Augusto dos Anjos: Fragmentos de um Eu

Somos uma gente vaidosa. Mesmo quando falamos da morte, do fim, da casualidade de nossa singelíssima existência, sonhamos mesmo é com a permanência real e simbólica no mundo. Isso talvez se aplique menos aos santos, mas estamos a muitos graus – e degraus – de separação desses seres extraordinários. Nós, os ordinários, desejamos ser ouvidos até quando silenciamos ou até, paradoxalmente, por isso mesmo, calemos. O poeta Augusto Carvalho Rodrigues dos Anjos (1884-1914) era um de nós, mas a singularidade de sua obra o levou a outro patamar.

Nascido em 20 de abril de 1884 no engenho Pau D’Arco, na Vila da Cruz do Espírito Santo, no município de Sapé, na Paraíba, bastou a Augusto dos Anjos um único livro (Eu), com 56 poemas, publicado no Rio de Janeiro, em 1912, graças a uns contos de réis emprestados de um irmão, com tiragem de 1 mil exemplares, para garantir um lugar definitivo na literatura brasileira, somando, ao longo das décadas, leitores, editores, críticos, estudantes de todas as idades, estudiosos das artes e letras e a gente comum do povo – alheia a estilos literários e estudos comparados.

O poeta morreu com apenas 30 anos, no dia 11 de novembro de 1914, de pneumonia – e não de tuberculose, como muito se falou, possivelmente porque usou em seus poemas o termo hemoptise, entre tantos outros nomes científicos! – doença contraída após um banho de chuva numa ida a um enterro, época em que, ao contrário de hoje, quando há uma farmácia por esquina, não havia antibióticos disponíveis em qualquer botica em Leopoldina (MG).

Quase 110 anos após a sua morte, deparamo-nos com centenas de trabalhos sobre sua vida e obra. A segunda edição do Eu foi publicada em 1920 com as Outras poesias, acrescentadas pelo amigo Órris Soares (tio-avô do humorista, ator e escritor Jô Soares), responsável pela organização do livro. Em 1994, o editor do poeta, Alexei Bueno, publicou pela Nova Aguilar a Obra completa de Augusto dos Anjos, numa edição em capa dura, com quase 900 páginas, com os “Poemas esquecidos”, a “Prosa dispersa”, a “Correspondência” e os chamados versos de circunstância. O livro está esgotado.

A obra singular e polissêmica de Augustos dos Anjos – e certa tendência provinciana de uma época propensa a caricaturar toda pessoa que, de algum modo, fugisse à norma – deram margem à criação de um mistério em torno do homem e inúmeras e renovadas possibilidades de interpretação de sua obra. Augusto dos Anjos foi apelidado de “Dr. Tristeza”, “Poeta da Morte”, “Poeta Maldito”.

Foi justamente essa fama de excêntrico que capturou o também paraibano de nascimento, Luiz Carlos Albuquerque, psiquiatra radicado no Recife há muitas décadas. “Havia um professor espanhol (Juan Antonio Vallejo-Nágera, 1926-1990) que tinha escrito Loucos egrégios (a obra aborda psicopatologias na criatividade artística), o próprio Freud escreveu também sobre o que chamam de psicobiografia, diagnósticos por meio de comportamentos. Eu me interessei por levantar esses temas, a partir de edições antigas, fui tomando notas dessas leituras e isso foi se configurando em capítulos.”

Acabou por se tornar fã do poeta, publicando Eu, singularíssima pessoa (Bagaço), que, em sua segunda edição (2015), de acordo com o psiquiatra, ganhou elogios de Alexei Bueno e foi comentado também pelos escritores Raimundo Carrero e Ariano Suassuna (1927-2014).

Segundo o médico, o poeta paraibano se enquadrava na classificação de personalidade psicopática depressiva. “O professor Othon Bastos, que prefaciou a obra, concordava com essa classificação”, comenta. “A criação literária talvez dê pistas sobre o autor, mas análises e diagnósticos da vida e obra de um escritor são diferentes.”

“A poesia de Augusto dos Anjos é perfeita na forma. O ritmo e a sonoridade se ajustam à declamação. É tudo muito harmonioso. As pessoas citam palavras das quais não fazem a menor ideia do significado e, claro, o humor de Schopenhauer, meio existencialista, ali presente, atrai e desperta atenção. Ninguém hoje vai ouvir Bilac ou Gonçalves Dias. A gente procura e não encontra novas edições de outros poetas, mas vai a uma livraria e Augusto dos Anjos está ali. Nunca deixa de ser editado”, afirma Albuquerque.

O aspecto taciturno, denso e mesmo mórbido associado à figura de Augusto dos Anjos não encontra eco nos escritos do médico, professor e pesquisador Humberto Nóbrega (1912-1988). Sua busca em jornais paraibanos antigos, que resultou numa longa biografia, trouxe poemas sobre carnaval, por exemplo, e escritos cheios de pilhéria.
Segundo alguns estudiosos, em seu livro Augusto dos Anjos e sua época, infelizmente, há ausência de datas nos documentos, o que configura uma falta de método de pesquisa importante, gerando imprecisões e mesmo a necessidade de repetição do levantamento, isso quando há documentos originais disponíveis.

Augusto dos Anjos recebeu as primeiras lições e até os ensinamentos para o exame admissional em Direito de seu pai, Alexandre Rodrigues dos Anjos, que alimentava ideias abolicionistas e republicanas, possuindo vasta erudição (sua mãe, Córdula de Carvalho Rodrigues dos Anjos, era conhecida por Sinhá-Mocinha e vinha de uma família de senhores de engenho).
A família foi uma das muitas proprietárias de engenhos que vivenciaram de perto a ruína de um mundo, em meio à mudança do eixo econômico do Nordeste para o Sudeste, em décadas marcadas pela Abolição da Escravatura, Proclamação da República, entre outros eventos importantes naquele chamado período de modernização do Brasil.

Para realizar o curso de Direito, Augusto dos Anjos se transferiu a Pernambuco, onde estudou na prestigiosa faculdade do Recife, destacando-se como um aluno aplicado, merecedor de média 9 em seus boletins, de acordo com os registros acadêmicos. No entanto, contrariando o desejo do pai, não seguiu a advocacia – preferiu o magistério. Em busca de melhores oportunidades de trabalho e salário, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde fez colaborações para periódicos e publicou poesias.

Como professor, lecionou Geografia na Escola Normal, depois, no Instituto de Educação e no Ginásio Nacional. Em, foi nomeado professor de Geografia no Colégio Pedro II. Para complementar a renda, foi professor de preparatórios para o Curso de Admissão, deu aulas particulares, oferecendo-se para dar aulas em anúncios de jornal desde quando ainda morava em João Pessoa, continuando a publicá-los na imprensa quando morou no Recife e no Rio de Janeiro. 

Para Del Candeias, que o leu aos 13 anos e que publicou, em 2020, Augusto dos Anjos: um moderno entre os “ismos” (Desconcertos), derivado de sua tese de doutorado, o poeta mistura elementos de muitos estilos – Romantismo, Realismo-Naturalismo. Parnasianismo, Simbolismo – e a saia apertada das classificações literárias, e mesmo o amálgama presente na academia em relação a essas classificações, afasta o reconhecimento do poeta, um ser inquieto a pensar o universo, como modernista.

“Eu o compreendo como alguém que traz uma poesia única, num momento em que ela estava estagnada, aparecia de modo muito floreado, uma poesia de salão. Ele surge e parece dizer que fará algo singular, que poderá não ser aprovado e mesmo ser considerado horrível, mas que será um choque e nunca mera repetição.”

Para o professor do Departamento de Letras da Universidade Federal de Pernambuco, Anco Márcio Tenório Vieira, não há dúvidas. “Augusto dos Anjos é o único poeta bem-sucedido da Poesia Científica!” – uma classificação ausente dos manuais de literatura. “Há muito pouco escrito sobre isso. A partir de 1870, existiu no Brasil a Poesia Científica, uma corrente vinda da França, meio ofuscada, que era uma espécie de Realismo na Poesia. Augusto dos Anjos veio dessa tradição e era, possivelmente, o produto mais bem-acabado dessa corrente, tendo por isso mesmo sobrevivido e, outros, virado pó. Euclides da Cunha foi na prosa científica o que Augusto representou na poesia”, defende. Segundo o professor, foi a última Flor do Lácio, o último suspiro da segunda metade do século XIX, e, particularmente, dessa geração de 1870. Para ele, a historiografia tem lacunas e não cita a poesia científica, possivelmente porque eram todos os seus representantes muito ruins.

“Augusto dos Anjos não é um dos meus prediletos. Não consigo gostar de sua poesia escatológica. Tinha um linguajar precioso, criou imagens poderosas, soube usar as terminologias da biologia, da psiquiatria, causando grande impacto no leitor, uma poesia tão forte, que conseguiu sobreviver aos modernistas da década de 1920 que tentaram, inclusive, desclassificar seus poemas, causando até constrangimento para quem dissesse gostar daquela produção.”