Um dos vários mitos em torno da rocambolesca vida de Camões dá conta do naufrágio, próximo à costa do Camboja, da nau onde o poeta viajava de volta a Portugal, obrigando-o a nadar até a terra firme com apenas um dos braços, enquanto o outro mantinha a salvo da água sobre a cabeça os manuscritos do poema épico de 1.102 estrofes escrito por ele, narrando os feitos do império português.
Sobrevivente do naufrágio, as 1.102 estrofes de Os Lusíadas viriam a ser a opus magnum do maior poeta português de todos os tempos, nascido em 1524; mas os tais feitos do império português acabaram por quase transformar as celebrações dos seus 500 anos em mais uma das lendas em torno da vida de Camões.
Os atrasos no calendário de atividades pelo quincentenário do poeta – comemorado a 10 de junho, não à toa, feriado do Dia de Portugal – juntam-se às recentes polêmicas envolvendo o passado imperialista português, considerado por uma parcela dos portugueses um acinte à memória das centenas de milhares de imigrantes e descendentes das ex-colônias de Portugal a viverem no país.
Entre as polêmicas recentes estão a indecisão sobre o nome do futuro museu dedicado ao período das navegações – até então, Museu do Descobrimento – e a tentativa de rebatizar um segundo monumento em nome dos anos de glória portuguesa, o Padrão dos Descobrimentos, vizinho de outro ícone dos tempos da navegação, a Torre de Belém, e do Mosteiro dos Jerônimos, onde o poeta está sepultado.
Sem justificativa oficial sobre o real motivo do atraso, o governo português instituiu uma comissão para tratar das celebrações no apagar das luzes do ano passado, em 29 de dezembro, nomeando o Instituto Camões como coordenador das atividades, prometidas para a partir de junho deste ano, mas ainda sem agenda definida.
A recente eleição para primeiro-ministro e a consequente troca de governo acabou por atrasar ainda mais o cronograma. Há quem garanta, porém, que, apesar do risco iminente, as comemorações sobreviverão à tentativa de naufrágio, assim como os manuscritos do famoso poema épico.
A polêmica das comemorações dos 500 anos de Camões junta-se a tantas outras envolvendo a biografia do poeta, incluindo o seu ano de nascimento, que para alguns teria sido em 1517 e não em 1524. A data da morte também esteve envolta por um mistério, até a descoberta de um documento entregue pelo rei espanhol Filipe I à mãe do autor de Os Lusíadas certificar ter ocorrido em 1580.