“Oh, meu Deus! Quem morreu?!”, perguntou Jennifer, esposa de Edward Ashton, ao ver a palidez súbita do marido. Com humor, o escritor norte-americano a tranquilizou: “Não, todo mundo ainda está vivo. Está tudo bem. Isso é, na verdade, uma boa notícia”. Na mensagem recebida, cujo link anexado Ashton hesitou em clicar, havia, na verdade, uma excelente informação. Mickey7 (2022), um dos livros lançados pelo autor de ficção científica, tinha sido escolhido para ser transformado em filme. Mas não somente isso. Um filme de Bong Joon Ho, o cineasta sul-coreano responsável pelo fenômeno Parasita, Palma de Ouro em 2019 e vencedor do Oscar 2020 nas duas principais categorias, Melhor Filme e Melhor Filme Internacional – feito, até então, inédito e, até hoje, único. E mais, a adaptação, intitulada Mickey 17, seria estrelada por dois astros do cinema, o inglês Robert Pattinson e o norte-americano Mark Ruffalo. Alguns atrasos na produção e 118 milhões de dólares depois, Mickey 17, lançado pela Warner Bros, finalmente fez sua estreia mundial, no dia 6 de março.
Edward Ashton foi um dos primeiros a assistir ao filme, em sua première, que aconteceu no dia 13 de fevereiro, na Leicester Square, em Londres. No dia seguinte, ainda sob o efeito do evento, concedeu entrevista exclusiva à revista Pernambuco. Empolgado com a adaptação cinematográfica, falou da emoção ao ver parte de seu texto na voz de Pattinson, Ruffalo, do sul-coreano Steven Yeun (vencedor do Emmy pela minissérie Treta, 2023) e de Naomi Ackie, atriz britânica em ascensão. “Muito do diálogo foi tirado diretamente do meu livro. Então, ver as palavras que eu tinha escrito nas mãos desses grandes atores foi uma experiência incrível, difícil de descrever”, contou.
Além das falas, o roteiro adaptado, assinado por Bong Joon Ho, manteve o humor da escrita de Ashton, um autor de 57 anos que mora em uma casa cercada por árvores, em Webster, cidade de 45 mil habitantes no condado de Monroe, no interior do estado de Nova York, “com sua esposa, um número variável de filhas (três) e um adorável cachorro deprimido chamado Max, onde ele escreve — principalmente ficção, ocasionalmente fatos — sob os olhos atentos de um pica-pau gigante e um elenco rotativo de corujas-listradas”, como descreveu em seu perfil no Goodreads. No brevíssimo perfil do site, em nove linhas, revelou que “em seu tempo livre, gosta de pesquisar sobre o câncer, ensinar física quântica para estudantes de pós-graduação mal-humorados”.
Na realidade, Edward Ashton é formado em Engenharia Elétrica e Eletrônica pela Loyola University Maryland e fez pós-graduação na University de Rochester. Nascido em Fairfax, pequena cidade (de 25 mil habitantes) da Virgínia, sul dos Estados Unidos, ficou atraído pela foto do folheto da instituição em que esta aparecia coberta de neve. Paralelamente à pós, Ashton também cursava aulas de escrita criativa – para confortar o hobby que mantém desde os 6 anos de idade, escrever. Em 1995, concluiu o doutorado, casou-se com Jennifer, que conheceu na mesma universidade, e começou a carreira como engenheiro de pesquisa no Laboratório de Pesquisa Naval dos EUA.
Enquanto produzia software para direcionamento remoto e vigilância aérea, recebeu um convite especial do professor Kevin Parker, seu ex-orientador: voltar à Universidade de Rochester para trabalhar como diretor científico da VirtualScopics, uma startup fundada, em 2000, na instituição, com o objetivo de criar ferramentas de análise de imagens médicas para ajudar pesquisadores a acelerar o desenvolvimento de medicamentos. Em 2016, a companhia foi vendida para a BioTelemetry, empresa com 16 mil funcionários, em que Ashton se tornou vice-presidente de imagens oncológicas. Então, a firma foi comprada mais duas vezes antes de ser integrada à ICON PLC, que emprega 44 mil pessoas. Uma delas é Ashton, que trabalha como diretor sênior de imagem oncológica.
Em meio a esse serviço científico e corporativo, em 2015, Edward Ashton teve a alegria de ver a HarperCollins publicar seu romance de estreia, Three days in april, thriller ambientado em uma Baltimore distópica. Dois anos depois, a editora sediada em Nova York lançou o romance The end of ordinary, e, então, o autor começou a escrever Mickey7. A obra chegaria, ainda em formato de PDF, às mãos da Plan B, produtora de Brad Pitt, que comprou os direitos autorais. Um dos três sócios da empresa, Jeremy Kleiner, teve a ideia de convidar Bong Joon Ho para realizar a adaptação cinematográfica da história. A partir daí, tudo se desenrolou até Ashton receber aquele e-mail do seu agente.
O agente de Edward Ashton contou ao seu cliente, na época da venda dos direitos, que os produtores de cinema geralmente compravam muitas propriedades intelectuais. No entanto, uma para cada 100 acabava virando filme. Logo, não era pra ficar tão empolgado. “Você pode usar o dinheiro para levar sua esposa para um bom jantar. Mas não espere que nada mais saia disso”, alertou. “E então, cerca de seis meses depois, eu estava sentado na minha mesa de almoço, quando recebi um texto dele, e era apenas um único link. ‘Clique aqui’. Obviamente pensei, ‘isso é um ataque de phishing. Eu não sou um idiota, não vou clicar nisso’. Pensei nisso. ‘Mas, afinal, veio do meu agente’. Eu cliquei, e era um link para o artigo da revista Deadline, dizendo que Bong Joon Ho tinha decidido levar esse projeto como seu próximo filme, e que Robert Pattinson estava cotado para estrelar o filme. Minha esposa estava sentada do outro lado da mesa e a primeira coisa que ela disse, quando viu o meu rosto, foi: ‘Oh, meu Deus! Quem morreu?!’”.
O romance Mickey7, que mistura sci-fi, drama e comédia, dialoga com o tipo de cinema que vem sendo realizado por Bong Joon Ho. Antes do sucesso de Parasita, o diretor já costumava misturar esses gêneros e utilizar metáforas visuais e analogias para discutir embates entre classes sociais, oportunismos de políticos ambiciosos, efeitos nefastos do capitalismo e questões ambientais urgentes, a exemplo de filmes como O hospedeiro (2006), Expresso do amanhã (2013) e Okja (2017).
O livro, que ganhou edição brasileira em 2023 pela Planeta Minotauro, aborda o tema da clonagem humana projetada no futuro, em um planeta habitado por uma espécie desconhecida e agora colonizado por ambiciosos terráqueos que comandam trabalhadores endividados e explorados, tratados como “descartáveis” – o termo é utilizado no roteiro, enquanto a tradução brasileira do livro usa a palavra “prescindíveis”. Um desses “descartáveis” imprescindíveis, que realizam tarefas potencialmente mortais, é Mickey Barnes, interpretado por Robert Pattinson. O ator teve a oportunidade, em mais um filme, de demonstrar sua versatilidade cênica ao encarnar Mickey nas suas versões 17 e 18 – Bong Joon Ho decidiu aumentar em 10 o número de Mickeys da história original.
Apesar de ter tido total liberdade para realizar o filme, garantida em contrato com o estúdio, o diretor sul-coreano fez questão de reunir-se com Edward Ashton, em uma cortês videochamada de duas horas, para conversarem sobre a obra, tirar dúvidas sobre trechos do livro e dar a chance ao escritor de escolher algo, para ele, fundamental na sua narrativa e que deveria estar no longa-metragem. Essa é uma das informações que o autor trouxe, na conversa com a Pernambuco.
Ele explica que, quando um estúdio compra uma história, pode ter o direito de fazer o que bem entender com ela. “Você não é mais o autor, não tem mais nenhum controle sobre o projeto, está completamente desligado”, conta. No entanto, seis meses depois de assumir o projeto, Bong Joon Ho entrou em contato com o escritor: “Um dos representantes dele perguntou se eu estaria disposto a fazer uma chamada no Skype com ele, para falar sobre o projeto. Ele estava realmente interessado na minha visão sobre o livro, quais eram meus objetivos filosóficos em escrever o livro, quais temas eu estava tentando enfatizar. Ele perguntou sobre detalhes do livro que eu não tinha nem pensado. Por exemplo, ele queria saber como esses monstros que eu tinha escrito, como eles se reproduziam? Como eles têm filhos? Eu não sei, eu nunca pensei nisso. Mas ele é alguém que realmente não só quer saber o que está na tela, ele quer saber o que está acontecendo nos bastidores, ele quer saber o funcionamento de tudo”.
Ashton e Joon Ho falaram sobre diversos aspectos da história, mas um ponto específico pode ser destacado. “E aí ele me perguntou, e isso foi absolutamente algo que ele não tinha que fazer, isso foi um presente para mim. Ele me perguntou o que eu achava que era o coração do livro. O que é o núcleo desse livro, que tem que estar no filme?” Bong disse: “Você me diz o que é, e eu prometo que eu vou colocar no filme”. Ashton pensou por cerca de 2 segundos e respondeu: “O capítulo 19 tem que estar nesse filme. E ele disse: ‘Estou tão feliz por você ter dito isso, chorei quando eu li esse capítulo, eu ia colocar ele no filme de qualquer forma’”. Como o seu desejo coincidiu com o do gênio da lâmpada, Ashton arriscou: “Posso escolher algo mais?” E Bong, sob o peso de assinar uma superprodução de 118 milhões de dólares, respondeu: “Não”.
“E esse foi todo o meu envolvimento no desenvolvimento do roteiro. Mas isso foi mais envolvimento e mais controle do que a maioria dos autores recebe. Então, de novo, eu sou extremamente agradecido. Eu conheci o diretor Bong um pouco mais, ao longo do projeto. Eu o conheci, consegui me divertir um pouco com ele esta semana, enquanto eu estava aqui (Londres) para a première. Ele é uma das pessoas mais genuínas e afetuosas que eu já conheci na minha vida. Ele é uma pessoa realmente maravilhosa. Eu não posso descrevê-lo à altura”, afirma Edward Ashton, também um homem gentil e discreto.
A personalidade do escritor combina com a sua dedicação espartana à literatura. Nos últimos cinco anos, fez um livro por ano. “Tenho sido bem firme no meu trabalho e na minha produtividade. Tenho um processo de edição bem rigoroso, enquanto escrevo. Tipicamente, cada vez que eu me sento para escrever, a primeira coisa que eu faço é reler e reescrever as últimas 2 ou 3 mil palavras que fiz. Então, quando chego ao fim do primeiro rascunho, já escrevi cada palavra neste livro várias vezes. E aí há passagens de edição, faço uma análise completa, onde leio o livro procurando inconsistências lógicas entre diferentes partes, porque talvez eu tenha mudado de ideia, em algum momento, sobre algo que aconteceu no capítulo 2, quando eu chego ao capítulo 20”, explica.
O escritor conta que repassa o diálogo de cada personagem, para ter certeza de que cada voz seja consistente e de que soem como eles mesmos e não como os outros personagens. Nesse processo de revisão, observa a linguagem, para se assegurar de que as palavras fluam, de que possam ser lidas em voz alta e que não existam trava-línguas. “Então, quando estiver terminado, provavelmente repassei o livro umas 25 vezes ou mais. E o processo total leva em torno de 8 a 10 meses, normalmente.”
Como é também cientista, Ashton preocupa-se não somente com a narrativa, mas com o conteúdo dela: “Então, realmente tento dar estofo ao meu trabalho. Não necessariamente no que é verdadeiro no presente, mas, pelo menos, no que é plausível. Então, as coisas que coloco nos meus livros, você não pode provar que todas elas são reais agora, muitas delas não são, obviamente. Estou projetando esses livros para o futuro. Mas não há nada, ou pelo menos pouco, que você encontrará, que possa dizer, ‘Oh, não, nós provamos que isso não é possível’. Eu tento limitar-me a extrapolações da nossa ciência atual, da nossa compreensão atual do Universo. Se houver alguns físicos por aí, eles provavelmente vão pegar no pé de algumas coisas do Mickey 7, em particular, que eu encaixei lá para o plot, que, na verdade, não existem. Mas acho que o número de pessoas que ficarão furiosas com isso é bastante limitado. Mas realmente acho que a ficção científica é uma forma útil de fornecer comentários sobre o mundo de hoje”.
Edward Ashton concorda que, com a tecnologia e as ciências surpreendendo, cada vez mais, o ser humano, é possível que a criação de histórias de ficção científica seja mais difícil no mundo contemporâneo. “Sempre foi difícil criar uma ficção científica verossímil. Escreve-se mais ficção científica ruim do que ficção científica boa, nos últimos anos. Isso pode ser verdade para todos os gêneros literários. Um dos grandes desafios, agora, é escrever algo e publicá-lo antes de sua ficção científica se tornar uma ficção histórica. Isso foi algo que eu respondi a um entrevistador, sobre o meu primeiro livro, Three days in april. Ele perguntou por que eu estava com tanta pressa para publicá-lo, porque levou apenas seis meses para escrever e publicá-lo. A HarperCollins publicou-o apenas seis meses depois, o que é um ritmo muito rápido neste mercado. Eu queria publicá-lo antes de ele parar de ser uma ficção científica. O mundo está se movendo tão rápido, agora, que pode ser um pouco difícil ficar à frente dele”, analisa. “Um dos papéis aos quais a ficção científica serve é nos avisar de erros que podem vir, para nos fazer pensar antes e reconsiderar, talvez, algumas das decisões que estamos tomando agora”.
Além de toda a especulação sobre clones humanos e teletransporte de identidade, o livro de Ashton que virou filme tem como espinha dorsal não a ciência biológica, mas a sociológica. “Não é extremamente sutil que Mickey 7 seja um comentário sobre o capitalismo moderno. Mickey, obviamente, representa todo empregado assediado em alguma corporação gigante, que não se importa se ele vive ou se morre.” O truque do escritor é lançá-la no futuro. “Se você pegar esse tipo de comentário e colocá-lo no mundo contemporâneo, metade das pessoas que leem o livro vai ficar furiosa com você, porque elas acham que está comentando sobre elas e você está falando sobre elas. Quando você pega esse mesmo comentário e coloca em mil anos no futuro e no espaço, agora você está falando sobre o espaço. Ninguém vai ficar furioso com isso. E você pode pegar a mensagem que está tentando passar, escondê-la atrás de camuflagens emocionais e fazer com que eles te escutem. E talvez algumas dessas pessoas, pelo menos por um minuto, escutem a sua mensagem, e talvez deixem que ela ressoe com elas um pouco. Então, acho que a ficção científica e a literatura fantástica, há centenas de anos, realmente sempre serviram para esse objetivo.”
Atencioso com seus leitores, Edward Ashton atende aos comentários dos mais curiosos. Em uma dessas interações no Goodreads, ao responder se haveria mais um outro título sequencial de Mickey7, além de Antimatter blues (2023, ainda inédito no Brasil), ele afirmou que tinha “o esqueleto de outro livro do Mickey na minha cabeça, mas não está 100% claro agora se ou quando ele verá a luz do dia”. Em 2024, o autor lançou Mal goes to war, e o novo The fourth consort chegou às lojas em 25 de fevereiro de 2025 – ambos sem edição no Brasil.
Por enquanto, Edward Ashton está feliz com sua história nas telas, mas, muito antes, seu maior sonho como escritor já havia sido realizado. “Minha maior ambição foi ver um dos meus livros em uma prateleira, na loja de livros. E eu alcancei essa ambição. Fiquei muito emocionado em ver isso. Tudo, depois disso, foi um incrível bônus. Os obstáculos para se tornar profissionalmente publicado são tão altos, há tanta coisa que você tem que superar, que, apenas para chegar a esse ponto, era implausível. Para chegar ao ponto em que estou agora, em que meu trabalho foi traduzido em 25 línguas diferentes, e meu livro é um best-seller na Coreia, e um filme foi feito por alguém que ganhou quatro Oscars, e um dos maiores atores da nossa geração... Eu nem sei o que dizer. Eu sinto que seria ingratidão de minha parte, desejar mais. Claro que sim, você sempre quer mais. Mas não me sinto na posição de querer mais e expressar mais, porque eu sinto que muito já me foi dado.”
CONTEÚDO NA ÍNTEGRA NA EDIÇÃO IMPRESSA
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