Nunca fui bom de futebol. Um amigo uma vez me disse que eu podia fazer parte dos que, diante de um jogo, perguntam: o que é a bola? Nem tanto. Criança, joguei pelada.Também joguei pelo Flamengo, em jogo de botão com meus primos. Uma vez, no Rio, querendo me concentrar numa revisão de texto e evitar uma longa conversa com o motorista do táxi sobre futebol, quando me perguntou por qual time torcia, respondi na lata: “pelo Baraúnas.” Era o time pelo qual torcia em Mossoró. O outro time conhecido era o Potiguar. Ele então me informou sobre a escalação e os jogos recentes do Baraúnas, bem como sua expectativa de mudança de divisão.
Não vou negar, eu era mesmo uma nulidade no futebol, mas havia quem estivesse abaixo de zero. Não no Brasil, claro. Um dia, como estudante convênio nos Estados Unidos, consegui mostrar como correr com a bola no pé. Quando o técnico descobriu que eu podia chutar, me sentava no banco do time de futebol americano e esperava o momento de dar um chute por cima da trave, fazendo um ponto adicional. Era um “kicker”, chutador, melhor do que o castigo de ser péssimo goleiro nas peladas.
Copas do Mundo acompanhei. Ouvi no rádio, aos sete anos, a de 1958. Sabia o nome dos jogadores e comemorei a vitória da final de 5 a 2 contra a Suécia. Mossoró não era exceção para a alegria e os foguetes. Morava no México quando da Copa do Mundo da Espanha, em 1982. Como encarregado dos assuntos culturais na Embaixada do Brasil, devia falar sobre futebol num momento em que, como sempre, o Brasil inteiro apostava em ser campeão. Os mexicanos tinham grande simpatia pelo Brasil, pois estava viva a lembrança do time brasileiro em Guadalajara e quando conquistou, com Pelé, Gerson, Jairzinho e Carlos Alberto, o tricampeonato e a posse definitiva da Taça Jules Rimet na final contra a Itália no estádio Azteca da Cidade do México em 1970.
Em 1982, era fácil dizer que tínhamos um time de craques, que incluía Zico, Sócrates e Falcão, mas quando o principal jornal de esportes do México, Afición, que me entrevistar, achei que evitaria falar bobagem se pedisse à CBF informações sobre a participação brasileira na Copa. Por que não usar na entrevista as informações que prontamente chegaram? Eram sobre a história do futebol no Brasil. Havia um longo trecho sobre Charles Miller, o britânico-brasileiro responsável por introduzir o esporte no País. Voltando de anos de estudo na Inglaterra, chegou ao Brasil em 1894, trazendo em sua bagagem as regras do jogo, duas bolas usadas, chuteira e uma bomba de encher bolas. No dia seguinte, a entrevista era ilustrada por duas fotos de igual tamanho: Charles Miller, o inventor do futebol; João Almino, adido cultural do Brasil.
Glorioso mesmo foi receber o time brasileiro para a primeira Copa do Mundo a ter lugar nos Estados Unidos, em 1994. Como Cônsul Geral em São Francisco, eu havia previamente feito uma visita ao prefeito da cidade onde o time ficaria hospedado, Los Gatos. Fiquei surpreso quando me manifestou a inquietação dos habitantes da cidade. “Você sabe”, ele me disse, “a cidade tem apenas 10.000 pessoas e é um lugar conservador. Dizem que podem chegar 25.000 brasileiros na região. Uma coisa é certa, não podemos permitir mulheres de biquini nas ruas.” Não discuti. Liguei para a CBF e sugeri que o convidassem a uma visita ao Rio.
Voltou encantado, e a preocupação passou, até chegar o jogo Brasil contra Estados Unidos, num dia 4 de julho. “A cidade não comporta uma invasão da torcida. Dizem que todos vêm, seja o Brasil ganhando ou perdendo. Vamos ter de bloquear as estradas. Tem mais um problema. Os brasileiros vão querer beber cerveja na rua, e nossa cadeia não comporta tanta gente.” Sugeri que baixasse uma “executive order”, um decreto municipal, liberando a cerveja somente naquela noite. Não teria de pôr ninguém na cadeia. O Consulado do Brasil se mudaria naquela noite para Los Gatos.
O Brasil ganhou por 1 a 0. Memorável gol de Bebeto, passe de Romário. Os dois comemoraram com o gesto de balançar o berço, em homenagem ao nascimento do terceiro filho de Bebeto alguns dias antes. Treze pessoas dormiram na cadeia por embriaguez e desordem. Nenhum brasileiro.
João Almino é autor de Cidade livre, As cinco estações do amor, Homem de Papel e outros cinco romances.