Segundo Freud, no processo de escrita, os conteúdos inconscientes passam por um crivo do consciente antes de se transformarem em criação ou ficção. Mesmo numa escrita automática, esse processo prevalece, sendo os conteúdos fragmentários e meramente inconscientes produção de uma mente descontrolada e em estado de loucura. Assim, como nos sonhos em que admitimos que “conhecíamos e nos recordávamos de algo que estava além do alcance de nossa memória de vigília”, na criação também podemos reconhecer conteúdos da história pessoal e do que incorporamos de outras fontes a nossa biografia.
Ainda citando Freud, quando trata sobre A psicologia dos processos oníricos, ele registra um sonho que lhe foi narrado por uma senhora, que o ouvira numa conferência. A narrativa a impressionou e ela passou “a repetir alguns dos conteúdos narrados num sonho pessoal. Apoderando-se do sonho alheio, podia expressar concordância com ele, num ponto determinado”.
A história foi a seguinte: Um pai estivera de vigília à cabeceira do filho enfermo, por dias e noites a fio. Após a criança falecer, passou para o quarto contíguo a fim de repousar, mas deixou a porta aberta para ver de seu quarto a sala onde o corpo do filho jazia, com longas velas erguidas em torno dele. Um velho fora contratado para velá-lo e sentou-se ao lado do corpo. Após algumas horas de sono, o pai sonhou que o filho estava de pé, o pegava pelo braço e sussurrava em tom de censura: Pai, não vê que estou queimando? Ele acordou, notou um clarão brilhante no quarto contíguo, correu para lá e descobriu que o velho havia adormecido e que as roupas e um dos braços de seu filho tinham sido queimados por uma vela acesa, que tombara sobre eles.
Interessa observar como o relato é incorporado pelo conferencista, pela senhora que o escutou e por Freud, que se dedica a interpretá-lo. Trata-se de sonho, de conteúdo onírico, Freud o aborda com intenção científica. Mas as repetições o transformam em peça de literatura. A narrativa torna-se propriedade coletiva, memória de outros a ponto de ser reelaborada como sonho. Em sucessivas etapas, um relato biográfico ganha diversas funções e significados. O documento torna-se ficção e a ficção ganha novo registro.
Quando escrevemos uma biografia, a quem estamos biografando, a nós mesmos? O que podemos garantir ser próprio, se é possível acessar um legado de bens que se acumula em milhares e milhares de anos de história do homem?
Em Shakespeare, história e ficção se misturam num espaço nebuloso. Quem são Júlio César, Antonio e Brutus? O que possuem em comum com a história? Quem foi o rei Lear? Será possível não ter existido?
Certa vez, recebi um telefonema de meu pai e falei que tinha ilustrado minha fala numa conferência com a história de um primo nosso, Gustavo de Caldas, que viajara a Goiás, à procura de trabalho, e fora grilado, vivendo muitos anos como escravo de uma fazenda. Narrei os detalhes do que imaginava ser verdade, disse ter escrito um conto sobre o tema. Papai tinha uma memória prodigiosa, revelou-me que aquela não era a história de nosso primo, tratava-se de um fato acontecido com um empregado do meu avô paterno, em 1930, quando meu pai tinha apenas cinco anos. Eu, certamente, ouvi a história narrada por ele, quando também andava pelos cinco anos, e recriei-a como se tivesse acontecido com o primo Gustavo de Caldas, que viajara pelo Centro-Oeste. Senti-me transtornado com o deslizamento, e o meu conto ganhou outro significado. Descobri o modo como se constrói a memória, esse patrimônio a que recorremos para a nossa ficção.