Conheci Tomás da Veiga Seixas quando vim morar no Recife, em 1952, na Rua das Graças, nº 348, Bairro das Graças. Tratado pelo apelido Bebé, pelos familiares e amigos íntimos, me tornei seu vizinho e amigo. Ele morava com seu pai Luiz Seixas (do bacalhau) e sua mãe, a paraense Nair Seixas, excelente pianista. Seu Luiz era da tradicional família Seixas, que detinha, nos anos 1940/1950, o monopólio da importação do bacalhau no Nordeste.
Procurador jurídico do Instituto de Aposentadoria e Pensão dos Servidores do Estado (Ipase), Bebé era caseiro e não frequentava a sociedade. Ele detestava “corredor de Judiciário e repartição pública”. Passava o tempo e os dias lendo os maiores escritores e poetas clássicos do Brasil, da Rússia, da Inglaterra, da França, da Espanha, da Itália, todos no original. Amava a Capunga, sua casa e quintal que Gilberto Freyre (com quem não tinha boas relações) considerava o fundo de quintal mais pernambucano do Recife, com sapotizeiro, mangueira, cajueiro, jambeiro e pé de cupuaçu, trazido e plantado por Dona Nair, de Belém. E curtia seu jardim de rosas brancas e vermelhas, gramado bem-tratado e acácia de folhas amarelas.
Indo morar no Rio na década de 1940, Bebé se enturmou, por pouco tempo, com o grupo de cronistas Rubem Braga, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos e Otto Lara Resende. Certa vez, marcaram de se encontrar no Amarelinho, choparia da Cinelândia, às oito horas da noite para, depois, tomar um uísque no bar e restaurante Zeppelin, em Ipanema. Bebé demorou a chegar no Zeppelin, e a turma começou a se preocupar. Às onze da noite, Bebé chegou, já meio triscado, Fernando Sabino perguntou o motivo da demora. Bebé disse “que fora um chato de um leão, no qual teve que dar umas tapas no focinho”. Fez-se um silêncio constrangedor. Os cronistas acordaram: teriam que se cotizar para interná-lo numa clínica psiquiátrica de desintoxicação – aquilo já era princípio de delirium tremens.
Mas, por descargo de consciência, Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino e Otto Lara Resende foram, no dia seguinte, ao Amarelinho perguntar ao gerente português que história era aquela de Bebé com o leão. E o portuga, às gargalhadas, contou que “o doutor Bebé era homem corajoso!” Que Bebé estava tomando um chope sozinho e calmamente, quando o leão estancou diante dele e começou a rosnar. Bebé não gostou e deu-lhe uma tapa no focinho. O leão reagiu com outro rosnado ameaçador, Bebé deu-lhe um murro na cara. Nisso, chega o domador do leão, com um laço de corda e laça o leão, que havia fugido do Circo Garcia, na Lapa, armado ali perto. Perplexos, mas contentes por não precisar gastar dinheiro com cota para internar o valente.