O guarda-chuva

Desde o início, era claro: ao tocar Lutosławski, arriscava a frágil estabilidade daquele fim de noite, semeando discórdia por simples impulso de agitação. É assim.

Hoje jantei com meu amigo e sua família. Com os pais, conversei sobre filas nos bancos – sinal de que o país não vai bem –, sobre a moça cujo rosto foi desfigurado pelo namorado com ácido, e sobre a cólera que o governo tenta conter. Com os irmãos, nem uma palavra: o mais novo se entretinha com um jogo de nome impronunciável; o do meio ouvia rock recolhido em seu quarto e, sem intenção alguma, me mantinha à distância. Aluno em fase terminal do curso de violino, meu amigo já me tocara todo o repertório. Estamos juntos desde as quatro da tarde, e Deus sabe que horas são agora.

Os assuntos se esgotaram. À exceção do irmão que, lá dentro, agride os próprios ouvidos num esforço de distinção, estamos todos na sala de visitas. O silêncio é partilhado. A mãe folheia uma revista, escolhendo o filme que verá em breve com o marido, enquanto este joga damas com o caçula. Não entendo por que o menino me estranha, fitando-me – eu, que já estive aqui tantas vezes.

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Venda avulsa na Livraria da Cepe