Poderia concluir esta série, já que Curitiba é a 18ª. cidade, ou seja, é onde moro. Mas a série não é cronológica. Quando escrevi sobre Brasília, comentei a pergunta frequente: Por que Brasília? Desde que cheguei, ouço pergunta semelhante: Por que Curitiba? A resposta curta é que minha mulher, Bia Wouk, é daqui, embora tenha saído cedo e feito fora sua carreira de artista plástica.
A pergunta tem a ver, em parte, creio, com o fato de ter me dedicado à literatura. Não seria melhor estar em São Paulo ou no Rio? Poderia falar da tradição literária. De Paulo Leminski, que conheci. Rara uma cidade que dá o nome de um poeta a um de seus principais espaços culturais, a Pedreira Paulo Leminski. A primeira imagem que fiz da cidade vinha de seu vampiro, que deu título ao conto, ao livro e tornou-se o apelido de Dalton Trevisan. Estava em Curitiba quando ele morreu. A cidade se preparava para comemorar seus 100 anos. Ao ouvir que tinha sido uma pena que não tivesse chegado aos 100, recordei-me do comentário de Borges a uma vizinha que lamentava o mesmo sobre sua mãe Leonor: “noto que a senhora é devota do sistema decimal.” Recebi num grupo de WhatsApp um documento do cemitério com os dados do defunto, logo retirado do site, e somente no dia seguinte sua morte foi noticiada. Quis partir invisível. Descobri não ser verdade que não saía de casa e que não via amigos. Ouvi histórias de seus maus humores e suas críticas ácidas.
Na minha literatura, Curitiba veio antes de Brasília. Conheci Bia em Paris e levei três anos para fazer em 1982 minha primeira visita com ela à cidade, durante uma exposição sua. A primeira pessoa a nos receber, que viria a ser o padrinho de batismo de nossa segunda filha, foi um velho amigo dela, também artista plástico, que me contou uma história que incluí no meu primeiro romance.
Em Ideias para onde passar o fim do mundo, publicado cinco anos depois, está escrito o parágrafo abaixo.
Na volta do casamento, ela ainda vestida de noiva, o carro sofreu um acidente. Ele se viu com a cabeça dela na mão. Foi o que lhe havia restado como terrível lembrança daquele primeiro amor, além do fato de, por não ter cuidado da mão direita, quebrada no acidente, esta ter secado até se tornar inutilizável. E aqui vem o que o fez tornar-se escritor capaz de rir de sua própria desgraça. Encontrou um amigo seu, o Bagaço, num bar, depois de meses em que só saía de casa para ir ao psicanalista, a um trabalho enfadonho e a uma astróloga que inspirou parte de sua personagem Íris Quelemém. As palavras de boas-vindas do Bagaço lhe foram lançadas como um soco na cara: “Bem-vindo ao clube dos androides!” Insensível! Só falava assim porque não havia sofrido o que ele, Mário, tinha sofrido. Bagaço, então, tirou seu olho direito, de vidro, e jogou-o dentro do copo de uísque de Mário.
Li a famosa crônica de Jamil Snege “como tornar-se invisível em Curitiba”. Eis alguns dos requisitos: “alguém lá fora reconhecer com isenção que você está produzindo obra significativa; ter um toque de gênio inconfundível”. Não é sempre certo. Noto genuíno talento somente reconhecido aqui. E conheço alguns dos bons escritores residentes em Curitiba, com reputação nacional, que não conseguiram a invisibilidade local.
Nada disso responde à pergunta, que tem outra resposta curta. Por sorte, esta é minha décima oitava cidade, onde fiz e continuo fazendo amigos.