Crianças e velhos não devem carregar aquelas bandejas com 30 ovos. E por qual motivo eu falo isso? Simples. Vi uma cena ao passar pela Rua Conselheiro Portela (no Espinheiro, um simpático bairro do Recife), pela manhã, que me levou de volta aos meus 8 anos. A aurora da minha vida, como definiu Casimiro de Abreu.
Estava eu a caminho do trabalho, seguindo pela calçada, quando escutei um "poffff". Claro que fui olhar em volta para descobrir a origem do "poffff". E claro que achei a resposta. Bem defronte de um supermercado. Era desoladora e assustadora ao mesmo tempo.
O que eu vi foi um velho com um mói de sacola na mão esquerda, agachado no meio de uma pista com trânsito de mão dupla, para resgatar uma sacola que havia caído no chão. Minha aflição era aparecer um carro e deixar a situação pior ainda. Mas isso não aconteceu. Ele se levantou, resgatou com a mão direita uma sacola pingando ovos e seguiu em frente.
Não sei se mora sozinho, se tem mãe (pela idade eu diria que não, mas vai saber... hoje em dia tudo é possível), esposa ou filhas. E se elas vão gargalhar ou dar um rela quando ele aparecer em casa com os ovos já em ponto de omelete. Vai que os ovos seriam usados para fazer bolos, daqueles com as claras separadas das gemas?
O fato é que me lembrei de mim, aos 8 anos, carregando uma bandeja com 30 ovos, da feira até em casa. Não sei dizer qual é a distância exata. Mas garanto que a estrada é longa mesmo! A feira ainda existe, em frente ao Hospital Getúlio Vargas, no Cordeiro, um bairro grande do Recife. Minha casa, que sucumbiu ao tempo, ficava depois da Exposição de Animais. Só para vocês terem uma ideia do percurso.
A distância geográfica, nós sabemos, é uma coisa relativa. Ela é medida de acordo com a nossa idade e com os nossos desejos. Aos 8 anos, eu não adorava estar na feira a ponto de achar que longe é um lugar que não existe. Não é Richard Bach? Refiz o caminho agora, contando os passos pelo Google. Da minha casa para a feira dava uns 2 quilômetros.
Aí... pegando carona em Carlos Drummond de Andrade... tinha uma pedra no meio do caminho... Eu, criança, equilibrando a bandeja nos dois braços estendidos para frente, não vi a pedra... Tropecei e fui tomar terra longe. Eu e os 30 ovos, numa bandeja embalada em papel jornal.
Se a memória não me trai, sobraram 14 ovos inteiros. Suficientes para receitas de bolos que pedem as claras separadas das gemas (até Souza Leão, que é feito com toda a ninhada das galinhas). Minha mãe ficou furiosa. Lembrei da cara que ela fez para mim quando vi o homem com a sacola cheia de ovos quebrados. E fiquei imaginando a cara que fizeram para ele quando a trela foi descoberta.
Eu, na minha infância querida, sem chorar pelos ovos quebrados, segui para casa, atrás da minha mãe, levando nos braços a bandeja melecada. Não sei o uso dado aos ovos que sobraram. Isso faz anos. Mas sei que continuei a carregar bandeja com ovos por muito tempo.