeiro intelectual do pai Olmsted, o arquiteto do Central Park em Nova York. Sem a bagunça, a casa era ideal.
O toque cubano no assoalho de mosaicos e nas pedras porosas que a circundavam não vinha da Calle Ocho, nem comemoraria a morte de Fidel, como no Café Versailles. A construção datava de 1926, após o devastador furacão de setembro.
Noutro setembro, o jardim de Olmsted espalhou galhos com a chegada de Frances, no dia 5, que passou ali com categoria 1. Tínhamos que esperar por Jeanne, no dia 26, de categoria 3. Saí para fotografar raízes de árvores apontando para o céu.
O jardim de Olmsted compensava, com sua variedade de 400 espécies. Fez-nos conviver com répteis inofensivos, como sapos ou lagartixas. Atraía bichos maiores: guaxinins que abriam latas de lixo.
Podia também nos dar sustos, ao permitir que uma cobra coral se enrolasse bonitinha na maçaneta externa de uma porta. Duas horas antes de um coquetel que ofereceríamos a Gilberto Gil, o tal pátio espanhol foi ocupado por um enxame de abelhas. Quase tão rápidos quanto elas, especialistas conseguiram demovê-las da ideia de participar da festa.
Em agosto de 2005, o famoso Katrina incluiu o jardim de Olmsted no seu caminho. Uma de suas maiores árvores se deitou frondosa.
Esgotadas as letras do alfabeto usual, foi preciso naquele ano por primeira vez entrar no alfabeto grego para denominar furacões.
Três mulheres mostraram mais força: Katrina, Rita e Wilma. Rita chegou enfraquecida no Grove em setembro. Wilma, no mês seguinte, deixou 98 por cento das casas sem luz. O jardim de Olmsted não impediu que uma árvore caísse sobre a casa, na altura do quarto de uma de nossas filhas, e que outras bloqueassem a saída da garagem. Muitas casas foram destruídas em todo o condado, inclusive próximas à cidade quase brasileira de Pompano Beach, região que visitei à primeira hora e que requereu esquemas de emergência para distribuição de comida. A árvore imponente não havia derrubado paredes de nossa casa e foi replantada com proteções.
Criamos afeição pelo jardim de Olmsted, que voltamos um dia para visitar. Se tinha sobrevivido com galhardia aos furacões, não o mesmo contra a especulação imobiliária. No seu lugar um prédio se erguia.