O vira-latismo voltou

Parece que a máquina de produzir gênios quebrou. Bons jogadores apareceram. Craques, alguns. Não mais o gênio. Hoje, os verdadeiros gênios assistem das tribunas ao desfile de meros mortais em campo

Em maio de 1958, pouco antes da Copa da Suécia, Nelson Rodrigues publicou uma crônica que imortalizou a expressão “complexo de vira-lata”. Ele se referia ao trauma causado pela trágica derrota para o Uruguai em 1950. Nelson criticava o pessimismo e o complexo de inferioridade do brasileiro após aquele desastre. Ele cravava que o Brasil tinha os melhores jogadores e que, bastava acabar com esse complexo, seríamos campeões. E fomos.

Desde 1958, o Brasil virou a pátria em chuteiras. Pelé nos conferia uma autoridade real que o mundo inteiro reverenciava. Tínhamos o gênio. O melhor do mundo. Os melhores do mundo. Depois de 458 anos, o Brasil foi descoberto de verdade: temido, adorado e respeitado. E foi assim praticamente em todas as Copas até 2002, quando Rivaldo e Ronaldo mostraram que o Brasil ainda era um impávido colosso. Depois disso, parece que a máquina de produzir gênios quebrou. Bons jogadores apareceram. Craques, alguns. Mas não mais o gênio.

Hoje, os verdadeiros gênios assistem das tribunas ao desfile de meros mortais em campo. O Rei Pelé, em seu trono celeste, observa tudo envergonhado. Garrincha, o anjo das pernas tortas, procura pelo drible desconcertante, mas só vê um gigante nórdico, um bárbaro, sequer comemorar um gol contra a nossa seleção — como se aquilo fosse algo normal e corriqueiro. Maior humilhação, impossível. Alguns podem dizer que a culpa foi do pênalti perdido por Bruno Guimarães ou do gol desperdiçado por Endrick. Outros culparão as substituições, a convocação de Neymar ou a CBF. Nada disso.

Não se esqueçam de que são seis Copas seguidas de fracassos e vergonhas. Não se trata de um jogador, de uma jogada ou de uma substituição específica. É algo maior. É algo pior. Além do gênio, falta-nos a alma. O brio. Perdemos a nossa identidade e viramos um time comum.Sabe o que também falta ao Brasil? Os campos de barro, de areia batida, as crianças alegres, descalças e sem camisa, correndo atrás da bola o dia todo para o desespero dos pais. É dali que saem os gênios. É lá que se aprende a amar o futebol.

Hoje, só vemos prédios com suas quadrinhas gourmet ou escolinhas pagas com hora marcada e gramados artificiais.As novas gerações vão se formando sem ver o Brasil ser campeão. Crescem pessimistas, idolatrando os europeus, e o complexo de vira-lata ressurge. O futebol é arte. A arte é subjetiva. A jogada genial é repleta de subjetividade. Nós éramos os artistas da bola. Hoje, somos coadjuvantes de quem nunca jogou como nós. Hoje, infelizmente, somos a pátria sem chuteiras.