Vinicius e eu

Anos 1980. Naquele tempo, eu não podia imaginar que, um dia, me tornaria biógrafo de Vinicius de Moraes. Não alimentava, nem mesmo, o desejo de escrever biografias. Para mim, já ali, a ficção era tudo, mas a rotina bruta do jornalismo, com seus golpes de realidade, dela me afastava. Eu era repórter da sucursal carioca de Veja, em Botafogo (Rio de Janeiro). Cabia a mim a pauta mais banal, do dia a dia. Esportes, polícia, cotidiano, trivialidades, eu fazia de tudo. Era um entregador de notícias. Um repórter qualquer, a quem só interessava sobreviver.

O chefe me avisou que o poeta Vinicius de Moraes chegaria ao Rio para um grande show. Passou-me o telefone do apartamento em que ele se hospedaria. Devíamos entrevistá-lo. Sobre o quê? Ninguém sabia. Liguei para o número que me passou. A mulher que atendeu foi logo dizendo que era muito difícil falar com Vinicius. “O senhor sabe, ele dorme o dia inteiro”. Insisti. Insisti mais uma vez. Fui desagradável, como me ensinaram a ser. Exausta, ela agendou um horário, para o fim de tarde, em que o poeta talvez estivesse desperto. “Mas eu não posso garantir nada”, me alertou.

Telefonei na hora recomendada. Vinicius foi chamado. Custou a me atender. Era meio da tarde. “O que você quer?” – perguntou com uma voz visguenta. Expliquei que queria uma entrevista. “Sobre o quê?” – continuou, em um tom ainda mais desgostoso. Eu era uma barata, que ele enxotava sem piedade. Eu era Gregor Samsa. A conversa não começava bem. O pior: eu ainda não sabia sobre o que queria conversar. Talvez sobre o novo show. Talvez sobre novos projetos. “Sobre tudo”, respondi e Vinicius soltou uma gargalhada em estampido, que se parecia com um tiro. Com meu despreparo e minha inépcia, eu o merecia. A reportagem nunca foi minha vocação. Mas eu tinha uma tarefa a cumprir e devia seguir em frente.

Fui um rapaz desajeitado e tímido. Diante dos entrevistados, eu me sentia frágil e – por que não dizer – um covarde. Vinicius era grande demais para mim. E foi com esse sentimento doloroso, de massacre, que cheguei, no início da tarde seguinte, ao endereço que ele me indicou. Uma mulher de bigodes me recebeu. Foi dura: “O senhor espere. Tenha paciência. Nunca se sabe a hora em que ele vai levantar”. Passaram-se duas ou três horas, o sol já se inclinava, quando Vinicius, desgrenhado e rouco, surgiu na sala. “Quem é você?” – perguntou, surpreso. “O que você espera de mim?” Respondi que eu era o repórter de Veja com quem ele agendara uma entrevista. Para as 15 horas, enfatizei. Anoitecia, mas isso não o afligiu. Não a Vinicius de Moraes, para quem o Tempo era só uma convenção em que se aparavam os fracos.

“Vamos, diga logo”, continuou o poeta, em tom agressivo. Não concedia uma entrevista, cumpria uma tarefa. Ele, sim, estava no comando. E eu, trêmulo, aceitava o papel de servo. Mas o que ele esperava de mim? O que se espera de um repórter? “Como será o seu show da noite?” – enfim, perguntei. Arrancar o grande poeta de seu sono lírico para perguntar isso? Suas feições se transformaram. Respondeu com duas ou três frases mecânicas, entrecortadas por bocejos. Nada que prestasse, e ele sabia disso. Logo se levantou do sofá: “Está bom assim, não está”? Minha mente se desintegrava. Contive a decepção. Nada mais tinha a perguntar. Agradeci e fui embora.

É claro que Veja não publicou uma só linha de meu miserável texto. Ali, sem saber, eu começava a maquinar minha biografia de Vinicius. Ali, eu entendia que o jornalismo não era para mim e que minha escrita, ainda que torta e pantanosa, ou por isso, apontava em outra direção. Ainda vivi sete ou oito anos inúteis até chegar ao jornalismo literário. Já era uma porta entreaberta. Mas ainda não a porta. Não a porta que a biografia de Vinicius, o homem com quem não consegui conversar, me abriu. Quando eu, o tartamudo, encontrei, enfim, um caminho para falar.