Paris, a escolhida

Cidade dos filósofos. Era uma época em que tinham grande influência cultural e política. Sobre eles debatíamos nos cafés.

São 18 cidades. Mas, a escolher uma, seria Paris.

Foi onde conheci Bia Wouk. Tudo começou em 1979, num encontro no café Le Select, em Montparnasse. Bia veio a ser minha Maga e me mostrava a ponta da Ile Saint Louis que Cortázar descreve em “Las Babas del Diablo”.

Foi também no Select que comecei a escrever meu romance Ideias para onde passar o fim do mundo. Numa história que se passa em Brasília, há caminhadas por ruas de Paris.

Igualmente num café em Montparnasse, um amigo devolveu o vinho por não ser do ano certo. Grande conhecedor? Não. Apenas seu olfato e paladar haviam memorizado cada safra do vinho de seu vilarejo. Das muitas sofisticações francesas, que podiam ademais ser evidenciadas por uma longa discussão sobre o menu de um piquenique.

Frente ao Select, no restaurante La Coupole, conversávamos com um habitué, o ator Jean-Pierre Léaud, sobre o Cinema Novo brasileiro.

Paris, cidade do cinema e das caminhadas a pé. Caminhávamos à Rue de la Harpe, no Quartier Latin, para assistir aos filmes; ao Pied de Cochon, no Halles, ou, virando a noite, ao café Le Singe Pelérin, ali perto, quando outros chegavam para o café da manhã.

Escrevendo o romance Tanto faz, o amigo Reinaldo Moraes descrevia o ambiente vivido por muitos naqueles tempos.

Num mês de abril, nossa hóspede Ana Cristina César comentava Rimbaud e o conto “Bliss”, de Katherine Mansfield. Escreveu poema em torno do trabalho da Bia e usou imagem de um de seus desenhos para a capa do livro Luvas de pelica.

Cidade dos filósofos. Era uma época em que tinham grande influência cultural e política. Sobre eles debatíamos nos cafés. E íamos à Livraria La Une, em Saint Germain, folhear as novidades.

Frequentávamos aulas esparsas de Barthes, Bourdieu ou François Chatelet. Este, como conto mais adiante, salvou-me de um assalto, em cena mais próxima da ficção do que da filosofia.

Chegava-se cedo ao College de France para ouvir Michel Foucault, sua mesa repleta de gravadores diante de exposições que viriam a integrar seus livros sobre a história da sexualidade.

O seminário de Claude Lefort ficava nas dependências da Rue de Tournon da École des Hautes Etudes en Sciences Sociales. Ali ele me apresentou a Edgar Morin e a François Furet, que escrevia Penser la Révolution Française, coincidindo com Lefort na crítica ao totalitarismo.

Paris, cidade do exílio latino-americano e do Leste Europeu.

O seminário era frequentado por cerca de 20 pessoas, entre as quais os jovens e já reconhecidos intelectuais Marcel Gauchet e Pierre Rosanvallon. Para eles, como para Lefort, a esfera política tinha relativa autonomia. Não era apenas superestrutura. Sob a direção de Lefort, eu preparava tese sobre a ideologia autoritária nos discursos democráticos.

Volto a Châtelet, e não à sua história da filosofia. Era o tempo em que se davam caronas nas estradas sem medo. Tomando a Autoroute du Sud, o meu carona mandou: “Rápido! Estou sendo seguido”. Tivera que exibir seu revólver, me disse, para não pagar a conta num bar. Adiante me avisou que roubaria um carro para seguir viagem para a Espanha. Quando eu já me preparava para entregar minha Renault 5, descobrimos que frequentávamos o curso de Châtelet em Vincennes, o que criou conivência, embora eu não tivesse ouvido uma palavra sobre filosofia. O nome mágico de um filósofo tinha poder na cidade dos filósofos.

Era setembro de 1980 quando Bia e eu nos casamos antes da partida para Beirute. Um dia ainda escrevo sobre a emocionante vida de meu carrinho vermelho. Por enquanto, fica o registro de que, salva pelo nome de Châtelet, a Renault 5 chegaria lá sem rodas e mais tarde não escaparia dos fragmentos de um obus.