Na segunda metade do século XIX, o poeta Castro Alves em “O livro e a América” notava que o Brasil do “trem de ferro”, em sua tarefa civilizatória, adentrava nas profundezas do Brasil dos “caboclos nus” e estes espantavam-se com o barulho do progresso. Eram dois mundos que não se compreendiam e várias vezes entraram em conflito e cuja culminância redundou em um dos episódios mais infames de nossa história, o massacre de Canudos, em 1897.
Mas, na virada do século XX, não foram apenas estes brasis que se digladiavam, o Brasil dos catrumanos de João Guimarães Rosa contra o Brasil afrancesado, bacharelesco, racista, lombrosiano, positivista e parnasiano. A República, instaurada por um golpe militar, sem participação popular nenhuma, engendrou outro conflito no seio da própria classe dominante: a aristocracia rural, das eleições viciadas à base da chibata e do cabresto, dos conchavos do café com leite, que fizeram o pacto do poder da República Velha, em que o público e o privado usavam uma só porteira, entrou em rota de colisão com a emergente burguesia urbana, cuja eclosão se dará com a Revolução de 1930.
Filho de um senhor de engenho e de uma sinhá, amamentando por uma mãe preta, Augusto dos Anjos pertencia à estrutura social patrimonialista que agonizava. O evangelho da podridão, cantado de forma originalíssima, numa combinação vertiginosa entre musicalidade, imagética surrealista e um vocabulário científico, não pode, a nosso ver, se restringir apenas a uma dimensão psíquica ou lírica, mas antes, pode ser lido sob a perspectiva social, do choque entre o Brasil que morria e o que estava nascendo.
O Estado, a Associação, os Municípios
Eram mortos. De todo aquele mundo
Restava um mecanismo moribundo
E uma teleologia sem princípios.
Em 1905, quando o patriarca da família morreu, o Engenho Pau d’Arco não produzia “mais nada além de dívidas”, conforme anotou o biógrafo Raimundo Magalhães Júnior. Mesmo com o esforço dos herdeiros para saldá-las, em 1908, a propriedade acabou sendo liquidada e adquirida por Joaquim Francisco Vieira de Melo, por ironia do destino, um parente de José Lins do Rego, o ficcionista que melhor retratou a decadência dos barões do açúcar.
Mesmo ciente de que a lei não garantia a professores substitutos o direito à licença, em 1910, Augusto dos Anjos bateu à porta da residência do presidente da Paraíba, Álvaro Machado, atrás de um privilégio. Com planos de mudar-se para o Rio de Janeiro, o poeta pleiteava a segurança do retorno ao cargo público caso falhasse na empreitada.
A negativa deu origem a um rompimento com o chefe político, mas não significou um afastamento por parte de Augusto dos Anjos dos políticos. Na capital da República, continuou a mendigar emprego a figurões da oligarquia. Em carta à sua mãe, Augusto dos Anjos relatou: “Nada posso adiantar do lugar que me está reservado. Dr. Maximiano Figueiredo, em que deposito nímia confiança, me enche todos os dias a alma de grandes e ininterruptos alentos”.
Só aos grandes poetas é dado materializar as angústias do seu próprio tempo, fazendo com que o imperceptível ar que todos respiram seja capturado por sua flauta e convertido em música, consubstanciando a tensão entre o passado que agonizava e o futuro que rugia.
Por todos os séculos vindouros
Há de travar-se essa batalha vã
Do dia de hoje contra o de amanhã,
Igual à luta dos cristãos e mouros!
Ao embarcar no Rio de Janeiro, Augusto dos Anjos se deparou com uma nova paisagem urbana, fruto da reforma que visava dar ares de Paris à capital da República. Embora o imaginário familiar seja predominantemente rural, os anos em que morou no Recife ofereceram à sua lírica ampliar seu locus com a geografia urbana. Sua grande angular impressionista enquadrou a funerária Casa do Agra, mas em geral, os reclames e os letreiros, sinais da vida moderna, não o encantavam.
Os anúncios das casas de comércio,
Mais tristes que as elegias de Propércio,
Pareciam talvez meu epitáfio.
A impressão que se tem é a de que o eu lírico se sentia esmagado pelas transformações e mudanças que se encenam diante de seus olhos:
A passagem dos séculos me assombra.
Para onde irá correndo minha sombra
Nesse cavalo de eletricidade ?!
Mesmo ciente do futuro que bramia diante de si, Augusto dos Anjos foi um profeta que, ao invés de proclamar o novo, voltou seus olhos ao passado que apodrecia e como um Jeremias melancólico entoou suas lamentações pelas ruínas do seu mundo que desmoronava.