Há muitos anos, leio as crônicas de Evanildo M. É um rapaz magro e alto, que se esconde sob barbas negras e frequenta, abnegado, minhas oficinas. O nome é falso. Resguardo o nome verdadeiro por precaução e também por delicadeza. Há mais de uma década, ele acompanha minhas aulas. Raramente falta. Nunca pede a palavra. Não apresenta seus escritos, tampouco abre a boca para comentar os trabalhos dos colegas. Seu silêncio é uma armadura, dentro da qual ele ouve e respira.
Um dia, tomei coragem e lhe perguntei: “De que você tem tanto medo”? Como eu temia, Evanildo ficou ofendido. Garantiu que não era medo, mas precaução. “O mundo está cheio de armadilhas, professor. Não quero oferecer minhas crônicas como isca aos inimigos.” Não entendi quem são seus inimigos. Entendi, sim, que Evanildo vê qualquer pessoa, qualquer um, e até a mim mesmo, como um inimigo em potencial. “Não quero que usem meus textos contra mim”, tentou explicar, sem nada explicar. E soluçou.
Em certa tarde de chuva, durante um intervalo, Evanildo me entregou um envelope lacrado. “Por favor, só abra em casa. Depois de ler, guarde a crônica e o lacre de novo”, me pediu. Cumpri o acordo. Assim que cheguei em casa, li sua crônica. Era um relato confessional, escrito na primeira pessoa. Tratava de uma experiência dolorosa, que misturava a tara, o transe e o misticismo. O título é sugestivo: “Este homem não sou eu”. Um título que desmente a confissão que ele nos oferece. E que transforma o Eu narrador em um falsário. Mais uma vez, Evanildo M. se esquiva. Ausenta-se até mesmo de seus textos confessionais.
“Li e não entendi o que você quis me dizer”, admiti. Por que o lacre? Por que o segredo? Por que o título que desmente o que está escrito? Por que se esquiva e se subtrai enquanto escreve? Se é para silenciar, por que escreve, então? Muitas perguntas me atordoavam. Alguma resposta eu merecia. Evanildo M. não respondeu a nenhuma delas. Limitou-se a dizer: “Se o senhor leu mesmo, está bom. Isso me basta”. E pediu a conta.
Até de seu único leitor, eu, um professor mediano, Evanildo M. duvida. Ainda insisti que deve perder o medo. Se escreve, precisa mostrar o que escreve, ou seus textos não existirão. Que outro sentido teria a escrita? Quem escreve, busca um destinatário. Só um leitor faz o texto existir. “Pode ser”, ele admitiu. “Mas, se é assim, o destinatário sou eu mesmo”, me disse. “Escrevo também para que depois não me acusem de não tentar”, ele continuou. Gaguejava. Suava muito. Quem seria a voz acusadora e cruel que lhe impunha a escrita como um castigo? Quem seria esse carrasco que, se o obrigava a escrever, obrigava-o também a negar seus escritos?
Li outras crônicas secretas de Evanildo M. Belas crônicas, audazes, delicadas, violentas, assustadoras, malvadas. Em cada uma delas, fui entendendo, Evanildo trata de um segredo que não pode ser dito. Comecei a me incomodar. Aos poucos, compreendi que Evanildo me destinava não só o papel de leitor, mas o de lixeira. Em mim, ele despejava suas mágoas, seus pesadelos, seus horrores. Uma vez descarregadas suas dores, ele voltava a um imenso silêncio. O que fazia com as crônicas? Queimava? Destruía? Talvez as devorasse – estremeci.
Ontem, chamei Evanildo M. para uma conversa definitiva. “Não me procure mais”, eu lhe disse. “A secretaria está proibida de aceitá-lo como aluno.” Derramou o refrigerante. Ficou branco. Tremeu, gaguejou, depois me perguntou: “Mas o que vou fazer agora”? Fui direto: “Procure outra lixeira para aliviar sua tristeza”. A verdade é que eu não o suportava mais. Nunca mais soube de Evanildo M. Muitas vezes me pergunto se continua a escrever. Se continua a existir. Se é que, algum dia, existiu mesmo.