A pedagoga e poeta Maria José Salles Fernandes, mais conhecida por Zezé Salles, é chefe do Departamento Patrimônio Cultural de Leopoldina e coordena o Museu Espaço dos Anjos, em Leopoldina, Minas Gerais, onde morou e faleceu o poeta do Eu. A instituição municipal é responsável pelo Concurso Nacional de Poesias Augusto dos Anjos, agora em sua 33ª edição, realizado em parceria com a Academia Leopoldinense de Letras e Artes (Alla), cujo patrono é o poeta paraibano, e a Secretaria de Cultura e Turismo. Anualmente, recebe em média 600 inscrições para o concurso literário nas poemas, sonetos e melhor intérprete. Ma no ano passado bateu recorde, com 1.515 inscritos de todos os estados brasileiros, do Distrito Federal e, ainda, brasileiros residentes na Alemanha, Angola e Portugal.
O museu funciona na casa onde Augusto dos Anjos morou em sua breve estada no município que possui 51.145 habitantes. Por 25 anos, a partir de 1983, quem alugou a casa onde o poeta viveu foi o artista plástico mineiro Luiz Raphael Domingues Rosa. Ele reuniu tudo o que encontrou do poeta, fez sarau e lutou pelo tombamento da edificação, especialmente porque se dizia que a casa seria derrubada. O tombamento ocorreu em 1984, mas a construção de um equipamento cultural não aconteceu e o artista foi tocando como pôde a sua luta pela manutenção do espaço. Quando de sua morte, em 2007, a prefeitura tomou para si o trabalho desenvolvido pelo artista e, em 2012, o museu foi inaugurado.
“Há uma característica curiosa diferente de outros poetas em Augusto que é a de atrair tanto intelectuais como pessoas muito simples que entram no museu e declamam seus poemas porque se lembram de seus pais fazendo o mesmo”, explica Zezé Salles. Segundo ela, na cidade mineira há uma turma jovem ligada ao hip hop que declama Augusto dos Anjos e se interessa muito por sua obra.
A coordenadora do museu relembra cenas dos últimos momentos do poeta do Eu. Além de um soneto, o último, ele ditou para a esposa Esther dos Anjos uma breve carta. Pedia para que suas lágrimas fossem enviadas para sua mãe e para seus alunos do grupo escolar, seus filhos fossem tratados com bondade e seus versos guardados com carinho. Ainda, segundo Zezé, cerca de 20 minutos antes de morrer, ele pediu um espelhinho de bolso que sempre o acompanhava, olhou pra si e disse: “Essa chama jamais se apagará”.
Todos os anos, próximo à data de aniversário de morte, a cidade realiza a “Semana de Augusto.” Há visitas guiadas, lançamentos de livros, visita ao túmulo do poeta e a festa de premiação do concurso. Numa das últimas edições, o neurocirurgião pernambucano Luiz Coutinho Dias Filho, venceu na categoria poema com um texto que resgata tema já visitado por Augusto dos Anjos.
O médico poeta conheceu Augusto dos Anjos aos 12 anos. Seu padrinho, entre goles de uísque, em momentos de lazer, declamava seus versos. Desde essa época, tomou gosto pela literatura. Muitos anos depois, ansioso pelo livro recém-adquirido, nem esperou chegar em casa, recostando-se em um dos bancos da antiga Livro 7 – livraria que era referência para pernambucanos e leitores de outros estados nordestinos, nos anos 1980 – e foi devorando, ali mesmo, o seu primeiro exemplar de Eu e outras poesias, que, de tão manuseado, segundo ele “veio depois a se desintegrar.”
“O que mais me impressionou no poeta foi o repertório insólito de metáforas. Um poeta cujos ‘Versos de Amor’ não soavam com o tom meloso habitual. Ele mostrava o mundo a partir de uma perspectiva inusitada e o que vi me tocou profundamente. Havia outro elemento. Naquela ocasião, estava iniciando o curso de medicina e me fascinaram os versos exalando cientificismo e abarrotados de termos que eu só tinha visto em tratados de Anatomia e Patologia”, explica.
“Por meio de Augusto, experimentei o efeito catártico da poesia e, logo, descobri, em minha busca, que ele não estava sozinho. Deparei-me com Cruz e Souza, Cesário Verde, Charles Baudelaire e Edgar Allan Poe.”
Coutinho conta o inusitado momento que o levou a escrever o premiado poema “Na Ponte com Augusto”. “Estva sozinho em casa, de sobreaviso num Dia de Finados. Nenhum chamado, raros pacientes internados, um tédio corrosivo. Senti necessidade de sair e de caminhar. Não sei por que cargas d’água decidi refazer o percurso descrito em ‘As Cismas do destino’. Fui até o Marco Zero e, de lá, voltei passando pela Ponte Buarque de Macedo e Rua do Imperador (onde existiu a funerária Casa Agra), recitando, mentalmente, durante a caminhada, versos do Eu. Nas proximidades da Igreja de São Francisco, deu-me um arrepio e me perguntei se Augusto não estava por perto, afinal era um dia devotado aos mortos. Assim que cheguei em casa, peguei a caneta e a gênese do poema se deu num fôlego só.”
O neurocirurgião tem cinco livros lançados, sendo o último Vou juntar-me às capivaras (2023), no qual aparece o poema premiado em homenagem a Augusto dos Anjos. Infelizmente, não pôde ir receber as honrarias no Espaço Museu Augusto dos Anjos em Leopoldina. Perto da data da festa foi atropelado no Recife. “Não houve imprudência do motorista, que até chorou. A responsabilidade foi minha!”, lamenta.